CHILE | Mais repressão, e agora com as Forças Armadas nas ruas: o verdadeiro objetivo do “Acordo pela Paz” de Piñera.

Tradução  Lucas Schlabendorff, militante da CST – PSOL  | Escrito por Movimento Socialista dos Trabalhadores (MST),  seção chilena da UIT-QI.  25 de Novembro de 2019

 

Enquanto impulsiona com a mão esquerda um corrupto acordo com parte da oposição, com a mão direita aplica uma agenda ultra repressiva contra os manifestantes. Piñera, desesperado e com um governo mergulhado em uma profunda crise, tenta se manter no poder. 

Presidente do Chile, Sebastián Piñera | Foto: Javier Torres/AFP

Um acordo para legitimar o terror nas ruas

O ponto número um do “Acordo pela Paz”, é a imposição da ordem social… com repressão e sangue. Por isso toda a direita assinou o pacto (obrigada pela luta nas ruas), em troca de que exista unidade de todos os partidos para condenar a “violência das mobilizações” e tirar as centenas de milhares de manifestantes das ruas. 

Piñera e seu governo são conscientes de que seu principal inimigo está nas ruas. São as massivas mobilizações espontâneas e nacionais, quem afundaram seu governo e questionam o modelo econômico e a constituição de Pinochet. Por isso, nem um só dia passou sem que se reprima manifestantes, se encha as cadeias de presas e presos políticos, mortas e mortos, mutiladas e mutilados, torturadas e torturados. 

Por isso, diante de todos os anúncios repressivos de Piñera, a mesma oposição que assinou o acordo permanece calada ou apoia publicamente como faz a Democracia Cristã e parte da antiga Nova Maioria. Demonstrando que os abraços de unidade não eram só pra preparar acordos de costas para o povo, mas também para liquidar as mobilizações massivas.  

 

Foto: Javier Vergara

Mais repressão… e legalizada. 

Os anúncios de Piñera nesse sentido não deixam dúvidas. Ele primeiro anunciou que reintegrariam os Carabineiros (a polícia nacional do Chile) e PDI (Polícia de investigações do Chile) aposentados, para ter mais pessoal nas ruas. Em seguida, adiantar a partida de Carabineiros para botá-los o quanto antes para reprimir. Agora complementa essa agenda ultra repressiva com o anúncio de um projeto de lei para que as Forças Armadas possam cuidar de “pontos críticos”, sem precisar convocar o Estado de Emergência… ou seja, milicos às ruas. 

Para complementar essa agenda, ele anunciou queixas contra todos os manifestantes. O Ministério Público anunciou que o número de detidos entre 18 de outubro e 15 de novembro é de 17.434 pessoas. As pessoas que foram levadas para audiências de controle de detenção são 25.505. Destas, 2.236 foram processadas por saques. A criminalização do movimento e dos presos políticos aumenta dia a dia em números escandalosos. Estas se somam aos vinte assassinatos pelas Forças Armadas e Carabineiros, e os casos que não foram esclarecidos sobre pessoas que morreram em supermercados queimados, mas que por informes do Instituto Médico Legal, sabe-se que foram baleadas antes que seus corpos fossem colocados nos supermercados. Junta-se a isso os mais de 220 mutilados por projéteis de Carabineiros, e os mais de dois mil feridos em outras partes de seus corpos por esses mesmos projéteis. As abusadas e abusados sexualmente, e os centenas de milhares que diariamente são reprimidos nas ruas. 

Jean Espinoza (22), atingido no olho com um tiro enquanto protestava em Iquique, no Chile. | Foto: Jorge Silva/Reuters

Não podemos deixar de mencionar os assassinatos que começam a ser conhecidos. A jornalista Albertina Burgos foi brutalmente assassinada em sua casa em “circunstâncias estranhas”. O material fotográfico que ela estava coletando sobre a repressão desapareceu. Junto com este caso, se soma o do companheiro da “Primera Línea¹ (“Linha de Frente”, como são chamados os grupos que se posicionam na linha de frente das manifestações, enfrentando a polícia), o “Gato”. Ele foi encontrado morto em casa, também em “circunstâncias estranhas”.

Outro exemplo é o do ex-candidato a deputado e dirigente do PTR (Partido dos Trabalhadores Revolucionários), Daúno Totoro, contra quem o governo denunciou apenas por ter pedido que “se vaya Piñera”. Com quem nos solidarizamos (refere-se a Daúno) e denunciamos que essa denúncia do governo é apenas mais uma tentativa de intimidar aqueles que exigem a saída do principal culpado da repressão. 

Não temos dúvidas, o governo de Piñera é o governo da repressão, do assassinato e da tortura. Longe de mudar essa sangrenta política, o acordo “pela paz” afirma a necessidade dos empresários donos do Chile imporem uma verdadeira “paz de cemitério” no país. 

O único caminho é seguir nas ruas e organizados nas assembleias

A única força social que verdadeiramente se opõe aos acordos corruptos e à política repressiva do assassino Piñera, tem sido as ruas. Apoiadas nelas, as assembleias territoriais que emergiram como as mais legítimas organizações de luta desde o início dessa rebelião popular. Somente dessas organizações pode surgir a verdadeira oposição ao governo de Piñera e ao parlamento corrupto, ambos a total serviço dos empresários e das multinacionais que dominam o país em seu própria benefício.  

Hoje, mais que nunca, é urgentemente necessária uma coordenação nacional de assembleias que decida democraticamente um plano nacional de lutas, para coordenar e fortalecer todas as mobilizações. Organizando também a defesa de todas e todos os presos políticos, assim como a autodefesa de nossas marchas que tão heroicamente foram realizadas pela “Primera Línea”. 

Da mesma forma, precisamos urgentemente de uma petição nacional única de todas as assembleias, que seja discutido e votado democraticamente nas bases. Que incluía nossa proposta de uma genuína assembleia constituinte, junto com as demandas imediatas por salários, empregos, perdão de dívidas, estatização de todos os serviços básicos, entre outros pontos. Mas, acima de tudo, se coloque à cabeça para coordenar a luta pela consigna que mais se pede nas ruas: FORA PIÑERA! 


¹ Sobre os grupos “Primera Línea” ver o artigo jornalístico do GGN no link https://jornalggn.com.br/america-latina/linha-de-frente-a-resistencia-que-segura-os-protestos-no-chile/ 


 

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