2020 – Nas ruas contra Bolsonaro

Coordenação da CST (Corrente Socialista de Trabalhadoras e Trabalhadores)

Açougue no Centro de São Paulo, em dezembro de 2019. Foto: Cris Faga/GETTY

O ano de 2020 está começando, mas é visível que a promessa de melhora da economia era fake news. Após um ano de Bolsonaro estamos em uma situação pior. Aumentou o preço da carne e o reajuste de tarifas do transporte começou por SP e DF. Basta olhar ao redor para ver o crescimento da precarização e da informalidade. Em dezembro, num supermercado do RJ, uma trabalhadora dizia que 2019 foi o “natal do arroz com ovo”. Num expressivo setor da população há uma forte insatisfação social.

A crise social aumentou e a mamata continua

De acordo como IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) aumenta a pobreza, o desemprego e subemprego. A ONU (Organização das Nações Unidas) constatou maior concentração de renda e queda na qualidade da educação. Esse é o capitalismo selvagem que o presidente e seus ministros defendem.

Ao mesmo tempo, a mamata segue em Brasília. O esquema de Queiroz e Flávio Bolsonaro, o Laranjal do PSL (partido pelo qual o presidente se elegeu), as maracutaias no DPVAT, são exemplos. De acordo com o jornal Folha de SP o chefe da comunicação da presidência da república é sócio de uma firma (a FW) que presta serviços para empresas como a Record e Band, que recebem recursos do governo.

Apesar da crise política, a burguesia está unificada sobre o ajuste fiscal

Num contexto de crise econômica continua a instabilidade política, como o demonstrado em MPs (Medidas Provisórias) e Decretos presidenciais que foram derrubados ou modificados pelo congresso e STF (Supremo Tribunal Federal). Outros exemplos são o racha no PSL, atritos com os governadores Witzel e Dória e as polêmicas sobre a Lava-jato. Além das dissidências do MBL, Janaina Paschoal e Joice Hasselmann. A crise da semana em que escrevemos essa edição foi a demissão de Roberto Alvin, secretário de cultura do governo, por imitar o discurso de um assessor de Adolf Hitler. Projetos da extrema direita como o de “abstinência sexual” para os jovens, declarações contra os livros didáticos e propostas ditatoriais não unificam hoje o conjunto dos patrões e empresários.

Um exemplo clássico do que falamos é a Rede Globo que critica em sua programação todas as propostas autoritárias do governo e quase sempre está aberta à defesa de pautas relacionadas aos direitos civis ao mesmo tempo em que defende com entusiasmos todo o programa econômico de Paulo Guedes, muitas vezes até exigindo sua aplicação de forma mais acelerada.  Ou seja, apesar das divergências na pauta dos costumes e em temas democráticos, predomina um acordo entre todos os empresários sobre o ajuste fiscal, as medidas que aprofundam a exploração da classe trabalhadores e retiram direitos, garantindo o pagamento da dívida interna e externa. Existe, portanto, uma necessidade real de construir uma forte oposição nas ruas, para nos defender dos ataques econômicos e sociais e lutar contra o autoritarismo e defender as pautas do trabalhadores e da juventude.

A melhor estratégia para a oposição é a ação direta nas ruas

Tsunami da Educação | Em junho de 2019 mais de 250 mil pessoas ocuparam a avenida Paulista, do Masp à Fiesp, para protestar contra a redução de 30% nos recursos para a educação. Cerca de 2 milhões protestaram no país no dia 15 de junho.

Ao longo de 2019, no jornal Combate Socialista, nos pronunciamentos do vereador Babá (PSOL RJ), junto aos camaradas Plínio de Arruda Sampaio Jr e o vereador Renato Cinco da plataforma Contrapoder insistimos na mesma proposta: construir uma oposição intransigente, baseada na ação direta nas ruas, utilizando as passeatas unitárias, greves unificadas, ocupações e a greve geral, pois é impossível qualquer pacto com a extrema direita de Bolsonaro. Nossa proposta se fundamenta na experiência do #EleNão em outubro de 2018, nos atos do 8 de março, no tsunami da educação e na greve geral do primeiro semestre de 2019, além de tentar nos conectar com a onda de lutas internacionais que segueno Chile e na França.

Ao mesmo tempo em que batalhamos por uma ampla unidade de ação apresentamos a ideia de uma Frente de Esquerda e Socialista ou Anticapitalista, seguindo o exemplo da FIT-Unidad (Frente de Esquerda dos Trabalhadores-Unidade) da Argentina. Batalhamos por essa estratégia no congresso da UNE, eleições de DCE’s, e assembleias estudantis através da Juventude Vamos à Luta. O mesmo fizemos em inúmeras categorias, como as assembleias do CPERS e SEPE, fóruns da FASUBRA e CONDSEF, na linha verde do Metro de SP, através da corrente sindical Combate. Por isso fortalecemos a CSP-CONLUTAS, central que agrupa o sindicalismo combativo. Essa estratégia é que defendemos junto aos camaradas do Bloco Radical do PSOL. Infelizmente essa não é a estratégia do PT e do ex-presidente Lula e nem dos demais partidos que compõem as oposições ao governo Bolsonaro.


