A defesa do legado dos governos de Lula e Dilma

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O preço caro a ser pago pelo PSOL Carioca para garantir a aliança com o PT no Rio

Nos últimos dias fomos informados por uma coluna do Jornal O Globo que o PT espera que Freixo defenda o legado dos seus mandatos na presidência, bem como sua inocência das acusações de corrupção, como uma condicionante para garantir o apoio ao PSOL na Cidade do Rio.
A configuração atual do partido mostra que, se depender da maioria da direção nacional do PSOL, o apoio petista tem grandes chances de sair, apesar dessas condições colocadas. O presidente nacional do PSOL declarou recentemente ao site UOL que precisamos reconduzir Lula ao posto de “craque do time” da esquerda brasileira. O presidente do partido, entretanto, não ficou por aí. Manifestou que, para além de sua opinião pessoal, esse entendimento “estava muito bem resolvido no PSOL”. Diante dessa fala, parece-nos fundamental que um debate franco com a militância do PSOL seja aberto, pois essa posição não expressa a opinião do partido como um todo. O PSOL não pode, em hipótese alguma, confundir maioria com totalidade.
O PSOL surgiu após uma traição de classe, iniciada desde a “Carta ao povo brasileiro” do governo Lula. Aquele foi um marco que selou um compromisso com o sistema financeiro, mantendo o eixo da política neoliberal para preservar o superávit primário, que avançou nas privatizações por meio de Parcerias Público-Privadas, na terceirização e que pactuou com os representantes do capital. Essas escolhas levaram o PT a governar com os setores mais reacionários como Temer, Barbalho, Sarney, Crivella, Paes, Garotinho, Cabral e uma infinidade de nomes e partidos da direita tradicional brasileira.
Lula apresentou, logo no começo do seu 1º mandato, a Reforma da Previdência que FHC não havia conseguido aprovar em seus governos. Alguns parlamentares do PT se recusaram a votar e foram expulsos (os chamados radicais). Esse fato deu origem ao PSOL. Defender o legado do PT significa, na prática, dizer que foi um erro fundar o PSOL. A origem desse partido está, portanto, essencialmente relacionada com o combate a traição de classe promovida pelo PT em seus anos à frente do governo.
A tentativa de reciclagem do petismo dentro do PSOL se esconde atrás da fórmula “o impeachment da Dilma e a eleição do Bolsonaro mudaram o cenário político” para justificar sua aproximação com PT, PC do B, PDT, PSB, PV, Rede e etc. Ignorando o verdadeiro “legado” de Lula e do PT.
Nós propomos que o PSOL adote outra política. Queremos que o PSOL esteja em sintonia com a luta de classes, ou seja, se vincule a onda de protestos, levantes e insurreições revolucionárias que varrem o mundo, em particular a América Latina. Se Lula agita que quer esperar 2022 para resolver os problemas do país através das eleições, dizemos que nós somos parte daqueles que querem derrubar Bolsonaro já. E no seu lugar, constituir um verdadeiro governo de trabalhadores que anule as ditas reformas e medidas antidemocráticas e antipovo.

Nossa unidade é para lutar

É certo que a vitória de Bolsonaro nos coloca como tarefa prioritária para os socialistas derrotar a extrema direita. Para esse enfrentamento, que se dá fundamentalmente nas lutas sociais, greves, mobilizações de rua e protestos, não há nenhum problema estar com o PT, assim como unificar todos os que queiram lutar contra as medidas reacionárias e autoritárias do bolsonarismo.
Nessa luta, vamos ter distintas unidades para determinadas pautas. Por exemplo: é possível concordar com os editoriais da Folha de São Paulo e do Estadão que criticam o autoritarismo do Bolsonaro. O prefeito direitista de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), declarou “me avisem se pedirem AI-5 de novo para eu sair do hospital e protestar”. Se houvesse um protesto de rua contrário à um novo AI-5, era possível protestar ao lado do prefeito patronal de São Paulo, sem criar ilusões de que Covas – por essa posição – se transformaria em alguém de esquerda.
Portanto a diferença entre nós não está na leitura de que a unidade é necessária para enfrentar o governo de Bolsonaro, mas sobre com que programa e com que estratégia enfrentamos a extrema direita. Por que no lugar do governo Bolsonaro queremos construir um governo dos trabalhadores que atenda as reivindicações como a reforma agrária, a reestatização da Petrobras, da Vale, dos serviços e de tudo que foi privatizado, fim do pagamento da dívida pública, universalização dos serviços de saúde, de educação, de saneamento etc. A verdade é que a política do PT é de aliança com a burguesia através da Frente Democrática. Desgraçadamente para nós, o PSOL está a reboque do PT.

