Plínio Jr. | Minhas Críticas à Entrevista de Boulos

O debate sobre a candidatura do PSOL à Presidência da República nas eleições de 2018 aquece os fóruns da militância mesmo que a direção do partido já tenha escolhido, sozinha e distante dos necessários debates programáticos, o nome de Guilherme Boulos para o partido. À espera das definições do PT e do Judiciário sobre a candidatura de Lula, Boulos ainda não se filiou ao PSOL.

Abaixo reproduzimos o texto de Plínio de Arruda Sampaio Júnior, militante histórico do partido e professor de Economia da Unicamp, em resposta crítica à entrevista dada por Boulos à Revista Carta Capital, em 6 de janeiro.


Minhas Críticas à Entrevista de Boulos

Pela clareza e didatismo, a entrevista de Guilherme Boulos à Carta Capital é leitura obrigatória para toda a militância do PSOL. Nela, o líder do MTST – o candidato desejado pela direção do partido – explicita sua leitura da realidade.

Na visão de Boulos, o golpe de Temer é o grande divisor de águas da vida nacional e o resgate da Nova República é a principal tarefa da conjuntura. A deposição de Dilma é atribuída à radicalização da Casa Grande e seus políticos. O urgência de derrotar os golpistas colocaria  na ordem do dia a necessidade da unidade das esquerdas. Investindo contra o sectarismo “da pureza salvadora” e o dogmatismo dos que estigmatizam toda diferença como “divisionismo”, Boulos procura cavar seu espaço como ponto de convergência entre a esquerda socialista e o PT. Aposta que, na ausência de Lula no pleito de 2018, ele possa conquistar protagonismo na política nacional.

Boulos é uma importante liderança popular e sua posição merece o respeito da crítica. A divergência com seu posicionamento é política e deriva da diferença substancial na leitura sobre a natureza da crise que abala a vida nacional, o significado dos governos de Lula e Dilma e os desafios do momento histórico. Ao longo dos próximos meses, na batalha por um processo democrático de escolha do representante do PSOL na eleições de 2018, teremos oportunidade de expô-la de maneira detalhada. Por ora, apenas algumas observações críticas para elucidar nossas discrepâncias em relação à visão da crise política, ao balanço do PT, à concepção de esquerda e à localização da esquerda socialista no tabuleiro eleitoral.

Na ausência de uma perspectiva de classe, Boulos interpreta a crise política como um fenômeno circunstancial, derivado de uma conspiração palaciana, que poderia ser revertida em 2018 com a eleição  de um presidente legítimo, que representasse de fato a vontade popular. Daí, a defesa intransigente do direito de Lula disputar as eleições. Sua interpretação não percebe que o golpe não foi de Temer e dos golpistas e nem começou com a deposição de Dilma. O golpe foi do capital contra o trabalho e começou com a reação da burguesia brasileira ao levante da juventude nas Jornadas de Junho de 2013. O primeiro ato do golpe foi a repressão violenta das manifestações com a absoluta cumplicidade de todos os partidos da ordem, inclusive o PT. Nisso, Dilma, Lula, Haddad, Alckmin, Cabral estavam todos juntos. O segundo ato do golpe foi o estelionato eleitoral de Dilma e o início do flagelo do ajuste sem fim, acompanhado, é importante não esquecer, da criação da Força Nacional, da Lei Antiterrorista e a sistemática repressão a todo protesto contra a Copa. A ascensão de Temer – o terceiro ato do golpe – radicalizou a guerra da burguesia contra os trabalhadores. Um golpe preparou o outro. Os que golpearam – todos eles, cada um a seu modo – foram apenas agentes do capital. Ao tornar explícita a falência da Constituição  de 1988 e a irreversibilidade da crise terminal da Nova Republica, a deposição de Dilma representou uma mudança de qualidade na crise política, mas nada que justifique uma volta ao passado. Vaso quebrado não tem conserto. É preciso olhar para o futuro.

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Lula visita ocupação do MTST na semana em que saíram as primeiras notícias sobre uma candidatura de Boulos pelo PSOL. Foto: Folha de São Paulo, outubro de 2017

A incompreensão da profundidade da crise política leva Boulos a caracterizar Bolsonaro como “uma farsa”. É um grave engano. A força de Bolsonaro é real. A agonia da Nova República coloca na ordem do dia a necessidade de sua substituição. Bolsonaro expressa uma resposta radical, pela direita, às crescente parcelas de trabalhadores que perderam completamente a fé no sistema político. Ele cresce não apenas na burguesia e na pequena burguesia, mas também entre os trabalhadores que chegaram à conclusão de que “todos os políticos são iguais”.

A resposta da esquerda da ordem, onde, pelas relações orgânicas do MTST com o Estado, Boulos se situa, é insuficiente. É impossível restaurar um padrão de dominação historicamente condenado. O antídoto à resposta ditatorial de Bolsonaro não é negá-la como possibilidade inscrita na luta de classes, mas oferecer uma alternativa radical pela esquerda à crise terminal da Nova República. O desafio é superar os limites da democracia de cooptação do período anterior. Não há como resolver o antagonismo entre o princípio da representação da vontade popular e o absoluto controle do capital sobre o Estado sem transformações econômicas, sociais e políticas de grande envergadura.