Qual é a estratégia do PT e de Lula?

Desde o ato da educação em agosto, a CUT e o PT não convocaram nenhuma data nacional de mobilização unificada. E a direção da UNE, UBES e ANPG trataram de pulverizar os calendários estudantis para dispersar as forças do tsunami. São 5 meses sem atos unificados, nem nos dias das votações da reforma da previdência no senado ou quando o litoral foi consumido por um vazamento de óleo. A direções sindicais majoritárias desmontaram as greves dos trabalhadores dos Correios e petroleiros, isolaram a greve estudantil da UFSC e desaproveitaram greves estaduais como a dos professores do RS. As centrais barganharam com Rodrigo Maia os recursos das mensalidades sindicais.

Nos discursos de Lula, desde que conseguiu sua liberdade, apesar das críticas a vários projetos de Bolsonaro, fica explícito que o PT não aposta na luta nas ruas e que sua estratégia é reeditar o projeto de conciliação de classes nas eleições. Ou seja, não apostar em atos massivos e unificados nas ruas e buscar canalizar a insatisfação para as eleições de 2020 e 2022 por meio de coligações com partidos patronais. Para os lutadores honestos que podem ter alguma dúvida sugerimos que reflitam sobre os atuais governadores do Nordeste. O PT e demais partidos da oposição no Nordeste apoiaram a reforma da previdência de Bolsonaro e Guedes e no final do ano os governos das oposições aplicaram reformas da previdência estaduais contra os trabalhadores. O governador Flávio Dino do Maranhão, do PCdoB, entregou a base de Alcântara aos EUA e o governador Rui Costa, do PT da Bahia reprimiu as greves das universidades. E no Ceará o governo aderiu ao programa bolsonarista de construção de escolas militarizadas. No Nordeste o PT mantém coligações com partidos conservadores: PMDB, PP, PSD, DEM, PTB, PRB e PPS. Essa estratégia desarma os ativistas da oposição e dá fôlego ao governo, bem como ajuda a construir projetos de direita como Rodrigo Maia.


Botar o bloco na rua e protestar no 8 de março

Estão ocorrendo pequenos protestos do MPL contra o aumento das passagens em SP, enfrentando forte repressão da PM. A campanha salarial de servidores federais ainda está sendo organizada. A CNTE vinha indicando março como data para protestar. De fato, uma importante data nacional centralizada, que pode agrupar um setor massivo nas ruas é o protesto de 8 de março, no mês que completam 2 anos de impunidade sobre o assassinato da companheira Marielle. Ele será depois do carnaval, festa que tem tudo para ser politizada como em 2019. O 8M poderia agrupar o conjunto das oposições através das pautas feministas, do movimento negro, ambiental, da juventude estudantil. Também poderia ser utilizada pelos sindicatos para fortalecer as campanhas salariais nesse segundo semestre, ajudando a dar forças ao indicativo de manifestações da área da educação e setores do serviço público no dia 18/03.

Temos que batalhar para coordenar e unificar os protestos, massificar os movimentos atuais, visando uma segunda onda de manifestações massivas e unitárias contra o governo Bolsonaro/Mourão, seu plano de ajuste e seu autoritarismo, bem como os ataques aplicados pelo congresso nacional corrupto de Rodrigo Maia e Alcolumbre do DEM. Para isso será fundamental fortalecer as reuniões de construção do 8 de março, realizar assembleias de base e plenárias estaduais dos sindicatos para preparar o dia 18 de março como dia nacional de lutas e paralisações. É urgente que a CUT, UNE e demais movimentos convoquem uma Assembleia da Classe Trabalhadora para organizar um calendário de lutas.  A direção da UNE, UBES, ANPG precisam garantir calouradas com eixo no 8 de março e organizar um ENE visando um novo tsunami. O FONASEFE, ANDES, FASUBRA, SINASEFE poderiam organizar um forte lançamento da campanha salarial 2020 e garantir uma paralisação nacional no dia 18/03 contra a reforma administrativa e o Mais Brasil. Propomos ainda que a Frente Povo Sem Medo e Frente Brasil Popular convoquem um Encontro Nacional dos Movimentos Sociais para organizar a luta unificada nesse primeiro semestre.


Este artigo é parte da edição 105 do Jornal Combate Socialista

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