Venezuela: “Vivemos uma Catástrofe Social”

Entrevista com Miguel Angel Hernandez, dirigente do Partido Socialismo e Liberdade (PSL), professor da Escola de Sociologia a UCV (Caracas).

– Qual a posição que o PSL assume diante da atual crise política e social?

– Estamos alinhados com a maioria dos trabalhadores, com setores populares e com a juventude que o governo de Maduro tem que sair, visto que está destruindo o país. Mas não acreditamos que a saída para o povo trabalhador seja a intervenção imperialista que Trump vem impulsionando desde janeiro, momento em que Guaidó se proclamou presidente. É a direita patronal que buscou uma ruptura nas forças armadas para dar um golpe ou até mesmo ameaçando uma intervenção militar. Temos sido categóricos no repúdio à intervenção yanque. Mas também repudiamos a intervenção russa que está enviando “assessores” militares.

Guidó não é alternativa. O “Plano do País”, que ele propôs, reflete isso. Expõe demissões, privatizações de serviços, continuar a pagar a dívida, mesmo para China e Rússia. Por isso, dizemos que a saída somente pode vir das mãos dos trabalhadores e do povo. Que se massifiquem e se ampliem as mobilizações de massas como as realizadas nos últimos dias por causa dos apagões, ou as mobilizações de 21 e 23 de janeiro, ou a reação dos indígenas Pemon que enfrentaram a Guarda Nacional. Todas estas mobilizações foram independentes de Guaidó e dos partidos que o apoiam. Isso mostra que é possível que o povo venezuelano com a sua mobilização decida o destino do país e consiga derrubar Maduro, e impor um novo governo dos trabalhadores e do povo para reorganizar o país.

– Qual é a situação da classe trabalhadora?

– Catastrófica. O mais conhecido é a destruição salarial, 70% da população ganha entre 1 e dois salários mínimos, isto é, entre 18.000 e 36.000 bolívares soberanos (entre 6 e 12 dólares). Isto em um quadro de hiperinflação, onde os preços dobram a cada 15 ou 20 dias. O fundamental hoje não é a escassez. Há produtos, mas os trabalhadores não podem comprá-los. O salário mínimo mensal era equivalente a dois quilos de queijo há duas semanas. Além disso, acordos coletivos foram anulados. Isto é sofrido por toda a classe trabalhadora, incluindo aqueles que antes eram mais bem pagos, como técnicos petroleiros, ou de eletricidade, ou empresas siderúrgicas que ganham esses salários. Em nenhum país do mundo um petroleiro ganha 7 dólares!

– Então como os trabalhadores sobrevivem?

– Ao salário miserável é adicionado bônus que o governo concede através do “cartão do país” e caixas CLAP de alimentos que não alcançam a  maioria das famílias, mas sim a setores grandes, teoricamente uma vez por mês, com regularidade. Na caixa tem farinha de trigo, de milho, óleo, as poucas proteínas que vem são lentilhas e feijão preto, leite em pó, três latas de atum por mês. Além disso, muitos recebem algum dinheiro enviados pelas 4 milhões de pessoas (de 30 milhões de habitantes) que emigraram. Mas tudo isso não é suficiente para manter uma nutrição básica. Há três anos, um estudo foi feito nas universidades indicavam que a população média perdeu 8 quilos em 1 ano. E há casos graves de desnutrição em várias partes do país.

– Maduro disse que a culpa é da guerra econômica e do bloqueio imperialista

– Isso não é verdade. O governo tem acordado os preços com os empresários há anos. No setor petroleiro, desde Hugo Chaves, havia negócios com empresas transnacionais. Por exemplo, a Chevron, mesmo após as recentes sanções de Trump, seguiu operando na Venezuela, além de empresas da China, Rússia, Bielorrússia, etc. E recentemente assinou um acordo com outra empresa norte-americana.

– Mas havia sanções imperialistas?

– Até fevereiro, eram quase simbólicas, sanções individuais a alguns funcionários que não afetavam a economia. Agora, desde fevereiro, Trump começou a aplicar sanções e congelou os fundos do petróleo da Citigo, a estatal venezuelana dos Estados Unidos, em cerca de 10 milhões. Estas sanções afetam, mas não dão conta de explicar a crise que vem se aprofundando há anos.

– Qual foi a reação do governo de Maduro diante das sanções?