O objetivo do PT não é derrotar Bolsonaro, mas desgastá-lo para 2022

Recém-saído da prisão, as prioridades de Lula giram em torno do fortalecimento eleitoral de sua sigla, como fica nítido em suas entrevistas recentes e nas condições que o mesmo busca impor ao PSOL para dar-lhe seu apoio. Lula quer de 2020 um palco para a defesa intransigente do seu legado e de sua inocência.
Ao sair da prisão, Lula não deixou dúvidas ao defender que Bolsonaro termine seu mandato em 2022. O “Fora Bolsonaro” não é uma palavra de ordem que ajude o seu projeto, que, como já dito, visa apenas garantir o desgaste eleitoral da figura que centraliza a extrema direita no Brasil. Sem dúvida, essa compreensão é antagônica às necessidades da classe trabalhadora, que vê seus direitos atacados a cada dia pelo governo.
Porém, a fala de Lula revela também uma estratégia reacionária de que é possível fazer um governo para todas as classes. É reacionária porque é absolutamente mentirosa. É reacionária porque quer manter tudo como está. A crise no capitalismo gera cada vez mais desemprego, fome e destruição ambiental. Ou enfrentamos os privilégios dos capitalistas ou impomos mais miséria à classe trabalhadora. Não há espaço para a conciliação de classes, nunca houve!
Ao chegar ao governo essa ilusão vai ser desfeita novamente. Sobretudo nos momentos de maior crise econômica a cartilha do capital reza que os trabalhadores paguem a conta. Assim foi no estelionato eleitoral de Dilma em 2014, que levou a uma ruptura de massas.
Vender essa falsa ilusão foi o principal combustível do crescimento da direita.

O Rio de Janeiro como Laboratório

O Rio de Janeiro é simbólico para explicar um pouco das alianças espúrias dos governos petistas. Por aqui foi operada uma aliança poderosa em todos os níveis durante um longo período que oxigenou e fortaleceu figuras como Cabral, Paes e Crivella e transformou a cidade do Rio em um balcão de negócios.
Em 2002, quando Benedita da Silva (PT) era governadora do Rio de Janeiro, ela assinou um mandado de busca e apreensão coletivo dirigido ao Complexo do Alemão. A medida deu à polícia militar o direito de violar mais de 10 mil residências naquela comunidade.
Já em 2008, Lula cedeu militares para ocupar o morro da Providência, a pedido de Marcelo Crivella, então senador e candidato à prefeitura do Rio. Em 2011 novamente os militares da Força de Pacificação receberam autorização judicial para entrar nas moradias do Complexo do Alemão e da Penha.
É emblemática e inesquecível a fala de Lula logo após a reeleição de Sérgio Cabral (2010) ao governo do Estado. Lula disse que “…no RJ agora a polícia só bate em quem deve bater”, elogiando a instalação das Unidades de Polícia Pacificadora – as UPPs.
A pedido do consórcio formado por Sérgio Cabral, Eduardo Paes e o PT à frente do governo Federal, Lula e Dilma colocaram o Exército à disposição da política assassina de segurança pública de Cabral e Beltrame.
O ponto alto das medidas que violavam os Direitos Humanos foi em 2014 com a ocupação por 11 meses do complexo da Maré.
O PT também não enfrentou as milícias, amigos de seus amigos. Não enfrentou para poupar seus aliados, tudo feito em nome da governabilidade.

É preciso tirar conclusões corretas

A vitória de Bolsonaro demonstrou que há desesperança por parte da população de que a solução de seus problemas esteja nas mãos de quem já governou. A direita tradicional vinha governando até 2003. Com a chegada do PT ao governo criou-se a ilusão de que os trabalhadores governariam. Está nessa desilusão muitas das causas do que estamos vivendo hoje.
Na nossa opinião, a ausência de uma alternativa radical à esquerda reforça saídas autoritárias. Insistir nesse erro, de tentar reconduzir Lula, PT e etc à condição de dirigentes da esquerda e subordinar o capital político acumulado pelo psol deixa uma avenida aberta que foi ocupada pela extrema direita em 2018.
A estratégia do lulo-petismo se mantém intacta, mesmo após o impeachment. Nas regiões em que governam, PT e o PC do B seguem operando ataques à classe que dizem representar e defender. Seus governadores estão aplicando a infame reforma da previdência, a retirada de direitos e a repressão aqueles que lutam e resistem. O governador do Maranhão entregou a base de Alcântara, abandonando uma luta histórica da esquerda brasileira contra o imperialismo norte-americano.
Na polarização entre as diferentes formas de aplicar o receituário econômico liberal, não se apresentar de maneira autônoma e descolada do que foi a tragédia de 13 anos de PT no governo, pode ser fatal para todos nós. Errar faz parte de quem tenta agir sobre a realidade. Insistir no erro é de uma burrice gigante. É justamente esse erro queremos corrigir enquanto há tempo.
O PSOL precisa construir uma frente que tenha como ponto de partida os interesses dos trabalhadores, que esteja comprometida com a construção das greves como a dos professores e servidores do RS. Que esteja disposta a lutar pela anulação das reformas de todos os governos da Nova República, que nos retiraram direitos ao longo dos anos. Uma frente que esteja disposta a lutar para construir a luta cotidiana com uma perspectiva socialista, de ruptura e não de manutenção da ordem vigente em nosso país.
Apenas com uma frente de esquerda com PSOL, PSTU, PCB, UP e demais correntes e organizações classistas, com um programa radical e de ruptura, apoiado na mobilização da classe trabalhadora e da nossa juventude, poderemos superar a extrema direita apontando uma alternativa real contra a barbárie que nos impõem os governos sob o capitalismo.

Renato Cinco – Vereador e pré-candidato à prefeitura
Vereador Babá
Comuna
CST – Corrente Socialista dos Trabalhadores
Esquerda Marxista

 

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Publicado por Contrapoder em Quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

 

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