Trump sofre grande derrota eleitoral nos EUA

As eleições estadunidenses de 2018, conhecidas como “mid-terms” por ocorrerem no meio do mandato presidencial, marcaram um golpe político ao governo reacionário de Trump. Os republicanos perderam a maioria na câmara de deputados, onde os democratas canalizaram a bronca contra Trump. Houve um voto castigo de setores sociais contra seu discurso de ódio, machista, racista e misógino em meio à crise que atravessa a região devido à caravana migrante. O governo ficou debilitado e se aprofunda a crise de dominação imperialista norteamericana em um contexto internacional de disputas interburguesas com a China e a União Europeia, enquanto o capitalismo não consegue superar a crise econômica mundial.

Por Mercedes Beauvoir – Izquierda Socialista, UIT-QI

Terça-feira passada os resultados das eleições vieram como um verdadeiro plebiscito dos dois anos de governo Trump. Os democratas ficaram com a maioria da câmara de deputados e os republicamos mantiveram maioria no senado. Ao fim da votação, Trump tuitou que foi “um tremendo sucesso. Obrigado a todos!”, sendo saudado pelo neofascista Salvini da Liga do Norte da Itália. Bom, de fato os republicanos não têm nada a comemorar. Perderam os governos de Kansas, Wisconsin e Michigan, que foram 3 estados chave para sua vitória em 2016.

Se bem que o voto não seja obrigatório nos EUA e as eleições ocorram num dia útil, a votação foi a maior dos últimos anos. Um setor do eleitorado que havia votado em Trump em 2016 foi perdido pelo presidente, sobretudo entre trabalhadores industriais e dos subúrbios. Isso se explica por uma combinação entre ameaças de atacar o débil sistema de saúde pública Medicare junto à economia que não deslancha de fato. Mesmo assim, a exacerbação do seu discurso ultradireitista e racista contra os imigrantes, junto ao envio de tropas às fronteiras, resultou numa votação para os democratas por 69% dos latinos e até 90% das comunidades afroamericanas.

No plano internacional, o impacto desse resultado também é um referendo da sua gestão. Em outras palavras, mostra uma debilidade relativa porém muito concreta como chefe do imperialismo mundial. Tudo isso poderia ter repercussões na “guerra comercial” com a China e em como vai se resolver a caravana imigrante. Porém, sobretudo, é um chamado de atenção ao reacionário e neofascista Bolsonaro, que assumirá a presidência do Brasil tentando impor uma maior exploração das massas e cortes nas liberdades democráticas, porém enfrentando a resistência do movimento #EleNão, dos trabalhadores e setores populares.

O projeto reacionário de Trump fica debilitado

Desde que Trump ganhou as eleições nos EUA, debates importantes se abriram na esquerda mundial sobre se a sua vitória deriva de uma “onda conservadora” e de um giro à direita das massas. São perguntas que surgem da vitória eleitoral de um ultradireitista nada mais, nada menos que nos Estados Unidos. Evidentemente que num país com baixa mobilização social os republicanos têm uma base social de direita, com voto num homem branco, tradicional e reacionário. Porém, muitos dos que votaram em Trump o fizeram com fortes contradições e devido ao fracasso dos 8 anos de governo Obama. Não nos esqueçamos que Obama, diante da crise de 2008, realizou uma clara salvação dos bancos e grandes empresas em detrimento das necessidades do povo.

Trump ganhou. Porém, assumiu sendo o presidente mais impopular da história dos Estados Unidos em 100 dias, em meio às históricas mobilizações do movimento de mulheres. Na primeira convocatória de 2017, conhecida como “Woman’s March”, milhares de pessoas saíram nas principais cidades do país contra a política machista, misógina e racista de Trump. No ano seguinte, a convocatória se repetiu e incorporou a denúncia das tentativas de cortes na saúde pública e às ameaças de avançar contra o direito ao aborto. Meses atrás, o movimento de mulheres voltou a sair às ruas contra a política migratória de separação das famílias implementada por Trump.

Nessas eleições legislativas, Trump perdeu o voto popular por uma margem ampla, acima dos 8% em nível nacional. Perdeu nos setores industriais, nos subúrbios e grandes cidades, entre jovens e mulheres. A divisão do voto entre republicanos e democratas mostra a polarização social: enquanto o voto conservador do Sul, do homem branco e setores rurais foram para o partido de Trump, a exaltação de seu discurso reacionário fez reorientar o voto tradicionalmente republicano das classes médias dos subúrbios e das mulheres brancas. O voto democrata canalizou um olhar progressista sobre as perspectivas do país: foi um voto contra os cortes na saúde pública, contra os ataques às mulheres e identidades de gênero, aos imigrantes e à diversidade cultural.

Há espaço para a esquerda independente

O mais chamativo dessas eleições foi o lugar das mulheres, das trans e dos imigrantes. As eleições não somente tiveram um número recorde de mulheres candidatas como pela primeira vez elegeram representantes muçulmanas e de povos originários. Jared Polis será o primeiro governador abertamente gay do país, pelo estado do Colorado; Rashida Tlaib de Michigan será a primeira deputada muçulmana; se destaca a eleição de Alexandria Ocasio-Cortez, de Nova York, de origem porto-riquenha e que com 29 anos será a mulher mais jovem a entrar no Congresso reivindicando-se “socialista”. Esse voto reflete uma ala mais à esquerda do partido Democrata, que na eleição presidencial refletia a candidatura de Bernie Sanders. Esse voto à “esquerda” mostra que continua existindo um espaço para construir uma alternativa de esquerda independente dos partidos imperialistas – tanto Republicano quanto Democrata – que se alternam no poder. Diante da negativa de Sanders a dar esse passo, deve ser a nova vanguarda e os grupos de esquerda e socialistas a tomar essa tarefa.

Em conclusão, esse resultado coloca um limite ao discurso racista, xenofóbico e anti-imigração de Trump. A disputa entre os republicanos e democratas terá novos capítulos no congresso. O mais importante, contudo, é que ficou marcado um golpe político para Trump, ainda que não signifique a queda do governo, mas sim um voto crítico que se canaliza através dos democratas e expressa um movimento de forte oposição a esse projeto ultra-reacionário. Se aprofundam assim as crises do governo Trump e do imperialismo norte-americano.

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