A trinta anos de sua morte: Nahuel Moreno e a defesa do trotskismo operário e internacionalista

Por: Francisco Moreira

Moreno foi um construtor incansável de partidos revolucionários e da Quarta Internacional, se convertendo num dos seus dirigentes mais destacados no pós-guerra. Nos deixou um exemplo de luta que mantemos vivo desde o Izquierda Socialista e a UIT-QI.

Leon Trotsky, dirigente bolchevique que junto a Lenin encabeçou a tomada do poder pelos soviets em 1917, se converteu na principal figura da oposição de esquerda à contrarrevolução burocrática levada à frente pelo stalinismo. Em 1938, exilado e perseguido, fundou junto a uns poucos seguidores a Quarta Internacional, procurando a construção de uma direção revolucionária, consequente com o internacionalismo e a democracia operária que o stalinismo havia enterrado na URSS e na Terceira Internacional. Seu assassinato, em 1940, por um agente stalinista e as dificuldades colocadas pela segunda guerra mundial desagregaram a jovem organização e muitos dos seus adeptos iniciais começaram a abandonar seu programa. Moreno, que aos 19 anos se somou ao trotskismo, batalhou pela defesa dos princípios marxistas do trotskismo, polemizando com as correntes que se afastavam deles

É assim que, em 1944, Moreno funda o Grupo Operário Marxista (GOM), tirando o movimento trotskista argentino dos debates dos cafés e levando para a militância operária, começando sua atividade em Villa Pobladora (Avellaneda). Se forja dessa maneira, enfrentando no seio da classe trabalhadora tanto Perón e seu projeto “nacional e popular”, como as demais direções políticas que defendiam saídas dentro do marco capitalista. Em 1948, participa do II Congresso da Quarta Internacional, em Paris, da qual se torna um dos principais dirigentes.

Polêmicas na Quarta Internacional

Alguns dirigentes não estiveram à altura dos desafios e, refletindo as distintas pressões às quais estava submetida a Quarta Internacional, construíram correntes que se afastavam de suas bases fundacionais. No Congresso de 1948, uma ala, de forma sectária, se negou a reconhecer que haviam surgido estados operários burocratizados, análogos à própria URSS, na Polônia, Hungria, Tchecoslováquia é demais países do leste europeu ocupados pelo Exército Vermelho. Moreno e outros dirigentes consideraram que nesses países era necessário defender a conquista da expropriação da burguesia frente qualquer possibilidade de agressão imperialista, sem deixar, por isso, de defender a necessidade de uma revolução política que liquidasse o regime burocrático do stalinismo e instaurasse uma genuína democracia dos trabalhadores.

A partir do III Congresso, de 1951, Michel Pablo e seu discípulo Ernest Mandel começaram a impor uma linha de capitulação ao stalinismo e aos nacionalismos burgueses na América Latina, Ásia e África. Por exemplo, apoiaram o regime burocrático de Tito na Iugoslávia, o nacionalista burguesa Victor Paz Estenssoro, traindo a revolução boliviana de 1952, e o nacionalista argelino Ben Bella. Moreno alertou que essa orientação oportunista levava a renunciar a construção de partidos revolucionários e da Quarta Internacional. O triunfo da revolução cubana contra Batista, em 1959, e as posteriores expropriações reavivaram o debate. Moreno defendeu a primeira revolução que adotou medidas de transição ao socialismo na América Latina, contra as posições sectárias que rechaçavam tal caráter para as mudanças ocorridas em Cuba. Ao mesmo tempo, Moreno enfrentava a corrente mandelista que capitulava à direção castrista. A burocracia cubana, como a própria experiência demonstrou, abandonou o internacionalismo e se adaptou ao stalinismo, e a longo prazo, inclusive, restaurou o capitalismo. Diante de todos esses fenômenos, Moreno sempre reafirmou a necessidade de construir partidos revolucionários como única alternativa de direção para os trabalhadores e aos setores explorados e oprimidos.

Após a revolução da Nicarágua de 1979, na qual a corrente encabeçada por Moreno participou da luta contra a ditadura pró-ianque de Somoza através da Brigada Simón Bolívar (BSB), o governo sandinista fez aliança com um setor da burguesia. Enquanto Fidel chamava a “não fazer da Nicarágua uma nova Cuba”, ou seja, que não se expropriasse a burguesia, os ex-combatentes da Brigada impulsionavam a construção de sindicatos independentes, na perspectiva de uma transformação socialista na Nicarágua. A direção sandinista, como parte de suas medidas para disciplinar burocraticamente as massas, deteve e expulsou os trotskistas da BSB. A corrente de Mandel apoiou essa repressão, uma falta grave à moral proletária que provocou a ruptura definitiva com a corrente mandelista.

No movimento trotskista, também surgiu uma tendência que menosprezava a importância da construção internacional, e que centrava seus esforços na construção de correntes em só país. Essa tendência, chamada de “nacional-trotskismo”, foi outro desvio no qual incorreram partidos que se reivindicavam trotskistas, mas que na prática se afastavam dos princípios internacionalistas. Moreno sempre valorizou o internacionalismo como fundamental e imprescindível, não apenas a nível formal ou declarativo, razão pela qual sempre apostou na construção de uma organização internacional.

Fonte: http://izquierdasocialista.org.ar/index.php/periodicos-ediciones-anteriores/el-socialista-n-338/4924-a-treinta-anos-de-su-muerte-nahuel-moreno-y-la-defensa-del-trotskismo-obrero-e-internacionalista

 

 

 

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