A greve dos caminhoneiros é um locaute?

A greve dos caminhoneiros completa 11 dias, o país está parcialmente parado e Temer contra a parede. A produção foi reduzida, a distribuição de mercadorias, alimentos e combustível está quase paralisada, são bilhões em prejuízo para os grandes empresários e o agronegócio. Sem dúvida é uma das maiores lutas das últimas décadas, e conta com grande apoio popular. Nos últimos dias, a pesquisa Datafolha publicada mostra que 87% da população apoia os caminhoneiros. Os petroleiros estão entrando em greve em apoio aos caminhoneiros, em defesa da Petrobrás 100% estatal e pela saída de Pedro Parente da presidência da empresa. Além disso, não param de pipocar greves pelo país, com destaque para a forte luta dos professores da rede particular de São Paulo, que acabam de derrotar a tentativa de aplicação da Reforma Trabalhista na sua categoria.  

por Manoel Sousa

A greve dos caminhoneiros começou contra o aumento do preço do combustível e tendo apoio de setores patronais, bem como em alguns piquetes pedidos de intervenção militar. Temer, a grande mídia patronal, o PT e alguns de seus satélites, defendem a tese de que estamos frente a um locaute. Será mesmo?

O que é locaute e o que fazemos com ele?

Locaute é quando a própria patronal paralisa a produção para pressionar por seus interesses. Às vezes, simplesmente fecham as portas e ordenam que os trabalhadores de suas empresas não trabalhem até que suas “reivindicações” sejam negociadas. Outras vezes, podem utilizar também métodos similares ao da classe trabalhadora (piquetes, atos de rua) a serviço dos interesses da patronal. Os trabalhadores podem ser utilizados como “bucha de canhão” pelos patrões, e por isso precisamos derrotar os locautes. A tarefa dos lutadores frente a um locaute é sempre organizar a sua derrota. Vejamos dois exemplos.

Na Venezuela, durante os primeiros anos do governo Chavez, se fortaleceu um amplo setor da burguesia aliada aos EUA contra o ex-presidente. A direita venezuelana pró-ianque ganhou eleições sindicais e em dezembro de 2001 realizou uma paralisação nacional contra Chavez como descreve Chirino, dirigente do PSL, nosso partido irmão Venezuelano:

“Em 13 de novembro de 2001, o Presidente Chávez, correndo em frente após a derrota nas eleições sindicais, pressionou o acelerador, anunciando 49 leis aprovadas no marco dos poderes habilitantes outorgados pela Assembléia Nacional. A reação da oposição patronal não se fez esperar e encabeçado pela Fedecâmaras, convocou a realização de uma paralisação nacional, de caráter empresarial, supostamente contra a decadência econômica que produziriam as medidas adotadas pelo governo[…]” ¹

Manchete de jornal venezuelano: “Paralisação petroleira continua até a saída de Chávez”

Em março de 2002 o mesmo setor patronal fechou acordo com as redes de TV, que as mesmas seriam seus porta-vozes, situação muito bem retratada no documentário “A revolução não será televisionada”. Setores dos militares juntaram-se à direita para dar um golpe e retirar Chávez da presidência. É chamada outra paralisação nacional pela patronal. Porém, as mobilizações da classe trabalhadora e do povo pobre que tomaram as ruas, ocuparam os locais de trabalho e derrotaram o locaute e o golpe contra Chavez. O governo fantoche dos EUA teve que cair fora, e Chávez retomou a presidência – posteriormente, infelizmente, não se apoiou na mobilização para fazer um governo dos trabalhadores, e sem fazer isso a Venezuela capitalista chegou na situação onde está agora: altos lucros para as grandes empresas, miséria para a população.

Derrotando o locaute e com grandes mobilizações nas ruas, os trabalhadores também derrotaram o golpe contra Hugo Chávez, em 2002.

