Breve análise sobre os últimos acontecimentos e a tese da “onda conservadora”

Guilherme Bento (CST/PSOL-RJ)

Um dos assuntos mais debatidos na esquerda há uns dois anos é a tese de que o Brasil (e o mundo) passa por uma verdadeira “onda conservadora”, de modo geral. É possível afirmar que a maior parte da esquerda brasileira tem essa análise, que é concebida com base no surgimento de grupos de direita organizados como o MBL, o crescimento da figura do Bolsonaro e as movimentações nos parlamentos e executivos, como a recente PEC 181 que retrocede do direito ao aborto em caso de estupro. No entanto, para fazer uma análise correta da realidade, é necessário olhar tanto para a história, quanto para o que se passa por fora da superestrutura (partidos, parlamento, e etc). 

No campo das opressões, é nítido que não vivemos uma onda de conservadorismo nas massas, o que existe na verdade, são grupos que frente ao ascenso progressista, começam a reação e se organizam para gritar contra o avanço dos ideais libertários, pois o que predomina é uma crescente massificação das pautas libertárias. Em 2014, depois de anos de ascenso da pauta LGBT a partir dos movimentos, tivemos o primeiro beijo gay na TV Globo;  em 2013 é legalizado o casamento entre pessoas do mesmo sexo e na atualidade já é uma realidade uma novelas de sucesso tratando da transexualidade, onde o personagem teve uma boa simpatia das massas.
Em relação a luta das mulheres, em diversos países do mundo foi possível detectar o levante feminista. Aqui no Brasil podemos destacar os atos massivos em 2016 contra o estupro coletivo que ocorreu no Rio de Janeiro, um crime que não é raro, mas que nunca tinha sido recebido pela população com tanto repúdio e manifestações de rua, antes disso tivemos o fora Cunha e no RJ a derrota do candidato apoiado por Cabral, Pedro Paulo, que tinha espancado sua mulher.Em 2017, tivemos um março todo feminista, onde as mulheres e suas pautas foram protagonistas em uma série de manifestações pelo país inteiro. Essa onda progressista fez com que a Rede Globo, que sempre tratou sua estante de atores globais como intocável, tivesse que afastar José Mayer após denúncias de assédio sexual, algo inimaginável há 10 anos atrás. Algo semelhante ocorre agora com a questão do racismo, onde a Globo teve que ler  no editorial do Jornal da Globo que William Waack seria afastado por causa de racismo. Isso não aconteceria se houvesse um giro a direita da consciência das massas no Brasil. 

Por último, sobra a questão econômica. Os que afirmam que existe uma onda conservadora no país, utilizam as medidas de retrocesso que um governo que não chega aos 3% de aprovação aplica ou tenta aplicar, mas não enxergam que do outro lado, desde junho de 2013, existe uma crise em que os debaixo não aceitam o governo dos de cima, e os de cima não conseguem governar os debaixo como em épocas “normais”. Onda conservadora haveria se Temer e suas medidas contassem com a aprovação de uma parcela importante dos trabalhadores e do povo, o que está longe de acontecer. As medidas de ajuste fiscal de Temer, os governos estaduais e municipais sofrem um enorme rechaço, ao ponto das direções burocráticas das grandes centrais sindicais terem sido empurradas a chamar uma greve geral em 28 de abril, quando ocorreu a maior greve geral dos últimos 40 anos, com 40 milhões de trabalhadores parados.
Se hoje Temer continua governando mesmo com quase 0 % de popularidade, é porque as direções das grandes centrais sindicais (CUT, CTB, Força Sindical, UGT, etc. com o apoio do PT de Lula, do PMDB de Temer e dos tucanos) selaram um pacto, um grande acordão com o governo Temer e desmontaram a greve geral de 30 de junho e não porque existe uma falta de disposição pra luta ou apatia nos trabalhadores diante das reformas. Ao mesmo tempo, mesmo com as vacilações das direções, Temer não conseguiu entregar ao patronato aquilo que prometeu entregar o mais rápido possível assim que subiu ao poder: a Reforma da Previdência. E já é consenso que se ela for aprovada, vai ser descaracterizada em relação ao projeto original, pois existe um rechaço total da população contra essa reforma. 
 
Existem alguns setores, como o universitário e parte da classe média, que ainda alimentam uma esperança real no projeto lulopetista, mas nas camadas de trabalhadores, o máximo que existe é uma disposição para votar no Lula, não porque possuem esperanças nesse projeto como era nos anos 80 ou 90, mas pelo sentimento de “menos pior” ou até mesmo do “rouba mas faz”. Lula pode até vencer no próximo pleito eleitoral, mas nunca voltará a ser a direção política e sindical do movimento de massas, pois o processo de ruptura com  classe trabalhadora e os setores populares é irreversível. É por isso que mais do que nunca, é preciso a formação de uma Frente de Esquerda Socialista, para combater os setores da direita tradicional que tentam canalizar toda essa rebeldia do povo, mas também para ser uma alternativa perante ao petismo falido que tenta se reciclar no movimento de massas, atraindo as esquerdas que não se venderam para projetos como a plataforma Vamos que tenta reeditar o famoso “programa democrático popular” que através da conciliação de classes nos trouxe ao cenário que temos hoje. Portanto, é imprescindível  se postular como alternativa (não só nas eleições, mas fundamentalmente nas lutas) para essa gigantesca camada que não se vê representada em ninguém, que no último período fez greve geral e se envolveu em várias lutas locais, e para isso, é necessário levantar uma programa da nossa classe, de ruptura com esse sistema nefasto que controla o país, um programa que seja o oposto do que essa tentativa de reedição do “programa democrático popular” que está em curso. Um programa que parta da ruptura com o odioso sistema da dívida pública, que drena a maior parte dos recursos do país para o bolso do sistema financeiro, enquanto falta dinheiro para saúde, educação, moradia, segurança e moradia. 

 

 

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