Contrapoder, Editorial: Longe de qualquer estabilização

Disponível Contrapoder  Jul 29 

Aproveitando-se da ausência de uma oposição efetiva capaz de barrar a ofensiva reacionária, a coalizão liberal-autoritária, comandada por Rodrigo Maia e Jair Bolsonaro, aprofunda o desmanche da Nação. O balanço da semana é sombrio.

Os ataques obscurantistas sucederam-se em ritmo atordoante: censura à divulgação de dados de desmatamento do INPE — Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais -, acusado de alimentar uma “psicose ambiental”; ameaça de fechamento da ANCINE — Agência Nacional do Cinema -, uma indústria que emprega mais de 300 mil pessoas, pela suposta violação dos valores da família cristã; ataques grosseiros de Bolsonaro a jornalistas e à liberdade de crítica; nomeação de um energúmeno, abertamente hostil à causa indígena, para a presidência da FUNAI; agressão gratuita aos nordestinos e desrespeito aos governadores da região, em flagrante violação do pacto federativo brasileiro; covarde retenção dos navios iranianos no porto de Paranaguá, em vergonhosa subserviência do Itamaraty à política externa de Trump; e entrega da BR Distribuidora — uma das joias da Petrobras — ao capital internacional.

Sem nenhuma preocupação com as condições de vida e futuro dos brasileiros, o establishment burguês sanciona o curso insensato dos acontecimentos e deixa impunes as barbaridades do capitão do mato que assumiu a presidência. Com o auxílio estratégico da grande mídia, os partidos da ordem naturalizam a desventura, inculcando o conformismo e o derrotismo no seio do povo.

Interpretações unilaterais e estáticas da realidade, que suprimem as contradições que impulsionam a luta de classes, levam a avaliações distorcidas das possibilidades inscritas na conjuntura. Não é preciso muito tirocínio para perceber que o país é um barril de pólvora muito longe de qualquer tipo de estabilidade.

A decisão do presidente do STF de submeter as investigações do COAF à supervisão do Judiciário, o esforço desesperado do governo Bolsonaro para colocar uma pá de cal na Vaza Jato, que escancara a promiscuidade entre o Juiz Moro e os procuradores liderados por Dallagnol, o empenho da Lava Jato para retomar a iniciativa política, divulgando a delação premiada do ex-ministro Antônio Palocci, e a criminosa interferência de Moro nas operações da Polícia Federal que culminaram com a prisão dos supostos hackers responsáveis pela captura dos dados repassados a Glenn Greenwald revelam que corre solta a guerra sem quartel entre o partido conservador do “salvem-se todos”, idealizado por Jucá, e o partido do “fora todos reacionário”, que busca no falso moralismo uma solução para a crise terminal da Nova República.

Na falta do que colocar em seu lugar, o braço de ferro entre o velho, que não morre, e o novo, que ainda não tem força para nascer, apodrece as instituições. A crise de credibilidade dos poderes constituídos atinge, agora, o judiciário, completamente desmoralizado pela divulgação da promiscuidade entre juízes, promotores e grandes empresas. Sem um mínimo de estabilidade política, institucional e jurídica é uma ilusão imaginar qualquer possibilidade de normalização da vida econômica.

Sem solução para o flagelo do desemprego, a crise social se aprofunda e torna-se agudo o sentimento de insatisfação e revolta contra a generalização do descalabro. As mobilizações que preparam as manifestações contra a Reforma da Previdência e, sobretudo, a efervescência das movimentações contra a privatização das universidades federais, potencializada pela revolta contra o novo projeto do Ministro da Educação, “Future-se”, revelam que, a despeito da inércia das direções burocráticas, existe grande reserva de luta entre os trabalhadores e estudantes.

A tarefa premente é organizar comitês e assembleias de base para preparar o dia nacional de luta, no 6 de agosto, e a jornada em defesa da universidade pública e contra a Reforma da Previdência, no 13 de agosto, tendo como perspectiva a construção de uma greve geral. A unidade de ação dos trabalhadores e estudantes será forjada, de baixo para cima, no calor das lutas, como único meio de construir um projeto independente dos trabalhadores para a superação da barbárie capitalista.


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