Governo Bolsonaro – triplamente inimigo da Educação

É preciso organizar educadoras, educadores e estudantes contra os ataques de Bolsonaro à Educação!

Construir a Greve Geral da Educação em 15/5

 

Por Bianca Damacena, Professora da Rede Estadual do RS

 

Entra Governo, sai Governo, a pauta da Educação segue no mesmo lugar: sempre presente nos discursos de campanha mas, assim que os candidatos são eleitos, os cortes de verba acontecem praticamente no dia da posse. De FHC a Lula, de Dilma a Temer, temos assistido o desmonte das escolas e universidades públicas numa velocidade alta. Só não desmoronou de vez porque ainda encontramos resistência na defesa da Educação pública, gratuita, laica e com qualidade.

No entanto, a despeito do esforço de educadoras, estudantes e comunidade em geral, seguimos vendo museus ruindo em chamas, salas de aula sucateadas, falta de merenda, salários defasados e/ou atrasados, uma completa desvalorização. As últimas investidas de governos vieram na forma da EC95, ou a famosa PEC do Teto dos Gastos, que congela os investimentos em áreas sociais por 20 anos. Ou seja, o que já era muito sucateado, vai ficar pior uma vez que faltará mais investimento. Em se tratando de Educação, não tem investimento para melhorar as estruturas das escolas, universidades, etc. Vai ter menos ainda para esse fim, e também para concursos, pagamento dos salários dos servidores já efetivados, entre outras coisas. É o desmonte vindo a galope e o discurso sobre como a “Educação é importante para o futuro da nação” cada vez mais vazio.

A extrema direita é inimiga da educação e dos educadores

O governo Bolsonaro/Mourão aprofunda esses ataques. Há pouco mais de 120 dias de início de seu governo, tendo sido um deputado que sempre votou a favor dos sucessivos cortes, ele mesmo fez o seu: mais de 5 bilhões retirados da área educacional, de acordo com matéria da Veja em 29/03/2019. Mal assinou o corte, ele declara que não há pesquisa nas universidades brasileiras. Uma mentira que pode se tornar verdade: hoje, mais de 90% das pesquisas no Brasil são feitas em universidades, principalmente as públicas. Com os sucessivos cortes de verba, a pesquisa também corre sérios riscos. Inclusive, as bolsas de iniciação científica, as de mestrado e de doutorado já estão quase sem recursos. Aí, em visita a Israel, o presidente posa para uma foto com uma jovem cientista de lá numa clara atitude hipócrita: se ele realmente estivesse interessado em pesquisa, não faria os ataques à Educação. Fora a subserviência aos banqueiros nacionais e internacionais, uma vez que não faz parte de seus planos deixar de pagar a dívida pública (uma das saídas propostas por setores da esquerda para, enfim, termos verba para investir em Educação, Saúde, Segurança, etc.).

Com isso, fica bem claro que o governo Bolsonaro não só não vai mudar nada com relação ao desmonte da Educação pública, como vai contribuir para o seu rápido aprofundamento. Entretanto, além de ser inimigo das escolas e universidades públicas pela via econômica, Bolsonaro atinge outros patamares de aversão à Educação. São principalmente dois: desdém da História e da Ciência, o que gera um sem-número de declarações vergonhosas sobre praticamente tudo, e uma caça às bruxas a professores em nome de uma guerra imaginária contra a “doutrinação comunista” dentro das escolas. Ambas parecem cômicas, mas escondem em si grandes perigos.

Com relação ao desdém que Bolsonaro dispensa à História e à Ciência, parece que o presidente, sua família e satélites abriram uma caixa de pandora da ignorância. O golpe de 1964 não existiu, o nazismo é de esquerda independente das conclusões a que os alemães chegaram, o Holocausto pode ser perdoado, a Terra é plana, etc. Ele faz homenagens a ditadores, torturadores estupradores como se o que a História conta dessas pessoas fosse uma grande mentira. Mas o que esperar de um governo que foi eleito fazendo uso de fake news e de robôs no Whatsapp? Não muito, aliás, quase nada.

