Esperança na desesperança

Contrapoder

Em poucos meses, a pandemia de coronavírus comprovou a falência espetacular do darwinismo sanitário como princípio da saúde pública. Com um número crescente de pessoas morrendo, Nova York, coração do império capitalista, é hoje a metáfora da tragédia neoliberal. O lema de Trump, “America First”, concretizou-se. Os Estados Unidos são hoje recordistas absolutos de casos do coronavírus.

A perspectiva de a crise de saúde provocada pelo coronavírus se transformar num verdadeiro holocausto, com a possibilidade de mais de 40 milhões de mortes no mundo, impôs um recuo na política genocida de deixar a realização do ciclo de imunização nos ombros da população mais vulnerável. Da noite para o dia, os principais arautos do neoliberalismo sanitário, Boris Johnson e Donald Trump, deram uma guinada na estratégia de enfrentamento da pandemia e passaram a defender o isolamento social e a intervenção do Estado como meio de reduzir danos.

No entanto, sem política preventiva para deter a rápida difusão da epidemia, sem testes em massa para isolar a população infectada, sem um sistema universal de saúde pública para tratar os doentes e sem investimentos em ciência e cooperação internacional para desenvolver vacinas e remédios com a agilidade necessária, o raio de manobra das políticas públicas é reduzido. Depois de gastar dezenas de trilhões de dólares ao longo de décadas no complexo militar contra ameaças fantasiosas, ignorar reiteradamente as advertências da comunidade científica sobre os riscos de crises pandêmicas, e transformar a saúde numa rentável mercadoria, o capitalismo não é capaz de nada mais eficiente para deter o avanço da peste do que recorrer ao método medieval de isolamento social utilizado há sete séculos.

As economias centrais estão mobilizando sua riqueza econômica e poderio imperial para minimizar parcialmente a tragédia humanitária. A política “América em primeiro lugar” ficou reduzida à interceptação de encomendas de equipamentos e medicamentos de outros países para garantir o abastecimento dos hospitais norte-americanos: “Farinha pouca, meu pirão primeiro”.

No elo fraco do capitalismo, a mortandade provocada pela pandemia a de coronavírus será gigantesca. A pobreza em grande escala, a urbanização caótica, a carência de saneamento básico, a precariedade do sistema de saúde pública, o desmanche do sistema econômico nacional, a falência do Estado e, sobretudo, a ausência de nexos morais entre as classes sociais deixam os trabalhadores, sobretudo os mais pobres, totalmente desamparados. É o que está acontecendo em Guayaquil, no Equador, onde mortos são queimados no meio das ruas e centenas de urubus voam sobre os hospitais, atraídos pelo cheiro de corpos em decomposição.

No caso brasileiro, a crise de saúde é agravada pelo papel verdadeiramente criminoso de Bolsonaro, que, contra tudo e contra todos, continua conclamando a população a sair às ruas e manter a rotina, como se tudo permanecesse na mais perfeita normalidade. Os trabalhadores devem se preparar para o pior. Não haverá compaixão. Em uma situação de crise aguda de saúde e escalada da pobreza, o princípio do individualismo e da concorrência instaurará a lei da selva.

Antevendo o descalabro sanitário e o caos social, a burguesia brasileira já esboça sua política de administração da barbárie do coronavírus. Ela combina filantropia, constituição de poderes paralelos locais e pura e simples repressão. Reportagens que apresentam a solidariedade espontânea de “privilegiados de bom coração” encerram todos os dias os jornais televisivos. Em muitas comunidades do Rio de Janeiro, empresários do narcotráfico assumem a responsabilidade pela quarentena em territórios sob seu controle. E, como de praxe, as forças armadas se preparam para reprimir com mão de ferro, custe o que custar, qualquer ameaça à ordem social.

Na absoluta ausência de políticas públicas, aos trabalhadores só resta enfrentar a tragédia sanitária, econômica, social e política com a auto-organização da classe trabalhadora. Articulados por organizações já existentes, como sindicatos, partidos, associações de moradores, comissões por local de trabalho, ou por meio de novas formas organizativas, os trabalhadores devem tomar as rédeas de seu destino.

O desafio é hercúleo. Tendo como base o princípio da cooperação e da solidariedade, cabe aos trabalhadores organizar coletivos tanto nos locais de trabalho como nos de moradia para cobrar políticas públicas das autoridades constituídas, agir em defesa e solidariedade da população e apresentar alternativas tendo como critério as necessidades concretas de cada pessoa, as possibilidades objetivas da comunidade, bem como o princípio estratégico da igualdade substantiva como base da vida social. A tarefa desdobra-se em múltiplas dimensões. Trata-se de criar comitês populares de comunicação, prevenção, abastecimento, medidas sanitárias, fabricação de máscaras, higienização, assistência aos doentes abandonados, transporte de doentes, enterro de mortos, apoio psicológico aos traumatizados, autodefesa da comunidade, finanças, conscientização, etc.

A pandemia de coronavírus escancarou a absoluta irracionalidade do capitalismo. A oposição entre lucro e vida, inerente ao caráter contraditório da relação capital-trabalho, foi levada ao paroxismo. Contrariando as teses que proclamam o fim do trabalho, a emergência sanitária explicitou a inescapável dependência do capital da exploração do trabalho humano. É por essa razão que o desenvolvimento capitalista aponta para o socialismo ou a barbárie.

A partir de determinado grau de desenvolvimento capitalista, a continuidade da vida requer a superação do capital. É isso que define a qualidade do momento histórico contemporâneo. Estamos diante da urgência de um salto histórico que leve a humanidade para além do capital. Sem trabalho, simplesmente não há lucro. Mas a vida não depende do lucro. Os trabalhadores podem se associar livremente, como serão compelidos a fazer brevemente, para organizar seu modo de produção e o correspondente modo de viver. Essa é a lição que trabalhadores de várias partes do mundo vêm tirando da traumática experiência da crise do coronavírus: trabalhar menos; trabalho para todos; produzir o necessário; redistribuir tudo.

Contrapoder, 06 de abril de 2020.

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