Brasil, 400 dias de ataques às mulheres

por Mariana Borzino, Mulheres da CST-PSOL

Mais de 400 dias de governo Bolsonaro e as mulheres seguem sendo atacadas. Seja pelo corte de verbas em todas as áreas sociais – e principalmente nas áreas relativas à mulher – ou pelas declarações misóginas, que empoderam assediadores, machistas e feminicidas, sendo o próprio Bolsonaro e seus filhos inimigos declarados das mulheres.

Cartazes no ato de mulheres no Rio de Janeiro, 9 de março. | Foto: Randy Lobato / CST

A última declaração do presidente, foi referente à jornalista Patrícia Campos, da Folha de São Paulo, insinuando que a mesma trocaria favores sexuais para obter informações sobre o envolvimento da família Bolsonaro em escândalos. Se combina o ajuste fiscal a uma política retrógrada, conservadora, de extrema-direita e ódio às mulheres, em especial às mulheres pobres, negras e trabalhadoras, como se percebe na ofensiva declaração do ministro Paulo Guedes sobre as empregadas domésticas. As reformas da previdência e trabalhista acertam em cheio as mulheres, que são a maioria dos pauperizados e explorados na pirâmide social. Além disso, tanto a política de ajuste quanto as declarações machistas tem impactos reais e fatais para as mulheres, ao empoderar agressores. Dados recentes, publicados pelo jornal Folha de São Paulo, em 22 de fevereiro, mostram que o número do feminicídio aumentou em 7,2% no ano de 2019, coincidentemente com o primeiro ano do governo Bolsonaro.

Damares, a colaboradora número 1 de Bolsonaro no ataque às mulheres

Na contramão do movimento feminista nas ruas que foi protagonista do #EleNão e da campanha pela legalização do aborto seguro e gratuito, contra a cultura do estupro e contra o feminicídio, Bolsonaro extinguiu a Secretaria de Combate à Violência Contra a Mulher e nomeou Damares Alves, uma pastora evangélica reacionária e conservadora, para ocupar a pasta do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.

Foto: Marcos Corrêa

Isso significou um imenso retrocesso nos direitos das mulheres. As declarações conservadoras e retrógradas, tais como “menina veste rosa e menino veste azul”, que meninas eram estupradas porque não usavam calcinha ou favorável ao ensino bíblico nas escolas, não são narrativas vazias ou feitas para desviar o foco dos ataques, mas fazem parte dele e têm reflexos objetivos nas políticas implantadas pelo governo. Um exemplo disso é a mais recente política anunciada pela ministra: campanha de abstinência sexual nas escolas, com o argumento mentiroso e anticientífico de prevenir a gravidez na adolescência. Esse já era um debate superado pela ciência, já que pesquisas mostram que a eficácia na prevenção de gravidez precoce e das Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) passa objetivamente pela política de educação sexual nas escolas; que é justamente uma das pautas de luta do movimento feminista pela legalização do aborto, com o lema “educação sexual para prevenir, contraceptivos para não abortar e aborto legal para não morrer”.

Estudos feitos pela UNESCO e por diversas entidades já demonstraram há anos que a política de abstinência sexual dá resultados contrários ao que se objetiva: aprofunda os problemas de gravidez na adolescência, aumento de IST, assédio, abortos clandestinos e estupros. A falta de um debate claro, que poderia ser feito com a educação sexual nas escolas, é o que aumenta a desigualdade de gênero e o machismo, além de ter impactos diretos na saúde, dado que toda essa demanda produzida por falta de conhecimento de jovens sobre o próprio corpo, de entendimento sobre o assédio, o estupro, a importância do uso de preservativos e contraceptivos, respeito ao corpo do outro e ao próprio corpo, produz um sem número de situações que trazem danos físicos e psicológicos para milhões de meninas e mulheres. Damares é uma colaboradora direta da política machista e misógina de Bolsonaro e precisa ser derrotada nas ruas pela nossa força!

O movimento de mulheres precisa incendiar o país

Este é o quarto ano consecutivo que há uma Greve Internacional de Mulheres e as brasileiras são parte desse movimento. Desde 2017, é o dia 8 de março que inaugura o calendário de lutas no país. Em 2020 é necessário ir com ainda mais força pelas pautas feministas. Nesse contexto, é necessário saber quem e porque mandaram matar Marielle Franco. A falta de respostas e de vontade política do governo em descobrir os fatos demonstra descaso com a vida das mulheres e, no limite, um verdadeiro prazer misógino em ver a morte de pessoas do gênero feminino. Combinando isso às declarações retrógradas e aos cortes de verbas nas áreas fundamentais para as mulheres, a política do retrocesso para o conjunto das mulheres jovens e trabalhadoras demonstra que Bolsonaro é nosso inimigo número 1. Somente nossa força nas ruas pode derrotá-lo.

Ao centro da foto, Marielle Franco, vereadora do PSOL-RJ brutalmente assassinada em 2018. | Foto: Bárbara Dias/Fotoguerrilha

Não podemos esperar mais, pois a cada dia que passa mais treze de nós são mortas. A cada dia que passa mais 180 de nós são estupradas, segundo dados do 13º Anuário de Segurança Pública. E com o aumento do desemprego, a cada dia que passa mais e mais mulheres ficam desempregadas por conta da política neoliberal, patriarcal e antitrabalhadora do governo Bolsonaro. Não podemos esperar.

É preciso construir uma forte oposição nas ruas, nas lutas, com as categorias que estão em greve e movimentos sociais. O 8 de março deve ser um dia de luta que convoque também para construir com força o 14M por Marielle e o 18M, dia de greve nacional. Principalmente em oposição ao ato reacionário chamado pelo governo Bolsonaro para o dia 15/3, que defende o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal (STF).

Neste sentido, os papéis que cumpriram as direções do PT e PCdoB foram o de atrasar a luta contra Bolsonaro. No Rio de Janeiro, por exemplo, a proposta destas direções e seus aliados, na plenária de preparação do 8M, foi fazer uma caminhada com feiras na praia de Copacabana, esvaziando o caráter combativo, mobilizador e histórico que os atos devem ter, indo na contramão do que as mulheres do mundo inteiro têm feito para combater o ajuste econômico e os governos de ultradireita. Em vários estados foram contra que no chamado aos atos aparecessem consignas contra Bolsonaro. Ao nosso ver, é um erro imenso adiar a luta contra o governo, enquanto o presidente convoca sua base para atos de conteúdo reacionário no mês de março. É preciso unificar todos os lutadores e construir uma forte oposição nas ruas, com atos e métodos de ação direta, pois somente dessa forma é possível enfraquecer e enterrar o projeto de Damares e Bolsonaro de ataques às mulheres e aos trabalhadores.


Esta matéria está na edição 106 do Jornal Combate Socialista

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