Contrapoder, Editorial n° 7: crise ambiental vai às ruas

A gigantesca cortina de fumaça que escureceu a cidade de São Paulo em pleno dia e precipitou uma chuva escura, saturada de partículas de queimada, disparou o sinal de alerta da urgência de deter a dantesca devastação da Amazônia.

A floresta em chamas não pode ser dissociada da nova corrida por terras instigada pelo governo Bolsonaro. Os dados são aterradores. Apenas no mês de julho, a derrubada na Amazônia comprometeu uma área superior ao território da cidade de São Paulo, um aumento quase quatro vezes superior ao do mesmo mês do ano anterior.

A responsabilidade pessoal do presidente, o autointitulado “capitão motosserra”, pelo agravamento da crise ambiental é inequívoca. O incentivo à grilagem de terras, o relaxamento das normas de proteção ambiental, a apologia da derrubada da mata, o desmanche dos órgãos públicos de monitoramento e fiscalização da floresta, a intimidação de funcionários públicos que trabalham da defesa do meio ambiente, o absoluto descaso com a proteção das reservas indígenas e a conivência da Polícia Federal com madeireiros e fazendeiros instigam a rapinagem da floresta. Bolsonaro liberou o “vale tudo”. No “dia do fogo”, 10 de agosto, data da manifestação de ruralistas “para mostrar ao presidente que queremos trabalhar”, os focos de queimadas no município de Altamira aumentaram quase nove vezes em relação ao ano anterior.

A Amazônia ardendo politizou a crise ambiental. A irresponsabilidade do governo Bolsonaro despertou forte reação popular, no Brasil e no exterior. No dia 23 de agosto, os atos de rua em defesa da Amazônia foram robustos. As cenas de cidadãos batendo panelas durante a fala do presidente em rede nacional de televisão lembraram o início do debacle de Dilma Rousseff. Os protestos contra as queimadas na Amazônia também se espalharam por várias capitais da Europa, reunindo um número considerável de manifestantes.

No debate sobre o que fazer para enfrentar o problema, a desfaçatez e a hipocrisia são a regra.

Depois de negar a existência do problema, para em seguida atribuí-lo a uma conspiração de ONGs, pressionado pelas ameaças de retaliação internacional, Bolsonaro, humilhado, foi forçado a dar satisfação à opinião pública. Em pronunciamento patético, reconheceu finalmente a existência das queimadas, mas, coerente com sua intenção de destruir todo resquício de civilidade do Estado brasileiro, não recuou um milímetro em sua política predatória. Ao fim e ao cabo, comprometeu-se a convocar recrutas do exército a bater fogo no meio da selva. Uma providência ridícula e absolutamente inócua para deter o holocausto da floresta.

As lideranças das potências imperialistas europeias, tomadas de ardor ambientalista, levaram a questão amazônica à reunião do G7. Acenando com a necessidade de uma tutela internacional, na verdade, estão muito mais interessadas em tirar proveito eleitoral e comercial da situação do que em deter o desastre ambiental, cujo condicionante estrutural, como se sabe, é a sanha insaciável de lucro do grande capital que impulsiona a ordem global da qual o G7 é fiel guardião.

A reação “nacionalista” do ex-capitão e de seus asseclas às ameaças de retaliação internacional não passa de uma pantomima. A afirmação apaixonada de que “a Amazônia é nossa” é apenas retórica compensatória e cortina de fumaça para ocultar a entrega da riqueza da região de mão beijada às grandes corporações, nacionais e internacionais — um expediente canhestro que lembra o fervor indignado dos escravagistas brasileiros, que, em meados do século XIX, vociferavam raivosamente, em nome da soberania nacional, contra as pressões britânicas pelo fim do tráfico negreiro, enquanto aceitavam docilmente as relações de exploração e dominação decorrentes da posição rebaixada do país na divisão internacional do trabalho.

De olho no calendário eleitoral, a oposição dentro da ordem aproveita a ocasião para desgastar o presidente. Sem nenhum prurido com a lógica, os petistas fazem malabarismo para mostrar que o único meio de salvar a floresta é “Lula Livre”. Os paladinos do ecocapitalismo, Marina Silva à frente, clamam pela restauração da governança ambiental como única forma de administrar o ritmo e a intensidade da destruição ambiental.

Não há dúvida de que a política criminosa de Bolsonaro acelera perigosamente a destruição de um dos principais reservatórios de riqueza biológica do planeta, mas é preciso não esquecer que a violência contra a Amazônia não é de hoje. A exploração predatória da floresta avança em ritmo célere desde a abertura da região à exploração empresarial em grande escala pela ditadura militar nos anos sessenta. O processo ganhou proporções cataclísmicas após 1995, com a expansão da fronteira agrícola e mineral vinculada aos grandes negócios da globalização. A dimensão da catástrofe fica evidente quando se constata que a discussão entre os cientistas é para saber se a área de mata destruída nas últimas duas décadas, período dos governos tucanos, petistas e emedebistas, equivale ao território do Uruguai, Paraguai ou Alemanha.

A crise ambiental é uma das formas de manifestação da barbárie capitalista no Brasil. À superexploração do trabalho corresponde a depredação acelerada dos recursos naturais. Sem colocar em questão a totalidade do padrão de desenvolvimento, não há como enfrentar suas causas estruturais. Os interesses econômicos responsáveis pela destruição das florestas têm nome e endereço: o agronegócio, as mineradoras, as indústrias de tratores e equipamentos mecanizados rurais, as empresas de agrotóxicos, fertilizantes e sementes transgênicas, as grandes construtoras, as hidroelétricas, as siderúrgicas e o sistema financeiro que lubrifica e potencializa o funcionamento de toda essa engrenagem, sob a benção de uma plutocracia aculturada que não abre mão de copiar os estilos de vida e padrões de consumo das economias centrais.

A defesa do meio ambiente passa pela luta de classes. A burguesia não tem como salvar a floresta. Nacionalismo compensatório, imperialismo cínico e cooperação baseada na governança ambiental não são soluções para a Amazônia. Quem cuida da floresta é o homem livre no terreno. Só uma intervenção popular pode deter a marcha insensata da catástrofe ambiental. Em última instância, a preservação da Amazônia depende da capacidade dos trabalhadores de realizarem um modo de produção e consumo que respeite o trabalho e o meio ambiente. Dia 20 de setembro, todos na Greve Global do Clima!

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