COM TRUMP MUDA A POLÍTICA AMERICANA NA SIRIA?

Ataque a base militar na Síria

Josep Lluís Mas e Cristina Alcázar (LI-Estado Espanhol/UIT-CI)

O ataque com 59 mísseis Tomahawk, lançados de navios no Mediterrâneo para uma base militar do regime sírio, é mais uma encenação de Trump por causa das dificuldades no ambiente interno do que um sinal de envolvimento dos EUA contra Bashar Al Assad. O ataque foi avisado à Rússia visando manter o sistema de coordenação, que EUA e Rússia mantém nas operações aéreas em território sírio, assinado em agosto de 2015. Isto permitiu que Assad retirasse as aeronaves e helicópteros operacionais. Os 59 foguetes caíram, em sua maioria, fora das instalações militares, sem afetar as pistas de pouso, e no dia seguinte a base do exército sírio estava operando para continuar os bombardeios contra a população rebelde. Sequer a Rússia utilizou o sistema de proteção antimíssil.

Trump usou a desculpa do ataque químico para tentar demonstrar sua independência em relação a seu amigo Putin, quando essa relação está sendo investigada, e também para voltar à primeira linha do tabuleiro do jogo sírio. Mas, não pretende impulsionar a queda do regime sírio, nem mesmo da figura de Bashar, e menos ainda é um apoio aos rebeldes sírios.

Nos territórios que ainda estão fora do controle do regime, houve mostras de júbilo pelo ataque: finalmente alguém para pisar no ditador sanguinário. Porém, isto é uma miragem. Trump odeia os povos árabes e é seu principal inimigo. Inimigo, quando lhes nega abrigo e impõe proibições para impedir a entrada deles nos Estados Unidos. Inimigo, quando, em 3 de abril, recebeu na Casa Branca o golpista egípcio Al Sisi, após a libertação do ditador Mubarak, enquanto centenas de jovens trabalhadores e revolucionários permanecem na prisão. Por ocasião do encontro, Trump declarou solenemente “Eu quero que todos saibam que apoiamos muito o presidente Al Sisi” e, também, que ele tem feito “um trabalho fantástico”, ao qual o ditador respondeu que lhe sentia grande “admiração”. Inimigo, também, quando aplaude Netanyahu e a política contra os palestinos.

O ataque dos EUA recebeu aplausos entusiasmados de Israel, o único na área que tem carta branca para destruir e matar com total impunidade. A declaração de apoio do gabinete do primeiro-ministro acaba dizendo que espera que a mensagem “seja ouvida não só em Damasco, mas também em Teerã, Pyongyang e mais além.” Os governos imperialistas europeus, Turquia e Arábia Saudita também aplaudiram o ataque e têm visto como o Irã têm aumentado sua influência regional. Não é por acaso que seja o Irã que tenha feito as declarações mais duras contra o ataque. Porque Trump também emitiu um aviso para o regime do Irã, uma vez que ele tem feito o trabalho sujo no Iraque e Síria, a serviço dos regimes apoiados pelo EUA e Rússia, respectivamente: “Roma não paga traidores”. O presidente americano se diz disposto a rever o acordo com o Irã e estaria dando carta branca a Israel para lançar uma operação semelhante contra Teerã se for o caso.

Trump: nova política para a Síria-Iraque?

Trump, na campanha eleitoral, tinha respondido à pergunta feita a ele, sobre qual política iria promover contra o ISIS, dizendo que “quanto aos terroristas, também devemos pegar até suas famílias”. Segundo o The New York Times, a Casa Branca instruiu o Pentágono para acentuar a ofensiva em Mosul e Raqqa e lhe deu autonomia para as operações. No início de março, o Exército dos EUA implantava, pela primeira vez, unidades marinhas, artilharia pesada e Rangers para preparar o ataque a Raqqa, em coordenação com as forças curdas. Os bombardeios sobre a cidade se intensificaram e com eles multiplicaram-se os civis mortos, entre eles os mais de 30 da escola Al Badia em Mansura, a oeste de Raqqa, em 21 de março. Haviam matado 40 na mesquita de Jinnah, a leste de Aleppo. Mais brutal está sendo a campanha em Mosul, com pelo menos 200 mortos no ataque aéreo no bairro de Jadida.

