Auge e declínio do Podemos

Publicamos artigo sobre desenvolvimento do PODEMOS, organização que mobilizou simpatias das correntes do PSOL e gerou intensos debates na esquerda.

Nos últimos tempos os debates sobre o PODEMOS se tornaram mais raros. Com esse artigo esperamos contribuir com as reflexões que a esquerda socialista precisa fazer.

O texto foi originalmente publicado pela Luta Internacionalista, da UIT-QI no Estado Espanhol.

 

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Auge e declínio do Podemos

 José Días Sánchez de la Blanca, Artigo originalmente publicado em http://luchainternacionalista.org/spip.php?article3529

O Podemos nasceu há 5 anos, nas eleições anteriores para o Parlamento Europeu. Surgiu um manifesto “Mover Ficha”, um manifesto de ruptura com o regime constitucional, de 1978, em que o Podemos afirmava:

  1. Revogação do artigo 135 da Constituição, as dívidas ilegítimas não se devem ser pagas, nacionalização do Banco Privado.
  2. Soberania dos povos e seu direito de decidir, apoiar o referendo de autodeterminação na Escócia e o 9 de novembro na Catalunha.
  3. Defesa de salários e pensões dignas.
  4. Direito à moradia digna, não aos despejos.
  5. Rejeitar as privatizações do serviço público.
  6. Contra a violência machista e defesa do direito das mulheres sobre seus próprios corpos e, portanto, o direito de decidir se querem interromper ou não sua gravidez.
  7. Nacionalização das empresas energéticas.
  8. Revogação das leis de imigração.
  9. Saída da OTAN.
  10. Candidatura participativa, lista conjunto e rotatividade dos cargos.

Poucas vezes vimos o nascimento de uma alternativa política com tanta força, e poucas vezes vimos a deterioração, falta de credibilidade e declínio desta alternativa em tão curto espaço de tempo. O que nasceu como um projeto de ruptura com o regimento monárquico, logo se tornou um instrumento a serviço deste regime, mas do lado da esquerda. Que aconteceu no Podemos para este fracasso?

1- O 15M abriu uma nova situação política, fruto do cansaço e desencanto com tudo que é conhecido; assim, um processo de participação em massa das lutas foi alcançado, e nasceu um Podemos que quis se apresentar como expoente institucional do espírito daquele 15M. Tanto em Podemos quanto no 15M, seus principais protagonistas foram professores universitários, graduados desempregados, jovens em geral. Pablo Iglesias era um professor universitário e apresentador de um programa de televisão e, como ele, nenhum dos cinco fundadores do Podemos tinham experiência nas lutas da classe trabalhadora (construção de sindicatos, participação ativa em greves, nem em organismos de representação dos trabalhadores nas empresas). O Podemos não teve uma linha política que incitasse a organização dos trabalhadores e, como consequência, a militância no Podemos, depois das eleições europeias de maio de 2014, se tornou uma pequena disputa de guerrilha entre si: somente na comissão de garantias da Comunidade de Madrid havia cerca de 600 casos até 2016. Não se respeitou a democracia interna, nem o direito de representação das minorias nos organismos internos do partido, e como resultado disto foi que no primeiro congresso, os anticapitalistas ficaram de fora dos organismos. Os dirigentes do Podemos não foram capazes de administrar o sucesso político. Um aspecto que se leva muito em conta sobre a crise do Podemos tem sido o escândalo contínuo de seus dirigentes, tendo seu auge na compra da vivenda de Pablo Iglesias e Irene Montero, em Galapar. Sem dúvida, os dirigentes do Podemos não souberam se medir. A figura bonapartista de Pablo Iglesias pune as críticas.

2- “Nós aprendemos em Madrid e em Valência que as coisas são mudadas a partir das instituições, que estupidez dizíamos quando estávamos na extrema esquerda que as coisas mudam na rua e não nas instituições, é mentira”. Esta frase pronunciada por Pablo Iglesias num curso da UCM, significa o abandono das lutas nas ruas por causa da posição pública do Podemos. A “máquina de guerra eleitoral” destinada às eleições de 2015, nada mais é que viver em função do parlamentarismo. No Podemos, há pouca vida sem eleições, tudo gira em torno do ritmo das urnas. A nova forma de fazer política do Podemos pouco a pouco estava se tornando a mesma dos outros partidos, longe da vida cotidiana que leva um trabalhador.

3- A disposição de governar com o PSOE, no âmbito deste regime, substitui o projeto de ruptura com aquele ao qual nasceu o Podemos, o caso mais significativo é o Governo de Castilla La Mancha, onde o segundo vice-presidente e o Conselheiro do Plano de Garantias dos Cidadãos são do Podemos: a obsessão por governar tornou o Podemos em uma corrida, vá diga ao governo do PSOE. O papel desempenhado por Pablo Iglesias, na sua tentativa de convencer ERC e PDeCAT a votar a favor dos orçamentos gerais do estado, mesmo com seus dirigentes no exílio e presos, demonstra o papel de “muleta” do Podemos em relação ao PSOE. Ele passou de “assaltar os céus” para seduzir o PSOE a mudar.

4- Na questão catalã é onde pode ser visto com maior clareza a mudança feita no Podemos: do apoio ao referendo do 9 de novembro de 2014, na Catalunha, ao papel desempenhado não participando do 1 de outubro de 2017. Evidencia-se a adaptação do Podemos à constituição de 1978. Assim, o direito dos povos à livre autodeterminação vai para o referendo consensual, como se pudesse ser acordado um referendo na terra de um regime herdeiro do franquismo, grande e livre, como se vivêssemos em uma democracia. Cada vez mais os discursos no ambiente do Podemos em que dizem que na transição “fizemos o que podíamos”, que a “democracia foi trazida por aqueles de baixo”, ou que “a monarquia poderia servir para deter o 23F. Apesar das contínuas afirmações republicanas do Podemos, a realidade é que nos contínuos referendos que estão sendo realizados sobre a monarquia ou sobre a república em diferentes cidades e universidades, o Podemos não participa deles, assim como não participou em 1 de outubro. Na transição, o apoio ao regime constitucional valeu ao PCE para passar a ser a força hegemônica entre os trabalhadores para acabar em crise interna e entregar seu papel ao PSOE, a mesma coisa está acontecendo com o Podemos agora, não se pode acabar com a “casta” e defender um regime monárquico que deixou 130.000 na vala. Os combatentes republicanos não julgaram nenhum torturador franquista e negaram o direito da Catalunha à autodeterminação.

5- Assim chegamos ao  “donde dije digo, digo Diego”, não se fala mais em nacionalização do banco e das empresas energéticas. Desde a saída da OTAN, se passa a assinar como Secretário Geral do Podemos na Comunidade de Madrid, Julio Rodriguez (Chefe do Estado-Maior da Defesa e Conselheiro da OTAN do Conselho de Estado no governo de Zapatero), que afirma que “a formação roxa cumprirá os compromissos que a Espanha  tem com com a NATO porque advoga um reforço na poderosa defesa europeia e esse papel tem que ser desempenhado também na Aliança Atlântica”.

Não se falou mais da revogação do artigo 135 da Constituição, nem da Auditoria Cidadã da dívida e de não pagar a dívida ilegítima que passa a ter massa o “temos sido capazes de reduzir a dívida da cidade de Madrid”, que não era outro senão aquela gerada pela corrupção e roubo do PP, procedendo ao pagamento de toda a dívida era ilegítima ou não.

Tudo isso leva a uma falta de credibilidade entre suas afinidades e os eleitores que não distinguem o Podemos de qualquer outra partido usual.

 

(Tradução: Bruno Pacifico)

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