Aldir Blanc: Um brasileiro que conhecia o Brasil

“O Brazil não conhece o Brasil

O Brasil nunca foi ao Brazil

[…]

O Brazil não merece o Brasil

O Brazil tá matando o Brasil

[…]

Do Brasil S.O.S. ao Brasil

 

Do Brasil S.O.S. ao Brasil”

 

Querelas do Brasil – Aldir Blanc Mendes / Mauricio Tapajos Gomes – 1978

 

É muito angustiante nos depararmos com o crescente número de mortos pela COVID-19 diariamente nos noticiários. Uma dor que parece se intensificar quando os números se concretizam em nomes conhecidos, como parentes e pessoas próximas. Esta dor foi sentida por milhares de brasileiros ao descobrir que Aldir Blanc se tornou mais uma vítima da doença, falecendo nesta segunda-feira, 04 de abril, na UTI do Hospital Universitário Pedro Ernesto.

O compositor, que abandonou a carreira de médico para entrar para a história da música popular brasileira, dedicando-se ao estudo e composição de algumas das maiores canções nacionais, contando com diversas parcerias ao longo da vida. Junto de nomes como Moacyr Luz, Maurício Tapajós, Paulo Emílio, Carlos Lyra, Guinga, Edu Lobo e Cristovão Bastos, enriqueceu o repertório musical brasileiro. Mas, provavelmente, a mais importante parceria de sua vida foi a que teve com João Bosco. Juntos, Bosco e Blanc, compuseram obras inesquecíveis. Em O mestre-sala dos mares, de 1975, por exemplo, exaltam a memória de João Cândido, liderança da revolta da chibata de 1910, movimento que lutou contra os castigos físicos que aconteciam contra os marujos negros, em continuidade à exploração e opressão da escravidão. A ditadura militar na época, claro, não gostou nada de uma canção que reivindicava a luta histórica do povo trabalhador, e mandou censurar a canção.

Incomodar o regime ditatorial militar era na verdade uma verdadeira missão da dupla. Tanto que O bêbado e o equilibrista, eternizado na voz de Elis Regina, virou praticamente um hino informal contra a ditadura.  Um hino cantado pelos que sonhavam “com a volta do irmão do Henfil”, isto é, com a volta de todos os exilados políticos. A letra denunciava as mortes, torturas e desaparecimentos promovidos pelos militares. Chora a nossa pátria, mãe gentil / Choram Marias e Clarices no solo do Brasil, em referência às viúvas de Manuel Fiel e Vladimir Herzog, assassinados nos porões da ditadura.

No atual momento político, em que o presidente Jair Bolsonaro mostra seus objetivos de dar um golpe e governar com amplos poderes ditatoriais, a memória de Blanc se mostra imprescindível. Bolsonaro e Mourão sempre se espelharam no regime militar de 64, têm como ídolo o brutal torturador Brilhante Ustra e reivindicam os métodos da ditadura militar. Querem governar perseguindo, assassinando e exilando opositores. No período ditatorial, os artistas não tinham liberdade para produzir livremente, estavam sujeitos à censura prévia dos generais de plantão.  Assim como a classe trabalhadora como um todo também não podia reivindicar melhores condições de vidas e lutar por salário, por exemplo. Em uma ditadura bolsonarista, a extrema-direita teria muito mais facilidade de aplicar seu projeto ultraliberal de destruição dos serviços públicos e ultrarreacionário e fundamentalista nos costumes, sabotando a cultura e a produção de conhecimento livres.

Aldir Blanc segue presente, hoje e sempre. Sua obra é eterna e assim como inspirou os que foram de aço nos anos de chumbo, vai continuar inspirando os que lutam contra o autoritarismo e toda a forma de exploração e opressão. Irá nos inspirar nas lutas que vamos travar contra o projeto de Bolsonaro. A classe artística pode cumprir um papel importante nessa batalha – como cumpriu nos anos da ditadura – em unidade com as diversas categorias que hoje lutam por condições dignas de vida em meio à pandemia. Precisamos unificar nos panelaços, fortalecer as mobilizações que estão em curso como a dos trabalhadores da saúde rumo a uma greve geral, para colocar para fora Bolsonaro e Mourão.

Encerramos com as palavras de João Bosco após a morte de Aldir: “Não existe João sem Aldir. Felizmente nossas canções estão aí para nos sobreviver. E como sempre ele falará em mim, estará vivo em mim, a cada vez que eu cantá-las. Hoje é um dos dias mais difíceis da minha vida. Meu coração está com Mari, companheira de Aldir, com seus filhos e netos. Perco o maior amigo, mas ganho, nesse mar de tristeza, uma razão pra viver: quero cantar nossas canções até onde eu tiver forças. Uma pessoa só morre quando morre a testemunha. E eu estou aqui pra fazer o espírito do Aldir viver. Eu e todos os brasileiros e brasileiras tocados por seu gênio.”

Por Caio Sepulveda e Bruno Pacifico, CST de Niterói

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