Covid-19 e sionismo: a dupla ameaça na vida dos palestinos

por Soraya Misleh, da Frente em Defesa do Povo Palestino

Com 253 casos confirmados de Covid-19 – sendo 13 na faixa de Gaza –, os palestinos sob ocupação enfrentam, ao mesmo tempo, a pandemia e a contínua limpeza étnica a que estão submetidos há 72 anos (desde a Nakba, a catástrofe com a criação do Estado racista de Israel em 15 de maio de 1948).

Igreja da Natividade em Belém | Foto: REUTERS/Mussa Qaeasma

Esses números não incluem a situação dos refugiados em campos nos países árabes, que totalizam 5 milhões impedidos de retornar para suas terras. A Organização das Nações Unidas informa que já infectados em cinco desses locais, nos quais vivem em situação de extrema pobreza, amontoados em precárias habitações e sem saneamento adequado.

Os dados também não incluem os 1,6 milhão de palestinos remanescentes em 1948 – onde o mundo hoje denomina Israel. Dados dão conta de que, nessas últimas áreas, contabilizam um em cada cinco infectados. Por essa informação, seriam cerca de 70 diante dos aproximadamente 7 mil casos confirmados no total. Submetidos a mais de 50 leis racistas, não têm o mesmo acesso a testes e tratamento – Israel se define como um Estado-nação judeu. Em dezenas de aldeias beduínas no Negev (Naqab, em árabe), nem mesmo ambulâncias são enviadas.

Outra mostra do racismo sionista é que enquanto determina a quarentena a seus cidadãos, milhares de palestinos que enfrentam o controle em check point para servir de mão de obra barata no Estado sionista tiveram “permissão” para se alojar em Israel por pelo menos dois meses – na verdade, uma medida compulsória, já que não poderão retornar a sua casa no período, se quiserem manter o emprego. A determinação é resultado de um acordo com a gerente da ocupação, a Autoridade Palestina (AP), sob o pretexto de impedir a transmissão de um local para outro. A tal da cooperação mútua tem sido elogiada pela mídia tradicional, mas não passa de mais uma ação entre tantas que demonstram o servilismo da AP – criada sob os auspícios dos desastrosos acordos de Oslo em 1993, assinados entre a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e Israel, sob intermediação dos Estados Unidos, que resultaram em brutal expansão colonial. Nada além da “paz dos cemitérios”.

O número de infectados cresce dia a dia e também os informes sobre os crimes sionistas diante deste grave quadro. Exemplos demonstram que a principal ameaça aos palestinos em tempos de Covid-19 é o Estado assassino de Israel. Entre as denúncias, a de que na Cisjordânia, território ocupado em 1967, forças sionistas estariam cuspindo nas maçanetas de carros palestinos para contaminá-los. Enquanto isso, soldados da ocupação destruíam, no dia 26 de março, uma clínica de emergência médica em construção na aldeia de Khirbet Ibziq, ao norte do Vale do Jordão. Também houve relatos de um trabalhador palestino que foi abandonado à rua, como “lixo”, por soldados, após seu empregador israelense suspeitar que estaria com Covid-19. Recolhido por palestinos e levado a um hospital, testou negativo.

Em Gaza, também sob ocupação israelense desde 1967, são 15 casos, e o temor é de calamidade. Na estreita faixa, seus 2 milhões de habitantes enfrentam bloqueio desumano e bombardeios israelenses frequentes há 13 anos. O cenário é devastador nesta que é a área mais densamente povoada do mundo: em função do cerco sionista criminoso, a maioria depende de ajuda humanitária para sobreviver. Setenta por cento está desempregada, os índices de pobreza são dramaticamente elevados, 96% da água potável está contaminada e a energia elétrica dura apenas quatro horas por dia.

