O exemplo dos ferroviários da França para a luta contra a privatização do transporte

Priscila Guedes – Metroviária de São Paulo (Linha 2)

Diego Vitello – Metroviário de São Paulo (Linha 5)

Desde o início de abril, uma enorme luta de trabalhadores do setor de transporte vem sacudindo a França. Queremos com este texto, discutir esse importante exemplo de luta em defesa do transporte público e dos direitos dos trabalhadores. Como parte do plano de reformas para retirar direitos da classe trabalhadora, o governo de Macron, ataca em cheio os ferroviários, buscando privatizar parte da empresa pública das ferrovias, a transformando em sociedade anônima e retirando uma série de direitos históricos dos trabalhadores do setor. A reforma proposta pelo governo francês abre ainda a possibilidade absurda da supressão de linhas consideradas “menos rentáveis”.

Para termos uma ideia do impacto dessa luta na estatal ferroviária francesa Société Nationale des Chemins de fer Français (Sociedade Nacional dos Caminhos de Ferro da França, SNCF, na sigla em francês), vejamos alguns dados: hoje, trabalham cerca de 140.000 trabalhadores na empresa, que tem cerca de 15 mil trens circulando diariamente, enquanto a malha ferroviária abrangida por ela já ultrapassou hoje os 30.000 km. Ou seja, a França se move muito pelos trilhos espalhados pelo país.

O discurso do governo

Macron, seguindo o receituário neoliberal aplicado pelo mundo, ataca violentamente os trabalhadores e busca jogar a população contra os ferroviários. O discurso construído pelo governo em conluio com a grande mídia já é conhecido por nós aqui no Brasil: dizem que o país está em crise (o que é verdade) e que não há de onde tirar dinheiro (o que é mentira), que os ferroviários são “privilegiados” e que suas greves “prejudicam a população”.

Outro ponto do discurso do governo para abrir caminho para a privatização e o corte de direitos é “atacar” a greve como “política”. A ministra dos Transportes de Macron, Elisabeth Borne, declarou logo no início das mobilizações se referindo às centrais sindicais que estariam por trás das mobilizações que “algumas delas estão claramente tentando transformar isto em uma questão política”. Como se a proposta do governo de privatização e corte de direitos não fosse uma questão de política!

O audacioso plano de lutas “Dois por Cinco” e o apoio das ruas

Os ferroviários franceses traçaram um audacioso plano de lutas, imposto pela base da categoria à burocracia sindical. Entre 3 de abril e 28 de junho, os ferroviários estão fazendo greves de dois dias para cada cinco de trabalho. Um plano de três meses, que já colocaram os ferroviários no centro do debate sobre a situação política e econômica francesa e também trouxe de volta com força o questionamento popular contra a política de precarização dos serviços públicos.
Em 29 de maio, as marchas de solidariedade aos ferroviários colocaram cerca de 280 mil pessoas nas ruas da França. Com destaque para os 80 mil nas ruas de Paris e 65 mil em Marselha.

Tudo isso ocorre 50 anos após o Maio francês que foi um grande exemplo de luta unificada da juventude e da classe trabalhadora, com as ocupações de Universidades e fábricas que paralisaram o país e quase derrubaram o governo da época.

Os ferroviários são uma categoria de trabalhadores com enorme tradição de luta. Em 1995, derrotaram um plano parecido de privatização, que levou ao fim o governo Jean Jacques Chirac.

As lutas se unificam

Durante esse processo de mais de dois meses em que os ferroviários franceses estão em pé de guerra contra os planos do governo, muitas categorias já entraram em greve por suas reivindicações e em apoio à luta dos ferroviários. O destaque são os aeroviários, que paralisaram suas atividades três dias em abril (07, 10 e 11) e quatro dias em maio (3, 4, 7 e 8). Além dos trabalhadores dos aeroportos, também paralisaram trabalhadores do setor de energia elétrica, garis, funcionários do Carrefour, assim como os estudantes universitários, que chegaram a ocupar parte das principais Universidades do país contra as reformas do governo.

O fracasso da privatização inglesa como exemplo

Como nos diz o site da Rádio francesa RFI: “Já no Reino Unido, onde o Estado não é mais responsável pelo transporte ferroviário, as críticas são inúmeras. Sucateado em algumas regiões e registrando atrasos importantes em várias linhas, o sistema britânico é acusado de propor serviços insuficientes por preços muito elevados. Só para ter uma ideia, trechos de cerca de 20 minutos de duração custam, em média, mais de 15 libras (R$ 73), apenas para um trajeto de ida. Os grevistas franceses geralmente usam o sistema inglês como um modelo de fracasso da privatização.”

O exemplo inglês não deixa dúvidas, de que os projetos de privatização dos transportes públicos, só visam o lucro e não a garantia de um serviço de qualidade para a população e empregos decentes para os seus funcionários.

Qual exemplo que fica para os metroviários de São Paulo?

Os ferroviários franceses são hoje a ponta de lança da luta contra a privatização do transporte. Em São Paulo, nós metroviários temos que estudar e acompanhar atentamente o desenrolar dessa luta. Está em curso por aqui um feroz plano de destruição do Metrô tal como conhecemos. Querem um metrô precarizado, à serviço do lucro e com trabalhadores que ganhem pouco e trabalhem muito. A privatização da Linha 5 – lilás e a possibilidade de entrega da linha 15 – Prata em poucos meses mostra que os governos tucanos e a elite paulista não estão de brincadeira. A terceirização das bilheterias das linhas 5, 15 e parte da linha 2 também são exemplo dessa política. O que buscam de fundo é favorecer os interesses dos empresários que financiam suas campanhas (a CCR, que já opera a linha 4 e vai operar em breve a 5, é uma das maiores financiadoras de campanha do PSDB na última década), às custas do nosso emprego e do serviço prestado à população.

O exemplo que fica é que é possível pensarmos planos audaciosos de enfrentamento à privatização, defesa dos nossos direitos, do nosso trabalho e de um transporte 100% público, de qualidade e sob controle dos trabalhadores e usuários. Devemos construir planos de luta que coloquem o tema da privatização no centro do debate político nacional, assim como os ferroviários fazem na França e no Brasil fizeram recentemente os caminhoneiros e petroleiros. Para isso, é fundamental o diálogo com a população que utiliza o transporte, já que pesquisas indicam que a maioria é contra as privatizações e nossas paralisações ano passado contaram com grande apoio popular. Acreditamos que da nossa luta dependerá o futuro do Metrô de São Paulo, do serviço prestado à população da maior cidade do país, assim como, obviamente, de nossos empregos e carreira dentro de uma empresa pública do porte do Metrô.

Sites pesquisados:

https://br.reuters.com/article/topNews/idBRKCN1HA1OH-OBRTP

https://oglobo.globo.com/mundo/greve-ferroviaria-paralisa-franca-e-desafio-para-governo-macron-22551092

https://www.viajenaviagem.com/2018/04/franca-greves-air-france-trens/

http://br.rfi.fr/franca/20180413-greves-na-franca-levantam-debate-sobre-privatizacao-do-sistema-ferroviario-europeu-0

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