185 anos do Triunfo do movimento cabano

Ilustração: Paulo Magno/ @ilustramagno

Aqui, debaixo de nossos pés, os debaixo já tomaram o poder. Viva a Cabanagem!

Por: Joice Souza | CST/PA

Em  6 de janeiro de 1835 o movimento cabano ocupava o  quartel e o palácio do governo em Belém. Era o inicio do triunfo da Cabanagem que se concretizaria no dia seguinte. O então presidente da província, Lobo de Souza, foi assassinado e um novo governo foi instituído.

A Cabanagem foi uma das várias Revoltas populares que questionaram o poderio da Coroa Brasileira, elitista, escravocrata e centralizadora que impunha às diversas províncias do país uma situação de miséria e exploração a serviço do enriquecimento das elites ( em  especial os membros da realeza). Esta situação levou a vários levantes populares em todo o período do Brasil-Império, onde a Cabanagem é apontada por diversos historiadores como a única em que os populares conseguiram tomar o poder, mesmo que por um breve período de tempo. Foram bravos homens e mulheres que durante mais de dez anos desafiaram o governo central, com enfrentamento físico e táticas de guerrilha, nas ruas da cidade, nos rios e igarapés.

O Primeiro presidente Cabano foi Clemente Malcher. Malcher não teve participação direta na tomada do palácio, era Coronel, latifundiário e dono de engenhos de açúcar. Sua postura em favor dos interesses dos mais abastados ia de encontro às aspirações do movimento que o levara ao poder, que em sua maioria era composta por índios tapuias, murasse, maues, negros quilombolas, escravizados, libertos e mestiços mas  que tinha também em sua liderança membros das elites locais descendente de portugueses desejosos de mais influência. Todos os grupos se uniram contra o governo central, mas os setores populares queriam pôr fim a situação de miséria em que se encontravam enquanto Malcher tentava barganhar poder com o governo Central. Um mês depois, Malcher tentou dar um golpe e prender outros líderes cabanos, mas foi derrotado, deposto e assassinado.  Francisco Vinagre, comandante de armas do governo cabano, assumiu o comando do governo em seu lugar. 

Vinagre por sua vez, também se declarou fiel ao governo regencial e  negociou a entrega do governo à Coroa em troca de anistia aos rebelados, mas o movimento corretamente não confiou no acordo, não entregou suas armas e se preparou para novos enfrentamentos.

A Regência, como previsto não cumpriu o trato. E os cabanos mais uma vez tomaram o poder na cidade e instituiram o terceiro governo Cabano, uma República chefiada por Eduardo Angelim que durante dez meses conduziu um governo independente. A contra-ofensiva do governo brasileiro foi brutal: Em abril de 1836, Belém foi cercada por tropas regenciais  e a população massacrada, O governo retomou o poder da capital da Província e seguiu perseguindo os lideres do movimento, a cabanagem resistiu bravamente por anos até ser completamente dissipada em 1840. 

O legado da cabanagem

A história do povo paraense é uma história de luta e resistência! O movimento é uma prova viva e recente disso apesar de todas as tentativas das elites de reescrever essa história ao seu modo, seja tentando apagar o movimento da memória coletiva paraense , seja tentando se apropriar de seu significado: como já o fizeram Getúlio Vargas no Estado Novo, o governo Oligarca de Jader Barbalho no passado mais recente, e atualmente seu filho, o governador Helder Barbalho/MDB, que tentam dar ao movimento um tom regionalista, quase que folclórico e se beneficiar desse legado.

Mas a Cabanagem foi escrita com o sangue e o suor dos debaixo e permanece viva no povo indígena que segue resistindo contra o agronegócio; na juventude radicalizada que lota as ruas quando aumenta o preço da tarifa de ônibus ou como foi no Tsunami da educação em 2019; nas diversas categorias de trabalhadores/as que com greve e atos enfrentam governos e patrões como bravamente fizeram os trabalhadores em educação no fim de 2019 contra a reforma da previdência e na população das periferias que enfrenta o descaso, as ruas esburacadas com barricada nas ruas e vielas de Belém.  Que ela nos sirva de inspiração para enfrentarmos os tiranos de nossa época: Bolsonaros, Barbalhos e todos aqueles que se alimentam da retirada de nossos direitos. Viva a Cabanagem!

 

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