Toda a infraestrutura está destruída pelas ofensivas israelenses e a não possibilidade de reconstrução, já que nada entra ou sai sem que Israel permita, levou Gaza a ter apenas 40 leitos e 15 respiradores para atendimento a emergências médicas. Falta tudo, desde medicamentos até materiais de laboratório. E Israel, diante da Covid-19, voltou a bombardear Gaza no dia 28 de março.

Israel propõe nada mais, nada menos do que uma barganha para alguma suposta “ajuda” – quando é o responsável genocida por Gaza não ter condições adequadas para enfrentar como necessário a pandemia. O Estado sionista exige que lhe sejam devolvidos dois soldados israelenses capturados durante 2014 – quando promoveu um dos piores de seus massacres na estreita faixa, durante 51 dias, matando 2.200 palestinos, entre os quais 530 crianças. Não traz precondições quando utiliza mão de obra palestina em Gaza para fabricar máscaras que somente israelenses vão poder usar.

Essas ações criminosas se somam a outras, como nos cárceres israelenses, em que se amontoam, em celas superlotadas e sujas, 5 mil presos políticos palestinos, incluindo mulheres e crianças. Ali são contabilizados oficialmente, até o momento, quatro casos de Covid-19. Organizações denunciam que Israel tem aproveitado para ampliar a punição coletiva. Intensificam-se medidas restritivas e a negligência médica. Em meio à pandemia, Israel proibiu que nas “cantinas” os palestinos pudessem comprar 170 itens, entre os quais para higiene pessoal.

Em um dos cárceres, Ofer, os presos políticos não encontraram outra alternativa senão recorrer à greve de fome para pressionar por mínimas medidas de proteção à vida ante casos de Covid-19. Enquanto o Estado sionista segue em sua desumanização cotidiana, circula a fake news de que Israel teria já desenvolvido a vacina para a Covid-19, a qual estaria disponível até maio próximo. A imagem de salvador de vidas diante da pandemia global apresenta-se como propaganda ideal para encobrir seus crimes.

Questão de vida ou morte

A Covid-19 desvela sua face brutal e coloca na ordem do dia a urgência da solidariedade internacional. Que os palestinos dão exemplo, ao erguerem bandeiras italianas nas janelas, por exemplo. Também dão exemplo de auto-organização para a sobrevivência. Existência é resistência. Assim, tem desenvolvido com criatividade e sem recursos, sob ocupação, suas próprias formas de enfrentar a pandemia, como ventiladores baratos na Universidade de Al Quds. E lidam com humor: afirmam que vivem em quarentena forçada há muito tempo, ante a colonização sionista. “Situações difíceis também são capazes de oferecer cenários passíveis de interpretações extremas: extremamente trágico ou extremamente cômico. Prefira o segundo, sempre que puder, porque enquanto estiver rindo, enquanto seu espírito permanecer forte, sua humanidade se manterá intacta”, afirma o colunista palestino de Gaza, Ramzy Baroud, em artigo publicado no portal Monitor do Oriente Médio.
A Palestina há décadas tem sido laboratório para o capitalismo e imperialismo, por meio do sionismo. Assim tem sido em relação a técnicas e tecnologias militares que são testadas sobre as cobaias humanas palestinas. Israel exporta 70% de sua produção, o que mantém a economia da ocupação.

O Brasil se tornou, nos últimos 16 anos, o quinto maior importador dessas armas que servem ao genocídio da população pobre e negra nas periferias brasileiras. Se ocorre de um lado, cada vez mais, o que o cineasta palestino Elia Suleiman chama de “palestinização” do mundo, por outro é preciso que lutadores e lutadoras inspirem-se na resistência heroica e histórica a essa situação. A causa palestina é símbolo de todas as lutas contra a opressão e exploração, é internacionalista por excelência. Levantar essa bandeira é denunciar os crimes de todos os governos, é denunciar o sistema capitalista – responsável pela pandemia e impactos -, o imperialismo. Palestina livre, do rio ao mar, mais do que nunca, é questão de vida ou morte.

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