LÍBANO | A miséria ataca mais que o vírus

Escrito por: Cristina Mas, militante de Luta Internacionalista (LI), sessão da UIT-QI no Estado Espanhol. Traduzido por: Lucas Schlabendorff

A paralisia imposta pela Covid-19 foi apenas um parênteses no Líbano, que está passando pela sua pior crise econômica e política em 30 anos. Depois do outono quente de protestos massivos, esta semana o levante popular voltou a explodir contra a miséria e um governo corrupto e incompetente aos olhos da maioria.

“Chegamos ao ponto em que temos que escolher entre sair e protestar com o risco de contrair o vírus, ou morrer de fome e nos obrigarmos a viver debaixo de uma ponte. Esse é o dilema que a maioria dos libaneses enfrenta depois de trinta anos de péssimos governos. Em outubro de 2019 começou uma revolução em meio à catástrofe econômica e a pandemia apenas acelerou o agravamento de uma situação extrema que muitos já não conseguem suportar”, explica Gino Raidy em uma conversa com um blogueiro que participa dos protestos em Beirut.

Houveram manifestações na cidade de Trípoli, no norte, e em Sídon, no sol, […] que o exército reprimiu com gás lacrimogêneo, tanques nas ruas e balas de borracha que provocaram a morte de um manifestante. A crise econômica que gerou o levante do ano passado, quando o governo tentou impor um imposto no WhatsApp, se agravou com o “corralito” (medida que visa interromper a retirada de dinheiro das contas bancárias) imposto pelos bancos e também com o impacto da pandemia, que paralisou o país durante semanas e provocou a queda das remessas que os emigrados enviam.

Os manifestantes protagonizaram protestos na frente das sedes do Banco do Líbano e incendiaram agências em várias cidades. O povo acusa o banco de cumplicidade com o poder e de ter contribuído com o brutal endividamento do país (que equivale a 170% do PIB, e que resultou na declaração de falência em 10 de março). O blogueiro de Beirut ilustra assim as medidas draconianas do controle de capitais que tem impactado os pequenos aforradores: “Há gente que não pode tocar nas poupanças do banco nem para gastos com a saúde e que a cada mês necessita seguir pagando a hipoteca”.

Em questão de semanas a libra libanesa entrou em colapso […] O resultado é uma inflação galopante. “Os preços dos produtos básicos dispararam, em alguns casos até 70%. Os salários não servem pra nada”, explica desde Beirut a investigadora Joelle Boutros. “Claro que a gente tem medo do vírus, mas se precisamos escolher entre uma máscara e um pouco de pão, que custam o mesmo, prefere-se o pão”. […] Entretanto, o plano de reforma econômica apresentado pelo governo no Parlamento não convence.

“Os problemas pelos quais as classes populares haviam se mobilizado desde outubro do ano passado se agravaram pela desvalorização da moeda, o aumento do desemprego, pelas medidas de isolamento social e as dificuldades para sacar o dinheiro dos bancos”, aponta Joseph Daher, professor da Universidade de Lausana e especialista em Líbano. De sua parte, o blogueiro de Beirut avisa para o que pode acontecer em outros lugares que já estavam no limite e onde o impacto da pandemia atingiu o seu auge: “Em outubro havíamos começa uma revolução com organização, convocatórias com dias e horas definidos e uma agenda de reivindicações claras. O que está ocorrendo agora é mais espontâneo, se ultrapassou uma linha e tudo explodiu. Frear a expansão do coronavírus deveria ser uma prioridade? Sim. Mas no Líbano, sinceramente, não podemos nos dar esse luxo.”

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