Debate: Devemos lutar pelo direito do Lula a ser candidato?

Em editoriais e artigo assinado pelo dirigente Valério Arcary, o MAIS, Movimento por uma Alternativa Independente e Socialista, afirma que devemos lutar para Lula ser candidato em 2018, já que uma possível inabilitação por condenação por atos de corrupção significaria um ataque aos direitos democráticos.

Vivemos num tempo onde a multiplicação dos atos de corrupção faz impossível ocultar o imenso mar de lama. O antigo papel de “fiscal da ética”, representado pelo PT, esfumou-se com a chegada de Lula à Presidência. Ao invés de restaurar a ética, preferiram se locupletar. Daí que a justiça burguesa, a justiça dos ricos, numa atitude que não lhe é natural, tenha-se visto obrigada a processar notórios personagens de diferentes partidos e de grandes empresas, para responder a um clamor popular.

Nesse cenário, o da corrupção, e não da cassação de direitos por ações políticas, se debate a possível candidatura de Lula. Alguns políticos, como Sergio Cabral e Eduardo Cunha (PMDB), Eduardo Azeredo (PSDB), Pedro Correa (PP), João Paulo Cunha, Antônio Palocci, José Dirceu (PT), já estão inabilitados para participar do pleito eleitoral. Deveríamos fazer uma campanha para exigir a liberdade ou o arquivamento dos processos contra esses políticos para que possam se apresentar nas próximas eleições?

Lula é farinha do mesmo saco

Diferenciar Lula, caso fosse condenado, destes ou de outros políticos e empresários corruptos é no mínimo gerar uma grande confusão. É o que faz o MAIS. No seu editorial de 13 de dezembro escrevem: “excluir Lula das eleições é um grave ataque às liberdades democráticas”, “é urgente a mais ampla unidade de ação em defesa das garantias democráticas e do direito de Lula ser candidato […] que lidera todas as pesquisas de intenção de voto”.  Não se trata de encabeçar circunstancialmente as pesquisas de intenção de votos, pois isso não lhe outorga mais direitos.

Mas o MAIS insiste na tese do golpe e da conspiração burguesa para tirar Lula do páreo. “A classe dominante não deu o golpe para dois anos depois o PT e Lula voltarem ao poder com outro governo de colaboração de classes. A burguesia quer um governo burguês ‘puro sangue’ que dê continuidade ao programa de extermínio dos direitos sociais”. Os companheiros do MAIS se esquecem que o próprio Lula repetiu mil vezes: “nunca antes na história os banqueiros lucraram tanto” ou “nunca antes se fez um ajuste tão grande como no início de meu governo”. A burguesia e o imperialismo podem até desejar governos “puro sangue”, mas sabem que o melhor serviço, para eles, foi prestado por Lula, queridinho não só dos grandes empresários e banqueiros, mas dos próprios Bush e Obama.

Claro que a justiça não é neutra, mas daí a desistir de lutar por justiça há um longo caminho. As possíveis condenações contra Lula não significam simplesmente a criminalização da direção do PT. É uma das tantas respostas que a justiça burguesa se viu obrigada a adotar pela pressão das massas que não suportam mais corrupção. Nossa pressão não pode ser para livrar a cara de Lula, mais para efetivar as condenações dos políticos corruptos que se apoderaram do estado para usá-lo em seu benefício, Lula entre eles, à custa do sofrimento e das necessidades do povo trabalhador.

Nesse lamaçal, Antônio Palocci não é o Judas da direção do PT que enfiou uma faca pelas costas de Lula, como tenta nos inculcar Arcary. Palocci é o resultado final da política da direção do PT.  Não há princípios éticos nem moralidade a ser defendida, a não ser compadrios, relações espúrias e compromissos pessoais.

Uma análise à medida para justificar uma política equivocada

Diferente das análises do MAIS e de Valério Arcary, 2017 não “foi um ano horribilis” (sic). Essa definição conduz a políticas equivocadas. Definir 2017 como “um ano que não deixará saudades” porque passaram projetos do governo contra os trabalhadores é equivocado. Tivemos um primeiro semestre recheado de grandes mobilizações, coroado com a maior greve geral da história do Brasil; o ano está acabando com greves e mobilizações que dificultam ao governo a aplicação de seu plano de ajuste. Insistir nas debilidades do movimento e na força do inimigo pode servir apenas para justificar suas políticas recuadas, de unidade com o campo petista, mas desarmam o movimento.

O ano de 2017 demonstrou-se um grande ano. O ano da greve geral; o ano em que impedimos a votação da reforma da previdência; o ano em que, se não avançamos mais para cima deles, foi pela traição das direções majoritárias do movimento. Vamos rumo a 2018 com vigor, a construir frentes únicas para potencializar a ação comum, como propõem os companheiros do MAIS, mas não para salvar a cara de Lula. Sim para derrotar as políticas de ajuste do ilegítimo governo Temer, para continuar indignados contra esta Justiça dos ricos e exigir o castigo e expropriação de bens dos corruptos, a liberdade definitiva de Rafael Braga e o fim do genocídio de jovens negros das periferias. O ano de 2017 nos deixa muitas lições, mas fundamentalmente uma tarefa: construir urgentemente uma nova direção sobre os escombros do lulopetismo.

Por Adolfo Santos (Coordenação Nacional da CST/PSOL)

 

 

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