Profissionais da saúde entre os mais vulneráveis ao coronavírus

CSP CONLUTAS

O caos do sistema de saúde brasileiro é uma grave ameaça à população durante a propagação da COVID-19. Essa realidade coloca os profissionais da saúde entre os mais vulneráveis, pois vivem situação de extrema exposição ao vírus, tanto por falta de EPI (Equipamento de Proteção Individual) necessário para atender os pacientes como pela falta de profissionais e recursos.

O números recentes de afastamentos e contaminação na área são alarmantes. Como nem todos fazem os testes, ainda que tenham confirmação de afastamento por contaminação, uma parcela poderá estar infectada sem saber e outra parcela pertence ao grupo de risco.

Somente em São Paulo estima-se que na rede pública hospitalar em onze redes entre as maiores na capital passam de 1270 o número de profissionais afastados por COVID-19 até o dia 01/04 (G1-SP)..

As duas maiores referências em saúde na rede privada, os hospitais Sírio-Libanês e Albert Einstein, também em São Paulo, somavam juntos 450 profissionais de saúde até o último dia 31, que foram afastados por contaminação pelo novo coronavírus. No Einstein, os 348 afastados representam 2% dos 15 mil trabalhadores do hospital; 13 deles precisaram ficar internados.

Nos hospitais municipais da zona leste da capital paulista, Tatuapé e Tide Setúbal, dois profissionais morreram na última segunda-feira (31), sob suspeita de contaminação pelo vírus.

No Rio de Janeiro, pelo menos 100 enfermeiros e 30 médicos estão afastados por contágio ou suspeita de Covid-19. A informação foi divulgada pelo diretor do Conselho Regional de Enfermagem, Glauber Amâncio. Um número que provavelmente está subestimado pela falta de testes.

No Rio Grande do Norte, a situação é alarmante. Mais de um terço do total de contaminados, 37% deles, são profissionais de saúde. O estado contabilizava 92 pessoas com o novo coronavírus até quarta-feira (1) e, desse total, 34 são da área da saúde, três deles morreram nos útimos dias.

Boletins epidemiológicos divulgados pela Sesai (Secretaria Especial da Saúde Indígena), subordinada ao Ministério da Saúde, apontaram que até segunda-feira (30/3) havia 13 casos suspeitos de infecção entre indígenas. Os infectados são de cinco regiões do Brasil. Em um dos casos, os indígenas podem ter sido contaminados por um técnico do Sesai ou o contrário.

No restante do mundo não tem sido diferente. No dia 30 de março, a Espanha divulgou que 14% dos seus mais de 85 mil infectados eram profissionais da saúde, algo em torno de 12,3 mil pessoas. Na Itália, já são 6,4 mil trabalhadores do setor infectados pelo coronavírus.

Sucateamento da saúde pública

Um dos principais problemas para a saúde combater o coronavírus é a falta de EPI. No protocolo de recomendações do Ministério da Saúde e no da Secretaria de Saúde, os EPIs necessários são luvas, capote, máscaras especiais, óculos e gorro. No entanto, este protocolo não tem sido cumprido e as unidades de saúde ainda sofrem com a falta de profissionais, já que há anos vem trabalhando com carência de trabalhadores.

Há unidades de saúde que faltam até sabão, papel toalha e álcool em gel. Em algumas falta água.

À reportagem da Agência Pública, a assistente social Goretti [nome fictício para não identificá-la], que trabalha no Hospital da Restauração, em Recife (PE), conta que faltava sabão — e até água — nos banheiros públicos do hospital. “Os profissionais estão angustiados, higienizando as salas por sua própria conta, levando álcool em gel e até sabão de casa”, diz. Essa absurda realidade é denunciada em vários estados no norte, nordeste e centro-oeste do país.

O Cofen (Conselho Federal de Enfermagem) informou que recebeu 1.374 denúncias de falta ou escassez de EPI. E o CFM (Conselho Federal de Medicina), entre os dias 19 e 24 de março, recebeu mais de 1500, principalmente por falta de equipamentos de proteção individual.

“É desesperador trabalhar com a perspectiva de ser infectado a todo momento e sem saber se está infectado ou não”, é o sentimento comum dos trabalhadores da limpeza, administrativos, vigilantes, manutenção e profissionais da saúde, segundo Valdomiro Marques do Fórum de Saúde dos Trabalhadores de SP.

Escassez de testes

Outro fator de alto risco aos trabalhadores e profissionais da saúde é a falta de testes para o novo coronavírus, preocupação generalizada no setor.

À revista Exame, o Ministério da Saúde informou na terça-feira passada 24, que ampliaria para 22,9 milhões o número de testes adquiridos e distribuídos durante a pandemia de coronavírus. No entanto, a pasta informou que a maior parte (15 milhões) ainda está em negociação com fabricantes. Os outros 7,9 milhões já têm um prazo para serem entregues, mas a data máxima ainda não foi informada. E até agora o Ministério da Saúde afirma que já foram distribuídos 54 mil testes RT-PCR para os Estados, mas a pasta disse que não consegue precisar quantos foram de fato realizados.

Ou seja, nada está garantido. E assim, profissionais da saúde, pacientes e população continuam com absoluta carência de testes para a Covid-19.

Isto acontece porque, mesmo tendo um sistema público universal de saúde no Brasil, que é o SUS (Sistema Único de Saúde), vivemos a total precarização deste sistema. As políticas neoliberais retiram verbas da saúde (e de outros setores do serviço público) transferindo diretamente para os banqueiros para pagamento da dívida pública.  Somente no ano de 2019, foram repassados aos bancos 38,27% do orçamento declarado da União. Enquanto os bancos engordavam suas contas com esse valor que ultrapassa R$ 1 trilhão, a área da saúde recebeu míseros 4,21% do orçamento.

O que fazer contra a situação de caos

Diante de um quadro estarrecedor, a técnica em enfermagem no Hospital Municipal de Natal (RN) Érica Patrícia Galvão faz um apelo a todos os colegas de profissão para que se protejam e exijam dos governos seus direitos. “Nós, apesar de sermos chamados de heróis, não somos super-heróis, precisamos nos unir nacionalmente, precisamos estar cientes que não dá mais para trabalhar com as gambiarras que os governos nos obrigam, com todo o sucateamento que existe no SUS [Sistema Único de Saúde]”, aponta.

A CSP-Conlutas defende que os trabalhadores e trabalhadoras da saúde se auto organizem em seus locais de trabalho para definir as atividades essenciais, reorganização dos leitos, reestruturação do trabalho etc. Além disso, é necessária uma ampla campanha de denúncia dos abusos e situações de calamidade em que se encontram. Também é urgente a contratação de mais profissionais para a área da saúde, tanto emergenciais para o combate à pandemia, como a contratação imediata de todos os concursados e novos concursos para reposição do quadro.

É preciso uma mudança drástica na política econômica para que as verbas públicas cheguem ao seu destino: à garantia da vida e não dos lucros e ao fortalecimento do SUS, responsável pelo atendimento de 80% da população.

As atividades econômicas devem ser focadas nos serviços essenciais para combate à pandemia e demais atividades voltadas para manutenção da vida. O Brasil precisa parar.

Leia as medidas apresentadas pela CSP-Conlutas para a saúde. 

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