BALANÇO: O PSOL nas eleições de 2018

O presente texto de balanço eleitoral foi apresentado como resolução na reunião do Diretório Nacional do PSOL, que ocorreu nos dias 10 e 11/11 em Brasília, assinado pelas correntes internas do PSOL: MES, CST, 1º de maio, TLS,CL e LS e pelas deputadas federais, Sâmia Bomfim (SP) e Fernanda Melchionna (RS), deputados estaduais Sandro Pimentel (RN) e Raul Marcelo (SP) e pelos vereadores Renato Cinco (RJ) e Babá (RJ)

  1. O PSOL disputou as eleições de 2018 em meio a um cenário de grave crise econômica e política. A eleição foi marcada pelo fim da “Nova República” e a erosão do condomínio de poder que sustentou, desde 1988, este regime político por meio da conciliação de classes pró-burguesa. Como parte deste condomínio que se esfacelou – e teve como resultante política a ascensão de Michel Temer e sua agenda de ajuste – o PT foi a principal vítima da falência de sua própria política de conciliação de classes e participação em esquemas já existentes de corrupção. Também marcou a eleição a prisão de Lula e seu impedimento de concorrer, mesmo estando em primeiro lugar nas pesquisas.
  2. A avalanche de denúncias de corrupção reveladas pela Operação Lava Jato, a deterioração das condições de vida da classe trabalhadora, a rede de fake news patrocinados por grandes empresários, a desesperança produto da experiência com o governo de conciliação de classes do PT, somados ao impulso internacional de um neo-fascismo que coloca a cabeça para fora agora também em nosso país, além da ausência de uma alternativa radical de massas conformaram as condições para a ascensão de uma figura caricatural e perigosa como Bolsonaro; também as novas regras eleitorais draconianas, produtos da Lei Cunha colocaram objetivamente barreiras para o desenvolvimento de uma nova esquerda independente do lulismo e do regime.
  3. A eleição de parlamentares suficientes para passar a cláusula de barreira foi, sem dúvida, uma grande vitória. O aumento da bancada deveu-se fundamentalmente ao acúmulo histórico do partido e à atuação dos coletivos feministas, responsáveis diretos pela eleição das quatro novas cadeiras de deputados federais e, indiretamente, de cinco parlamentares, caso seja considerado que sem os 250 mil votos de Sâmia Bomfim, o PSOL de São Paulo dificilmente teria eleito três deputados. O crescimento da bancada federal foi produto do movimento #EleNão, surgido ainda no primeiro turno; da experiência concreta realizada pelo povo com mandatos do PSOL (Marcelo Freixo, Sâmia Bomfim, Fernanda Melchionna, Áurea Carolina, Talíria Petrone) e pela força das lutas LGBTs, Antirracistas, Feministas, de juventude e pela liberdade, herdeiras das Jornadas de Junho de 2013. Algo que também se expressou nas bancadas estaduais.
  4. A candidatura presidencial de Guilherme Boulos representou uma aliança entre o MTST e o PSOL. Para se candidatar, Boulos se filiou democraticamente ao partido, sem uma palavra final sobre sua permanência no PSOL após as eleições. A incorporação da companheira Sonia Guajajara, que já era militante do PSOL, na chapa trouxe o importante impulso da luta indígena e ecossocialista. Entretanto, a hipótese central da direção majoritária do PSOL e do próprio companheiro Boulos de disputar apenas a base do lulismo, sem apontar a construção de um terceiro campo e sem dialogar com o sentimento anti-regime da grande massa, demonstrou-se profundamente equivocada. Ainda que pese um cenário de intensa polarização e pressão pelo voto útil, esta política foi decisiva para uma diluição do perfil histórico de independência do lulismo de nosso partido frente as eleições, destoando das candidaturas presidenciáveis anteriores, o pior resultado de uma candidatura presidencial do PSOL de nossa breve história. Mais que qualquer resolução interna, as urnas demonstraram tal equívoco.
  5. A identificação do partido com o PT por amplos segmentos da população acarretou forte prejuízo à luta pela construção de um instrumento político que superasse o lulismo. Ideologicamente, a incapacidade da candidatura Boulos de diferenciar-se programaticamente do campo petista desarmou o PSOL. O Partido não aproveitou a campanha para denunciar a farsa eleitoral e desmascarar a agenda burguesa para as eleições de 2018. A inexistência de qualquer questionamento ao papel da dívida pública como centro nervoso da economia foi, sem dúvidas uma desacumulação e um mal sinal aos movimentos que sempre animamos em torno deste tema. O silêncio sobre o tema da corrupção, por temor de atingir Lula, deixou de lado uma das questões mais candentes da campanha nas mãos da direita conservadora. A ausência de medidas estruturais para enfrentar a desigualdade social, deixou o partido desarmado para enfrentar o debate da segurança pública.
  6. Agora, terminada a eleição, o PSOL precisa debater o processo de reorganização da esquerda no Brasil, as relações estabelecidas com as demais organizações políticas e com os movimentos sociais. Tal debate deve ser feito nos marcos da construção de uma ampla unidade contra a extrema direita, mas destacando o papel do PSOL como referência da esquerda, que saiu fortalecido e, felizmente, conseguiu superar a cláusula de barreira. Não será subordinado a liderança de Lula que a esquerda será fortalecida.
  7. Neste sentido, o PSOL precisa organizar estas reflexões, encaminhar a relação a ser estabelecida com o companheiro Boulos, bem como informar se o mesmo continuará filiado ao partido. Ao mesmo tempo, reconhecendo a liderança de Boulos no movimento de luta por moradia, precisamos ressaltar que ele não fala na condição de porta voz do PSOL, definição fundamental para que Boulos possa externar sua posição com liberdade e o partido possa discutir a necessidade de aparecer e dar publicidade para suas próprias posições sem prejuízos ao acúmulo histórico desta ferramenta que tanto nos orgulha ter construído após a traição do PT. Por fim, o PSOL deve assumir a responsabilidade de ser o núcleo estratégico da construção de uma alternativa da esquerda socialista.

Brasília, 10 de novembro de 2018.

Assinam:

MES

CST

1º de maio

TLS

CL

LS

Sâmia Bomfim

Fernanda Melchionna

Sandro Pimentel

Renato Cinco

Babá

Raul Marcelo

One thought on “BALANÇO: O PSOL nas eleições de 2018”

  1. Fernando Batista Berni says:

    Especial de Primeira. Texto Sem Retoques.

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