Mas há que se registrar a política de Trump em perspectiva à de seus antecessores. Bush se lançou à conquista do petróleo iraquiano, porém essa aventura terminou com um fiasco econômico para os cofres norte-americanos e um crescente movimento anti-guerra, que fazia ressuscitar os fantasmas do Vietnã.  Obama assumiu tendo que retirar as tropas do Iraque e, para não perder o controle do governo pós-ocupação, teve de pactuar com o Irã o apoio ao governo de Al Maliki, que resultou no acordo com o Irã. Dessa forma, Irã passou a sustentar com uma mão o governo iraquiano pró-americano e com outra mão o governo sírio pró-russo. A crescente influência do Irã na área não agradou nem a Israel nem àqueles que têm um protagonismo regional, como a Turquia e Arábia Saudita. Da mesma forma, o imperialismo foi obrigado a recorrer à liderança política dos curdos, tanto na Síria (com o PYD), como no Iraque (com Barzani), para conter a propagação do ISIS. A aliança com o PYD, irmão do PKK turco, gera um problema com a Turquia, sua aliada na OTAN.

O surto dos levantes revolucionários, depois de 2011, colocou na agenda do imperialismo norte americano, da Rússia e dos poderes contrarrevolucionários (Al-Qaeda e outros grupos jihadistas, Irã, Turquia, Arábia Saudita e Qatar) uma nova prioridade: derrotar essa mobilização popular que ameaçava a ordem estabelecida. Todos esses poderes intervieram na Síria para apagar o fogo da revolução e mandar um aviso para todos os povos. Precisamente por esta razão, permitir ou facilitar a queda de Al-Assad é muito arriscado, pois poderia reabrir a onda revolucionária na região. E isso é o que todos querem evitar, a todo custo.

Após a queda de Aleppo, em dezembro, as forças revolucionárias ficaram muito dispersas em áreas com forte domínio militar dos islamitas de Al Nusra e Ahrar al-Sham, ou do Estado Islâmico. Somente a partir desta nova situação, acelerada pela Rússia, antes de Trump tornar-se presidente, foi possível iniciar a implementação da nova agenda para restaurar o status quo anterior: voltar a submeter os curdos, reconstruir as relações com a Turquia e poder prescindir do Irã para reposicionar a proeminência de Israel como um gendarme imperialista no Oriente Médio. Em segundo lugar, acabar com o ISIS.

Porém, para isso é necessário terminar de liquidar o processo revolucionário na Síria e estabilizar o regime de Bashar, e o Iraque, enquanto isso não for resolvido, continuará necessitando tanto de Teerã como dos jihadistas.

Putin reconhece Jerusalém como capital de Israel

É neste novo contexto que Israel, que se manteve em um discreto segundo plano diante da ascensão revolucionária, recupera seu protagonismo: construção de mais de 6.000 casas em Jerusalém Oriental e na Cisjordânia, e a legalização de 53 colônias, matando Mazen Faqha, líder do Hamas em Gaza, em 24 de março. Em fevereiro, na Casa Branca, Netanyahu declarou: “Não há maior defensor do povo judeu e do Estado judeu que o presidente Donald Trump”.  Mas, ninguém se engane, não estamos diante de uma escalada do confronto entre estados árabes e Israel, nem sequer de um aumento de tensão entre os EUA e a Rússia, senão diante da tentativa do imperialismo de recuperar a situação anterior a seu fiasco no Iraque.

A exigência histórica do sionismo tem sido o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel. E em meio a dúvidas de Trump para mover sua embaixada de Tel Aviv, é Putin quem assume a liderança. Em 6 de abril, o ministro das Relações Exteriores anunciou que reconhece Jerusalém Ocidental como capital do estado de Israel, enquanto a zona ao leste seria a capital do Estado palestino quando este for fundado. Rússia torna-se o primeiro e único Estado a reconhecer Jerusalém como capital de Israel.

9 de abril de 2017

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