Espanha | A formação do governo PSOE-UP consagra o fim do ciclo Podemos

por Josep Lluis del Alcázar, Lucha Internacionalista.

Pablo Iglesias (Unidas Podemos) e Pedro Sánchez (PSOE) após assinatura de acordo. | Foto: EPA/JuanJo Martin

No início de 2014, impulsionado ainda pelos ventos dos Indignados do 15M, na Espanha nasce Podemos, um partido com expressões politicamente incorretas, de denúncia da casta, que reivindica sem complexos os de baixo… Teve uma veloz ascensão: em 4 meses apresentou-se às eleições europeias com 7,98% dos votos e 5 deputadas/os. Em só 20 dias de inscrição reuniu 100 mil membros e em outubro já eram 200 mil. No final desse mês, as pesquisas já davam a Podemos o primeiro lugar nas eleições gerais. Em 2015, ano em que o partido Syriza da Grécia alcançava a maioria, faltando só dois votos para a obtenção da maioria absoluta, Podemos conseguia 20,68% dos votos e 69 deputadas/os.

Esse começo meteórico deu logo início ao seu declínio, como retornar sem nunca ter saído do lugar. Apesar da unidade eleitoral com IU (Izquierda Unida), a soma das duas forças perdeu votos e só conseguiu manter as deputadas/os do Podemos. A experiência do governo Aléxis Tsípras na Grécia, traindo o resultado no referendo que ele mesmo tinha convocado e que exigia romper os memorandos da UE (União Europeia), foi decisiva para desmanchar as enormes ilusões que tinha gerado. Foi um processo de apenas 6 anos em que o aparato controlado pelo Pablo Iglesias foi abandonando uma após outra as reivindicações populares, para adaptá-las a uma suposta ala esquerda do partido governante PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol).

No entanto, no momento de maior debilidade, com uma perda de mais de 15% dos votos em seis meses, o Podemos entra no governo. Quer dizer, não como uma expressão do seu fortalecimento, mas da sua fraqueza, como uma fuga pra frente, dada a necessidade de fechar preventivamente uma crise interna que ameaçava destruir a organização. A entrada no governo, porém, atesta o fim do partido do “Sí, se puede” (Sim, é possível), que milhares de gargantas de operários e setores populares têm gritado. Imediatamente após a formação do governo, Iglesias se precipita para fechar uma suposta crise interna, tentando terminar de apagar qualquer indício de resistência.

Na sexta-feira 17 de janeiro, foi convocado o Conselho Cidadão Estatal do Podemos para anunciar o Terceiro Congresso que vai acontecer em março, onde Pablo Iglesias será apresentado novamente como candidato a Secretário Geral. Mas a advertência dada ao partido é clara quando ele próprio lembra que, a partir de agora, os membros do Podemos que fazem parte do governo não falarão “em nome do Unidas Podemos (UP), mas em nome da Espanha”. Em nome da Espanha? Refere-se à Espanha a qual os membros do governo Sánchez-Iglesias têm prometido lealdade: à Espanha monárquica! Fim do trajeto.

Uma imagem vale mais que mil palavras. O CUP-PR (Candidatura de Unidade Popular – Pela Ruptura) apresentou no Parlamento um pedido para o comparecimento do Felipe VI na Comissão do Interior, diante das notícias divulgadas pelo fisco da anticorrupção de propinas pagas pelo Estado Espanhol à Arábia Saudita: a Mesa do Congresso não deu seguimento ao trâmite, com o voto da UP em favor de que não tivesse comparecimento! E logo após, seu silêncio no COP 25 em Madri, a Conferência sobre o Clima que abriu com todas as honras o assassino presidente chileno Sebastián Piñera, enquanto seu povo sofria uma repressão terrível?

Sánchez-Iglesias: governo de coalizão?

Ciente da debilidade de Iglesias no governo, Sánchez estrutura o Executivo para que Podemos fique na sombra.

Em junho de 2018, após a moção de censura que causou a queda do Mariano Rajoy (PP), Sanchez nomeou um governo com 17 ministras/os e com uma vice-presidência. Hoje o PSOE tem 17 ministros com três vice-presidências. E Podemos? Bem, foi criada uma vice-presidência dos Direitos Sociais para Pablo Iglesias e a Agenda 2030, associada a 4 novos ministérios: Yolanda Díaz (IU) vai para Trabalho, perdendo a Previdência Social que é a parte que mexe com todo o dinheiro; Alberto Garzón (IU, PCE – Partido Comunista Espanhol) vai para Consumo, deixando Saúde; Irene Montero vai para Igualdade, que surge de Justiça e Memória Histórica; e Manuel Castells vai para Universidades, que emerge de Ciência.