– Mesmo depois desse bloqueio de fundos ordenados por Trump, que repudiamos, Maduro não tomou nenhuma medida anti-imperialista. Ele disse que iria recolher assinaturas para levar aos Estados Unidos, pedindo-lhes para cancelar a medida. Mas, não juntaram as assinaturas, não tomaram alguma medida real de represália contra as empresas norte americanas na Venezuela, que continuam a ter seus lucros normalmente, e também não suspenderam os pagamentos da dívida externa.

– Como se chegou a esta situação, a maior catástrofe sócio-econômica da América Latina em mais de um século, sendo a Venezuela um país com as maiores reservas de petróleo do mundo?

– O país e seus trabalhadores geraram uma imensa riqueza nestes anos. Especialmente petróleo. Mas grande parte desta riqueza saiu do país, e as multinacionais. O governo de Maduro não é socialista e nem anti-imperialista. O chamado “Socialismo do Século XXI” era uma mentira. O chavismo desde o princípio compactuou com as empresas petroleiras multinacionais e com a própria burguesia tradicional venezuelana, como o grupo Cisneros. Dizia-se que havia nacionalização, mas o que havia eram empresas mistas com companhia de petróleo que obtinham imensos lucros como os membros da PDVSA (a estatal petroleira).

Além disso, continua-se pagando a dívida externa, dinheiro que não se usou para o benefício do povo, sim para alimentar a fuga de capital, para os bancos tradicionais. Mais de 80 milhões foram pagos, nos últimos quatro anos, já no meio de uma crise. Os bancos tradicionais, o Citibank, o Santander, o Bilbao Vizcaya e as telecomunicações são os setores que obtiveram os maiores benefícios ao longo do período chavista.

E também em todos os negócios com as importações superfaturadas o Estado doou os dólares que vieram para o petróleo, a um décimo de seu valor ou menos, aos “boliburgueses” e a outros importadores e às mesmas multinacionais que fizeram lucros fabulosos e os levaram para os Estados Unidos ou para os paraísos fiscais. Isto gerou uma fuga gigantesca de capital, mais de 300 milhões de dólares no período chavista. Isso produziu, além da miséria, um desinvestimento total que está paralisando as empresas comuns (básicas), como a siderúrgica Sidor, de eletricidade (que produziu os apagões) e, mais gravemente, a própria petroleira que deixou de produzir 3 milhões de barris por dia para menos de um milhão hoje. 94% das exportações são o petróleo.

– Diante deste desastre, o que o Partido Socialismo e Liberdade propõe?

– Reafirmo que a solução não virá de Trump, dos aliados de Guaidó e da direita pró-ianque. Ao rejeitarmos qualquer intenção de golpe ou intervenção imperialista, dizemos que o governo cívico-militar de Maduro tem que sair. As mobilizações populares têm retirá-lo para que o povo possa tomar com suas mãos seu próprio destino. A partir do PSL propomos um governo dos trabalhadores que aplique um plano econômico popular com salário de acordo com a cesta básica, que o petróleo seja 100% estatal, sem empresas mistas, o não pagamento da dívida, um plano de importação maciça de alimentos e medidas de emergência para reativar a produção petroleira, eletricidade e outros. Com setores políticos e sindicalistas de esquerda estamos promovendo um amplo agrupamento para impulsionar os trabalhadores e a mobilização popular contra o governo, as ameaças imperialistas e lutar para construir uma alternativa política independente para os trabalhadores e o povo venezuelano, diferente de Maduro, Guaidó, dos militares e do imperialismo. Esta é a proposta que temos levantado desde o PSL e C-Cura, nossa corrente sindical combativa.

– Por que os apagões?

– Agravando o desastre econômico social ocorreram cinco apagões, cortes generalizados de eletricidade em grande parte do país, em março. Os cortes de energia também fazem com que a água seja cortada. Isto não tem a ver com “sabotagem” ou “ataque cibernético” dos Estados Unidos, como disse Maduro. Sabemos da crueldade imperialista, mas tudo indica que isto foi decorrência da falta de manutenção durante anos. Isto foi dito até mesmo por um partidário do governo, Alí Briceño, secretário executivo da Federação dos Trabalhadores de Eletricidade. Briceño, além da falta de manutenção, denunciou que 24.000 trabalhadores (do total de 50.000), e entre estes 14.700 engenheiros e técnicos, saíram da Corpoelec, a empresa estatal de eletricidade, e da Venezuela.

 

(Originalmente publicado por Esquerda Socialista, integrante da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores na Argentina)

http://www.izquierdasocialista.org.ar/

 

(Tradução: Bruno Pacifico)

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