Argentina | Desastre político-eleitoral do governo Macri

Panorama político

Nas eleições primárias argentina houve um desastre político de Macri. O governo federal e o governador Vidal foram amplamente derrotados. Milhões votaram contra demissões, recessão, roubo de salário, entrega do país e a enorme crise social. Houve um voto castigo contra o governo do qual foi beneficiada a chapa peronista dos Fernandez. A derrota eleitoral do governo foi esmagadora, 47,37% para 32,23%, com 15 pontos de diferença. O outro fato distintivo das eleições foi que a FIT – Unidade (Frente de Esquerda Unidade), com a chapa de Caño-Del Plá, teve uma ótima eleição, apesar da reviravolta eleitoral de milhões para o peronismo. O colapso eleitoral de Macri põe no vermelho a crise política e econômica que estava encoberta pela campanha eleitoral.

* O socialista 14/8/2019 Esquerda Socialista FIT-Unidade. Argentina

A esmagadora derrota do governo Macri provoca um abalo político porque mostra que o resultado já é irreversível, abrindo um espaço de quatro meses com um governo muito enfraquecido, repudiado por milhões. Os empresários, as multinacionais, os bancos, o FMI e o imperialismo terão de esperar quatro meses pela mudança de um governo patronal a outro.

O desastre tornou-se evidente no dia seguinte com a coletiva de imprensa Macri-Pichetto tentando “passar adiante”. Com os rostos pálidos, ambos anunciaram que “decidimos lutar”, “vamos reverter a eleição” e, segundo Pichetto, “isso não acaba”. Como se nada tivesse acontecido. Enquanto pretendiam atribuir o aumento do dólar e a instabilidade financeira ao voto ao peronismo, quando na realidade era uma nova demonstração da dependência do país dos interesses das multinacionais e do capital financeiro internacional. É um novo ajuste a serviço de seus lucros e outra brutal queda dos salários.

O fim do governo Macri começou

Tudo indica que a derrota eleitoral do governo é irreversível. O voto castigo contra ele foi tão contundente que deixa em aberto que, para as eleições de 27 de outubro, essa derrota se repita e que não haja segundo turno. Para vencer no primeiro turno, é preciso que a chapa vencedora tenha 45% dos votos. Alberto Fernández já alcançou 47%. Esta é a base da crise política que o regime patronal tem hoje.

A magnitude da derrota do macrismo fica evidenciada em que só conseguiu vencer em dois distritos, CABA e Córdoba. Ele perdeu até em Mendoza, Jujuy e Corrientes, onde os governadores são dele. A derrota mais forte foi sofrida por seu candidato “estrela” Vidal na província de Buenos Aires. Aqui a diferença com o peronismo foi de 17 pontos (52,5% para 34,6%). O golpe mais marcante foi nos subúrbios de Buenos Aires, onde ele perdeu nos distritos de Quilmes, Lanús, 3 de fevereiro e Pilar. Só manteve os de San Isidro e Vicente López. O declínio de Macri e “Cambiemos” vem ocorrendo no compasso do ajuste e da queda no padrão de vida dos trabalhadores. Devemos lembrar que “Cambiemos” tinha arrasado nas eleições legislativas de 2017, a tal ponto que na província de Buenos Aires o desconhecido Esteban Bullrich venceu a lista peronista liderada pela própria Cristina Kirchner. Crescido com esse resultado, Macri lançou a reforma previdenciária recomendada pelo FMI, que provocou um repúdio maciço em dezembro daquele ano. Milhares de pessoas se mobilizaram em frente ao Congresso. Foi um antes e depois. O pacto com o FMI, em meados de 2018, terminou de afundá-lo. Uma prévia de sua queda foram os resultados das eleições provinciais antecipadas este ano. Em Santa Fé, por exemplo, onde tinha chegado a disputar o governo com Miguel Del Sel, nas deste ano ficou em terceiro com 19,78%. Uma ampla gama de trabalhadores e setores populares que haviam votado em Macri em repúdio aos doze anos do kirchnerismo foram rompendo com a nova fraude política que significou “Cambiemos”. Isto não tem retorno. Nem mesmos as pesquisas conseguiram registrar a magnitude do ódio popular contra Macri e seu governo.

O voto castigo foi capitalizado pela chapa peronista dos Fernandez.

A chapa de Alberto e Cristina conseguiu capitalizar esmagadoramente o voto castigo ao macrismo. Alberto Fernández recebeu mais de 10 milhões de votos. Nenhuma pesquisa havia previsto tal diferença, nem aqueles que trabalhavam para a Frente Todos. Isso fortaleceu a tendência que as eleições provinciais já marcavam. O voto de raiva, o voto castigo, marcou o retorno dos setores populares ao voto no peronismo. Muitos trabalhadores e jovens votaram na chapa dos Fernandez, sabendo que uma mudança fundamental em suas vidas não é certa. Mas, o ódio a Macri e ao seu ajuste brutal prevaleceram. Prevaleceu o”devemos acabar com Macri”,  “não se aguenta mais outro governo Macri”.