Ou seja, são criados novos ministérios e uma vice-presidência para dar cargos a Unidas Podemos, mas garantindo que as políticas nesses ministérios não vão provocar problemas econômicos na política de austeridade. Lembre-se de passagem, que a partir de janeiro de 2020, no governo começa a vigorar o artigo 135.2 da Constituição, que evita gerar déficit por fora dos marcos estabelecidos pela UE. Quer dizer, o próprio Podemos, que tinha denunciado a aprovação urgente do artigo 135 da Constituição, agora vai ter de aplicá-lo.

O outro grande problema político está na Catalunha. Iglesias já disse que sua poltrona vale mais do que o direito de autodeterminação do povo catalão.

Para Sanchez, Podemos resulta útil no intuito de neutralizar as mobilizações populares que certamente começarão a denunciar sua submissão aos poderes factuais. Temos o primeiro exemplo nas pensões. A COESPE (Coordenadora Estatal pela Defesa do Sistema Público de Pensões) tem tido uma forte influência política do Podemos, a tal ponto que têm sido escandalosos os comunicados diante das eleições ou agora lisonjeando o governo. O próximo encontro na luta por pensões dignas é na greve geral do 30 de janeiro no País Basco. A COESPE se manifesta contra, embora seja um salto indiscutível que a luta em defesa das aposentadorias se torne uma luta de toda a classe trabalhadora. Lander Martínez, secretário-geral do Podemos Euskadi, anuncia que não fará a greve geral de janeiro, reconhece que “grande parte das reivindicações anunciadas por essa greve são de competência Estatal” e que “devemos dar essa margem de confiança”.

Precisa-se construir uma alternativa

Ao contrário do Syriza, que foi o resultado do agrupamento de 13 organizações de esquerda, o Podemos nega desde o início a configuração de organizações no seu interior. Izquierda Anticapitalista, que esteve da primeira hora, teve que se dissolver para continuar a fazer parte do Podemos, que permaneceu com níveis elevados de caudilhismo e falta de democracia interna. Com a rejeição a existência de qualquer partido em seu interior, se configurava uma camarilha burocrática na direção. Podemos encurtava o processo de degeneração política ao não ter uma oposição interna. Círculos isolados e marginalizados para a simples aplicação das diretrizes adotadas pela cúpula. Um partido com hierarquias, usando votações pela Internet para aumentar o peso da direção e isolar qualquer tentativa que por ventura tenha surgido na base. Essa estrutura bonapartista e burocrática estava a serviço de impor uma política eleitoral e reformista, que contrastava com as ilusões e necessidades de dezenas de milhares de membros.

Anticapitalistas é uma corrente da esquerda no Podemos, que é incentivada por um setor que reivindica o trotskismo. Seus dirigentes mais reconhecidos são Teresa Rodríguez e Miguel Urbán. O seu porta-voz Raul Camargo, que em entrevista ao 4º Poder em 20 de novembro último, afirmou que “governar com eles (o PSOE) supõe uma ruptura evidente com as linhas fundacionais do Podemos” e anunciou uma conferência para março, para decidir se eles rompem com o Podemos. De fato, afirmou que “Em alguns territórios ainda não, seguimos dentro do Podemos, mas na maioria já estamos fora”.

“A entrada da Unidas Podemos no governo, deixa um espaço enorme à sua esquerda. Nas últimas eleições, a CUP-PR decidiu dar um passo e se apresentar nas eleições como forma de visualizar a necessidade de construir uma alternativa que rompa com a Monarquia e com o capitalismo. Uma alternativa de trabalhadoras/es e os povos. Os resultados foram limitados, pois o debate foi realizado tardiamente e não houve tempo para ampliar a iniciativa para outras forças. A tarefa, porém, é essencial. Se a solidariedade entre os povos avançar, o Estado se debilita e também a repressão que possa exercer.

Mas esses processos nunca acontecem sem um devido aquecimento. É preciso que respondam à mobilização operária e social, que entronquem com as necessidades dos trabalhadores/as e os povos. É por isso que devemos abrir esse debate para uma ampla gama de forças e, sem esperar, fazer acordos de solidariedade que permitam responder com unidade qualquer agressão do regime.

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