Suas declarações e de seus Ministros têm criado verdadeiros desconfortos ao redor do mundo como quando Onyx Lorenzoni relembrou o “banho de sangue de Pinochet para conseguir aprovar medidas”, um passado de que nenhum chileno tem orgulho. Eles dão declarações em cima de declarações de dar muita vergonha, sem contar que vários dos Ministros apresentaram currículos duvidosos, inventando diplomas de mestrado e doutorado sem nunca ter feito esses cursos. Recentemente, um dos filhos do Bolsonaro chegou a questionar o legado do Paulo Freire para a Educação, numa clara falta de conhecimento de quem foi o pedagogo, independente de concordar com ele ou não. O descaso com a Educação é tão grande, que todos eles contam com o próprio achismo para falar coisas aleatórias sem pensar minimamente se estão fazendo sentido ou não. Se tem como comprovar ou não.

No que tange a caça às bruxas aos professores, ela vem no formato de um projeto chamado “Escola Sem Partido” que tem como bandeira “acabar com a doutrinação comunista em sala de aula”. Na verdade, como não existe doutrinação comunista, o que o tal projeto quer é impedir uma educação que forme pessoas críticas ao sistema. O próprio presidente em entrevista afirmou, com todas as letras, que quer “uma garotada que não se interesse por política”. Por que ele (e seu grupo) não quer uma juventude politizada? Ora, porque uma população que faz críticas dá trabalho. Eles querem cortar o direito de liberdade de cátedra limitando-o ao mero estudo das disciplinas para que as futuras gerações não sejam críticas.

Um dos principais “alvos” do Escola Sem Partido é a chamada “ideologia de gênero” que, de acordo com os defensores do projeto, serviria para ensinar sexo para as crianças e, sobretudo, ensiná-las a serem homossexuais. O absurdo é tão grande que não valeria à pena perder tempo com isso, mas a consequência pode ser grande também, por isso, é um projeto que precisa ser combatido. Ninguém ensina a fazer sexo nas escolas, muito menos ensina a ser homossexual. O que se tenta ensinar é a ter respeito pela diversidade. O que se tenta é combater o machismo através das gerações futuras. Muitos casos de violência sexual infantil, pedofilia, já foram descobertos em sala de aula seja através dos desenhos, seja através da própria criança que se dá conta que está passando por algo que não deveria passar e conta para a professora. O curioso é que tem aparecido grandes apoiadores da campanha do Bolsonaro e do Escola Sem Partido acusados de pedofilia, como o militar de reserva Jorge Riguette, recentemente preso por estar entre um dos 100 maiores distribuidores de pornografia infantil. Por que uma pessoa como ele estaria tão interessada em um projeto que impede professores de falarem sobre educação sexual nas salas de aula? Fica o questionamento.

Recentemente dois movimentos do governo confirmam essa caça às bruxas na Educação. O primeiro deles é o anúncio de corte de verbas para faculdades de Filosofia e Sociologia. É uma clara atitude de cercear cursos que fomentam pensamento crítico. O segundo é que o Ministro da Educação, Abraham Weintraub, disse que vai cortar verba das universidades que tiverem baixo desempenho ou que tiverem protestos, o que ele qualificou como “balbúrdia”. A sua lista já começa com 3 grandes universidades, UnB, UFF e UFBA cujos desempenhos são altíssimos. Ou seja, é um início de censura a estudantes e professores. Ao invés de se preocupar com os reais problemas da Educação pública do país, Bolsonaro e sua trupe se concentram em cortar liberdade de pensamento, de ensino e de manifestação.

Para concluir este texto, cabem duas coisas. A primeira, diante de tudo que foi exposto anteriormente, é entender que Bolsonaro é um dos maiores inimigos da Educação dos últimos tempos, mas que não agiu sozinho. Contou com sucessivos cortes de governos anteriores, ditos de esquerda ou de direita, e, ao invés de fazer diferente, segue na mesma linha. A segunda é que a sua postura de combater uma guerra ideológica imaginária, seja através de mentiras, de forjar a História, de negar a Ciência, seja através da perseguição a professores e estudantes que ousam fazer da escola, da universidade, um espaço de pensamento crítico, para além da aquisição conteudista, é um grande perigo. Por isso, é preciso que educadoras e educadores, estudantes e comunidade em geral se unifiquem e defendam a Educação. É preciso construir a Greve Geral da Educação, para o dia 15/5. Neste dia, precisamos ocupar as ruas para defendê-la do desmonte causado pelos cortes de verba, pela Reforma da Previdência que vai exaurir os profissionais da educação e também defendê-la do obscurantismo, da censura de pensamento e da distorção da História.

 

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