O peronismo kirchnerista soube aproveitar essa raiva de milhões. Para isso, teve que se reciclar e mudar sua política eleitoral. Embora o governo enfatize que enfrenta o “Kirchnerismo”, a Frente de Todos é uma nova aliança peronista. Na verdade, Cristina, em sua debilidade (nunca superou os 30-35%), teve que aceitar uma armação superior ao peronismo K. Ela sabia que com La Cámpora não estava certo que poderiam ganhar. É por isso que eles tiveram que construir outra aliança, começando por colocar Alberto Fernández como candidato à presidência, que há anos vinha sendo crítico de Cristina. Essa decisão foi fundamental para uma aliança superior. E acabaram concordando com Sergio Massa e grande parte da Frente de Renovação, o Movimento Evita e a maioria da burocracia sindical. Daer, Moyano e o CTA fizeram campanha pelo Fernández. E centralmente eles teceram uma aliança com os governadores, os mesmos que vieram aplicando o ajuste macristas nas províncias. Eles também acrescentaram setores de centro-esquerda como Pino Solanas, Victoria Dona e Víctor De Gennaro. Assim, foram liquidando ou reduzindo a sua expressão mínima a possível “terceira frente” do peronismo federal. Assim, Lavagna, Urtubey e Graciela Camaño alcançaram apenas 8,3%.

Nem esta aliança nem o quase próximo governo de Fernández significam que o peronismo superou sua crise histórica. Mas isso significa uma importante recomposição conjuntural. Milhões retornaram a votar no peronismo como um voto de raiva, mas também com alguma ligeira esperança de que vão ficar “melhores” do que com Macri. Refletindo que ainda não houve uma ruptura final com a crença equivocada de que os líderes políticos dos patrões podem “resolver” a pobreza e o declínio social das massas. Esse ainda é o legado do velho peronismo das “conquistas sociais” de 45, que não retornará. Ele não retornou durante os doze anos de Kirchnerismo e menos agora. Alberto Fernández já disse que renegociará com o FMI e que continuará pagando a dívida, ou seja, continuará governando para os de cima e aliados à burocracia sindical. Os trabalhadores e setores populares enfrentarão novamente um governo peronista.

Por isso, que qualquer interpretação possível, por parte dos setores da esquerda, de que uma “nova ordem” será aberta no país em que o imperialismo e as multinacionais vão ter um forte choque com o governo de Alberto e Cristina está errada. Macri foi o candidato preferido de Trump, do FMI e Bolsonaro, mas outra coisa é acreditar que o FMI e o imperialismo não estão mais dispostos a negociar com um novo governo peronista. Eles já fizeram isso com o Kirchnerismo, por 12 anos, que pagaram a dívida, atacaram o salário e concordaram com a Barrick, a Monsanto e a Chevron.

Uma ótima eleição da FIT-Unidade

A Frente de Esquerda Unidade fez uma ótima eleição. Ganhou 700.000 votos para  presidente com a chapa Del Caño-Del Plá e 760.000 votos para deputados nacionais, indo além das expectativas previstas para as primárias e se colocando como a quarta força nacional. É muito importante o voto para a FIT-Unidade contra o fato objetivo da reviravolta massiva em relação ao voto castigo com o peronismo. Isso mostra que há uma importante faixa de votos em todo o país que foi consolidada com a Frente de Esquerda-Unidade, apoiando uma saída de esquerda diante da crise no país e dando as costas para as diferentes variantes patronais. E um reconhecimento por ter sido consistente em enfrentar o ajuste de Macri e os governadores, na luta das mulheres, na defesa da juventude e na postulação do sindicalismo combativo contra a burocracia sindical.

A votação para a FIT-Unidade foi parte de um voto de repúdio ao governo Macri e de apoio a uma saída de independência de classe. Também foi uma forte campanha de que não há saída para a classe trabalhadora e os setores populares sem romper com o FMI e deixar de pagar a dívida externa.

Foi um voto a favor da coerência da FIT-Unidade em manter e lutar por mais unidade na esquerda. Como também se mostrou o fracasso eleitoral do sectarismo do Novo-MAS e de sua candidata à presidência, Manuela Castiñeira, que não passou para outubro, e o óbvio revés de Luis Zamora. Ambos rejeitaram a proposta de juntar-se a unidade em uma lista de esquerda.

Passada as primárias, temos duas tarefas fundamentais à frente. A primeira, para enfrentar o novo ajuste com o aumento do dólar e o consequente aumento de preços e a diminuição dos salários e da aposentadoria. Nós da Izquierda Socialista na FIT Unidade, acreditamos que deveríamos nos unir para exigir uma greve de 36 horas da CGT-CTA e um plano de luta para impor medidas de emergência, como aumento de salários e aposentadorias de acordo com a cesta básica, que sejam suspensos os pagamentos da dívida e que se nacionalize os bancos para evitar a fuga de capitais e especulação contra os trabalhadores e o país. A segunda é preparar-se para continuar a luta político-eleitoral em outubro, para consolidar e aumentar o voto para os candidatos da FIT-Unidade e fortalecer uma alternativa política que, diante de possíveis convulsões sociais, prepare saída radical. Uma nova boa eleição nos fortalecerá para continuar a luta contra o novo governo e os novos ajustes que virão.

 

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