Nova onda progressista ou velha conciliação de classes?

 Jornal Combate Socialista

Foto: Agustin Marcarian/Reuters

As recentes vitórias eleitorais como as de Alberto Fernández e Cristina Kirchner na Argentina, do PSOE na Espanha e o governo comum com o PODEMOS, do PS em Portugal, além do avanço da oposição nas duas principais cidades da Colômbia, geram expectativas nos ativistas pelo mundo visto que, também são derrotas, mesmo que eleitorais, de partidos e líderes de direita e de extrema direita. Na Argentina, por exemplo, a vitória de Alberto e Cristina pela Frente de Todos expressou a canalização eleitoral de um enorme repúdio popular contra Macri e sua política de ajuste, um verdadeiro voto castigo.

Mas tem uma pergunta que devemos fazer: esses “novos governos” tidos como progressistas conseguirão de fato derrotar a extrema direita e aplicar um programa que atenda às necessidades dos povos? Os últimos anos do kirchnerismo na Argentina nos ajudam a responder. Além de reduzir o orçamento da saúde e da educação e de criminalizar as lutas, impôs um duro imposto sobre os salários, fato que gerou uma greve geral contra o seu governo e o colocou em ainda mais descrédito frente aos trabalhadores, gerando um voto castigo contra Cristina e abrindo o caminho para o macrismo.

Como vai governar o kirchnerismo na Argentina?

Agora o novo governo eleito da Frente de Todos anuncia que não vão reverter os aumentos de tarifa feitos por Macri e irão cumprir todos os compromissos econômicos com o FMI e o imperialismo, apesar de todo o discurso que fizeram contra o FMI nas eleições. Ou seja, o governo Alberto-Cristina vai continuar deixando a economia argentina de joelhos, não cumprindo com as promessas de campanha de reativar a economia e manter a “geladeira cheia”. Exemplos não faltam de que, em momentos de crise econômica, ao manter os compromissos com o FMI e com a dívida pública termina-se sempre em ajuste e em retirar dinheiro das áreas sociais, gerando mais desemprego, miséria e dependência e facilitando o caminho para as variantes de direita.

A opção por esse caminho promoveu o esgotamento, enquanto alternativa, de expoentes da esquerda como o Syriza na Grécia, que após vencer as eleições em 2015 repudiando o ajuste da troyka (FMI, União Europeia e Banco Central Europeu), terminou pactuando e aplicando o ajuste do FMI, entregando uma dívida que representa 180% do PIB e facilitando o caminho para a vitória eleitoral em 2019 do partido conservador Nova Democracia. A traição do Podemos da Espanha frente à luta pela independência catalã e agora no México o pacto anti-imigração de Lópes Obrador com Trump vão no mesmo sentido. No Brasil, o ajuste fiscal imposto por Dilma em 2014 foi um dos fatores determinantes para a perda de apoio popular desse partido.

A FIT é um exemplo a ser seguido!

Em meio ao aprofundamento da crise econômica mundial e das lutas dos povos do mundo contra os ajustes é urgente construir outro tipo de saída, apostando nesses processos para romper os pactos de dependência com o FMI e o imperialismo. Nesse sentido a experiência da FIT-Unidad na Argentina aponta um caminho diferente, dizendo claramente que não há saída sem romper o acordo com o FMI e suspender o pagamento da dívida, sendo esse o primeiro passo para priorizar as reais necessidades do povo trabalhador: salário, emprego, educação, saúde e habitação. O apoio eleitoral que coloca a FIT-Unidad como quarta força na Argentina, está assentado junto ao sindicalismo combativo, nas lutas das mulheres e da juventude, onde nelas dizem sempre claramente que os bancos e que os capitalistas é que devem pagar pela crise.

O que revelam os recentes discursos de Lula?

Após sua libertação, Lula discursou em um comício em São Bernardo do Campo (ver nossa nota) e na reunião da Executiva do PT em Salvador (BA). Em ambos o petista deu sinais de que sua estratégia e da direção do PT é de esperar as eleições de 2022 e não organizar uma efetiva oposição nas ruas. Algo contraditório com o sentimento de um amplo setor que quer derrotar o governo imediatamente, pois sabe que a destruição de direitos avança com Bolsonaro.

Na Bahia, Lula disse que o PT não precisa fazer nenhuma autocrítica. Ou seja, que as alianças com partidos de direita, a ocupação do Haiti, a construção de Belo Monte, a reforma da previdência contra os servidores federais, o pagamento da dívida aos banqueiros, as remoções forçadas, as relações espúrias com as empreiteiras e os grandes empresários devem ser simplesmente jogados para debaixo do tapete, o que indica que foram corretas e que o PT quer repeti-las.

Ainda dentro da sua política de conciliação, dirigentes da Articulação estão fazendo um movimento de procurar os políticos do centro, Rodrigo Maia e os militares para pacificar a relação com a direita.

Isso demonstra que não podemos seguir atrelados ao projeto político de Lula. É necessário construir uma frente de esquerda do PSOL, PSTU e PCB apresentando um programa alternativo que supere o projeto petista de conciliação de classes 

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