Outro exemplo é o de 1973, no Chile, onde tivemos um processo de locaute e o golpe de Pinochet contra Salvador Allende. Eram grupos das forças armadas, aliados a burguesia e o imperialismo norte-americano. A tentativa de boicote e locaute que a patronal chamava os trabalhadores a fazer foi respondida com os chamados “Cordões Industriais”, regiões onde os trabalhadores ocuparam suas fábricas e sob seu controle botaram para produzir. Infelizmente o governo de Allende (Unidade Popular) não teve uma política de se apoiar nessa mobilização para derrotar o golpe. Ao contrário, orientava os trabalhadores a devolver as fábricas aos seus “donos”.

Os trabalhadores chilenos desmontaram o locaute contra Allende em 1973. Contudo, sem apontar para uma revolução socialista, o país sofreu um golpe militar seguido de uma sangrenta ditadura.

O fim da história é Allende sendo deposto por não apostar na mobilização de massas e não fazer o enfrentamento necessário. Mas sem dúvida a resistência da classe foi heróica, tendo sido desmontada pelas direções traidoras da UP, como coloca Abelardo Paldares: “Então a conclusão é clara: se podia derrotar a Pinochet, e estaria colocada a luta pela tomada do poder e avanço na revolução socialista. O golpe triunfou porque Allende, o PC e o PS durante anos destilaram o veneno da conciliação de classes e a confiança nas forças repressivas burguesas, própria de todos os reformistas, sejam comunistas stalinistas ou socialdemocratas. Eles disseram aos trabalhadores e ao povo chileno que avançariam até o socialismo pactuando com a burguesia progressista que tinha contradições com o imperialismo ou de mãos com as forças armadas patrióticas e neutras. Estes partidos se dedicaram a molhar a pólvora, ao tirar o pavio revolucionário das massas, que demonstraram uma e outra vez, especialmente desde seus Cordões Industriais, a força e a organização necessária para fazer a revolução socialista.”²

Com esses exemplos queremos demonstrar que o locaute é uma política a serviço da burguesia, sendo necessária a mobilização das massas para derrotá-lo. Perguntamos para os que dizem que os caminhoneiros estão fazendo locaute: se caso tivessem um companheiro de organização na categoria, um familiar ou amigo, fariam a convocatória a furar a greve? Defendem desde já o fim da greve? Os lutadores do país devem enfrentar os caminhoneiros e tentar arrebentar seus piquetes abrindo novamente as estradas do país? Essas são perguntas que temos que nos fazer, porque caso fosse um locaute deveríamos trabalhar com todas nossas forças para derrotá-lo. Porém, como é uma greve, devemos trabalhar pelo seu triunfo.

É locaute o que acontece hoje no Brasil?

Na greve dos caminhoneiros as transportadoras tem interesse na redução do preço do diesel, em especial do fim dos impostos sobre o mesmo. Mas a greve não se deu por organização da patronal, nem mesmo pelo fim dos impostos. A greve vem sendo preparada há meses pelos caminhoneiros, que apesar de serem uma categoria muito fragmentada se organizaram via suas associações regionais e grupos de WhatsApp. A greve parte de uma necessidade real que principalmente os autônomos sentem, que exige a redução do preço do combustível mas também melhores condições de trabalho.

Para os que conhecem um pouco de história, não é preciso nem dizer que Temer não é Allende nem Chávez. São governos bastante distintos. Mas é bom lembrar que Temer não está em nenhum atrito com o imperialismo dos EUA: pelo contrário, o combustível só está tão caro devido política de Pedro Parente (presidente da Petrobrás) de submeter a empresa aos interesses do mercado internacional. A Petrobrás já não é 100% estatal há muito tempo, tendo hoje como mandante os acionistas. Aliás, hoje no Brasil não há um setor da burguesia que se oponha ao imperialismo, na condição de subserviente que é nosso país. Os poderosos estão desesperados, perdendo bilhões! Por isso o governo Temer e a grande mídia patronal (Globo, Estadão, Folha, Record, SBT, etc) atacam tanto a greve caminhoneira! O que a burguesia e o imperialismo dos EUA querem é que essa greve acabe o quanto antes. Não à toa, Temer está desesperado e já falhou nas quatro tentativas de negociação. A maioria das direções patronais já estava aceitando o primeiro acordo que o Temer propôs. A base da categoria, composta por caminhoneiros autônomos, não aceitou e a greve seguiu por cima dos traidores.