Por fim, a dificuldade para realizar a unidade da esquerda não decorre de picuinhas infundadas, atribuídas à imaturidade e mesquinharias das direções partidárias, como sugere Boulos, mas de compromissos políticos antagônicos que impedem a convergência programática. A impossibilidade da unidade programática é tanto maior quando o regime burguês fecha completamente qualquer brecha para a reforma, como ocorre no capitalismo contemporâneo de uma maneira geral e no Brasil de maneira muito particular. Ao não diferenciar a esquerda da ordem – PT, PCdoB – da esquerda contra a ordem – PSOL, PSTU, PCB – dilui-se o abismo que se interpõe entre os partidos enquadrados nas exigências do capital; e os partidos que se batem pela revolução social. Queira ou não, os primeiros operam necessariamente dentro dos parâmetros da conciliação de classe. Em poucas palavras, o problema da unidade da esquerda não se situa no campo abstrato da psicologia das lideranças políticas e de suas idiossincrasias. O bloqueio a unidade programática das esquerdas decorre das diferenças nos vínculos da esquerda da ordem e da esquerda contra a ordem com as classes sociais que pretendem representar.

É claro que as diferenças qualitativas entre as esquerdas não são – e não poderiam ser – fatores impeditivos de uma unidade na luta em torno de questões concretas como, por exemplo, a defesa da democracia e a preservação de conquistas sociais. Nesse campo, diga-se de passagem, as dificuldades à unidade originaram-se invariavelmente dos compromissos orgânicos da esquerda da ordem com o capital. O ano de 2017 foi emblemático. Toda vez que um empurrãozinho poderia ter derrubado Temer e bloqueado os ataques aos trabalhadores, PT e PCdoB tergiversaram, evidenciando seus compromissos velados com o mundo dos negócios. Unidade nas ruas só quando convém a conveniências partidárias muito particulares é oportunismo.

3 thoughts on “Plínio Jr. | Minhas Críticas à Entrevista de Boulos”

  1. Carlos Antonio da Silva says:

    Boa Noite Plínio Jr.

    Trabalho como turnante folguista em um prédio de copacabana já há 15 anos,estou preocupado com essas perdas sucessivas de direitos, tenho espírito de sacrifício suficiente para saber que meus interesses como trabalhador são diferentes dos interesses dos interesses dos patrões, portanto conciliação de classe uma ova, pago meus impostos em dia, tenho direitos e deveres de exercer livremente minha cidadania igual á qualquer cidadão politizado e consciente. Seus argumentos são perfeitos embora eu não saiba interpretá-los com meu supletivo do fundamental e médio apenas , confesso que deu água na boca, mas sejamos sinceros, o psol é muito fechado em si mesmo, quantas eleições presidenciais mais continuaremos enfrentando só para enxugar gelo, não chegar a lugar nenhum, só nas graças midiática de uma imprensa fascista que trabalha contra os interesses do povo trabalhador brasileiro, lhes pergunto onde o PSOL faz trabalho de base ? nas favelas? no campo? na tv apenas, no rádio, na internet, onde estar a força da base social do psol falando para fora ? como ganhar uma eleição presidencial sozinho? considerando que somos um país de dimensão continental, que temos especificidades regionais, locais , o senhor Plínio Jr. já viajou pelo País? o povo pela mídia ficará sabendo suas propostas e projetos? o senhor é conhecido nacionalmente? como o senhor foi escolhido para ser o candidato do partido? Não adianta gastar energias com candidato a presidente para no dia da eleição não chegar há 1.609.982 Votos, mas até quando o partido irá ficar apenas nas teses, na intelectualidade e sem encarar os fatos reais do cotidiano brasileiro.
    Quero muito me filiar ao psol e esse debate interno e crítico das candidaturas que estão sendo apontando como possíveis nomes do partido são importantes. Mas até quando ficaremos patinando com teorias acumuladas e discursos bonitos que no fundo fragilizam ainda mais as esquerdas. Não sei se o partido chegará há um denominador comum. Mas eu apoio 100% BOULOS presidente. e não adianta tentar colar em Boulos conciliação de classe não, porque ele tem histórico de luta real e conhece a beleza cultural e a profundidade da alma do povo brasileiro.
    Estamos no caminho certo. Vamos opinar. Não sou filiado ao psol. Mas como LGBT acompanharei o nome do partido como tenho feito a cada eleição presidencial no primeiro turno.

    1. CST-PSOL says:

      Oi Carlos,

      mt importante as suas colocações, embora tenhamos diferenças – esse é o mias importante em um partdo de esquerda de vdd que as diferenças possam ser debatidas e respeitadas.

      Podemos marcar uma reunião presencial para debater com mais calma. Mas, em reusmo acreditamos que é fundamental fazer o trabalho de base com os trablhadores e a juventude. Estamos na luta dos professores, garis, rodoviários, estudantes, mulheres, negros, LGBT’s.

      Concordamos que Boulos é um lutador, inclusive muito importante, mas infelizmente não concordamos que esteja correto que ele esteja no palanque junto com Lula que traiu os trabalhadores, aprovou a reforma da previdencia e fez reforma agrária Como FHC e Dilma fez menos do que os dois. Vemos que essa é a nossa maior diferença. Devemos lutar em defesa de Lula ou fazer greve contra a reforma da previdencia e contra a retirada de direitos de Temer ( e q Lula tb fez no seu mandato?)

      O PT aprovou a Lei antiterrorismo, fez o Leilão de Libras colocando o exército na rua contra a popoulação. Isso não nos parece um governo que defende a democracia. Lula tb esteve envolvido no mensalão, embora não tenha sido condenado – pois garantia o lucro dos ricos – ele aprovou a reforma da previdencia nos expulsando do PT e pagando a quem aceitou se vender.

      Como sabe somos pequenos e cada um faz a diferença. Se tiver interesse podemos conversar mais fora da internet.

      De qlqr forma obrigada pela resposta

  2. Juliano says:

    Carlos, sua explanação foi perfeita e iguala bastante às minhas indagações.

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