“Não tem acordo com corrupto”, dizia uma pichação na rodovia, ao lado de um piquete de caminhoneiros.

A direção e os rumos da greve dos caminhoneiros

A Abcam (Associação brasileira dos caminhoneiros) tem certa influencia na categoria, mas não dirige como quer a greve. É um movimento amplo, que já fugiu das mãos das direções patronais e não tem uma direção nacional que centralize, e que está em disputa. Isso não quer dizer que não exista contradições e confusões no movimento. Há uma minoria  de piquetes nas estradas que pedem intervenção militar e também simpatia por Bolsonaro.

Essas ainda são marcas da traição de classe do próprio PT, que após 13 anos de um governo que se pinta de esquerda e deixou o pais muito mal, com milhjões de desempregados, serviços públicos sucateados e aderiu a corrupção que sempre foi generalizada na política brasileira.

Bolsonaro é um reacionário, dá uma resposta imediata pela direita para o problema da segurança pública, com discurso de ética fala contra a corrupção e surfou na ruptura de massas com o PT como um outsider – um cara “de fora” da política tradicional. Ele é uma farsa completa e sua política é totalmente contra os interesses da classe trabalhadora e obviamente também dos caminhoneiros. Cabe à nós da esquerda socialista a tarefa de desmascará-lo. Porém, para melhor atacar Bolsonaro e disputar influência no descontentamento popular contra Temer e na greve dos caminhoneiros, não podemos dizer que a greve é pela intervenção militar ou pela eleição de Bolsonaro. Isso é uma mentira completa. Tanto é assim que até a Abcam que não tem nada de esquerda soltou nota contra a posição pró-intervenção de alguns piquetes.

Associação Brasileira de Caminhoneiros, que reúne setores patronais: “não podemos clamar por uma Intervenção Militar, esse pedido está equivocado e não será o remédio apropriado para a nossa situação”

Dada essa situação nós vamos apoiar a luta contra o abusivo preço dos combustíveis e disputar a greve dos trabalhadores do transporte que estão indignados contra o regime político, contra tudo e todos, que dizem que só irão parar quando Temer cair ou vamos servir de apoio ao governo no seu desmonte? Não há meio termo na ação concreta de uma organização política. Se é greve, temos que lutar pelo seu triunfo, se é locaute, pela sua derrota. Como para nós é uma grande greve muito legítima, ela tem todo nosso apoio. Na própria greve, devemos colocar que a intervenção militar não é a solução para o país, pois na ditadura militar a greve não poderia estar acontecendo, que todos estariam presos, e o exército que os reprime nas estradas é o mesmo que governaria. Mostrar que a farsa Bolsonaro é autor de projeto que multa quem interdita vias, um reacionário que votou a favor da reforma trabalhista, que é um racista que vai governar contra os trabalhadores.

Apoiar os caminhoneiros e os petroleiros, unificar as lutas e fazer greve geral!

Para completar a greve dos caminhoneiros ainda desencadeia outros processos de luta, como é a paralisação dos petroleiros, que entraram em greve de 72 horas no dia de hoje. Pelo país todo tem acontecido atos em apoio a greve dos caminhoneiros, em alguns inclusive havia pessoas pedindo intervenção militar que logo se retiraram do ato porque a hegemonia era da esquerda. Há muitas mobilizações acontecendo: os professores da rede privada de SP estão em greve, metroviários de BH e as estaduais paulistas entram em greve. A CUT e CTB tem que sair da paralisia e atender o chamado da CSP-Conlutas pela construção de uma greve geral para derrubar Temer, Pedro Parente, garantir a Petrobrás 100% estatal e derrotar a nefasta política de ajuste fiscal, responsável pela alta do preço dos combustíveis e pela deterioração do nível de vida da classe trabalhadora brasileira.

¹ Venezuela: o golpe contrarrevolucionário de abril de 2002. http://cstpsol.com/home/index.php/2012/04/17/arquivoid-9175

² 40 anos depois do Golpe: O fim da “via pacifica ao socialismo”. http://cstpsol.com/home/index.php/2013/09/23/arquivoid-9337

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