VENEZUELA | A posição do PSL perante os recentes saques e protestos

Escrito por: Partido Socialismo e Liberdade (PSL), sessão da UIT-QI na Venezuela. Caracas, 25 de abril de 2020. Traduzido por: Lucas Schlabendorff

A catástrofe social que as trabalhadoras e os trabalhadores venezuelanos vem sofrendo há anos, se agravou no último período como consequência das medidas tomadas no contexto da pandemia, que afetam severamente a já destruída economia do país.

Nas últimas semanas temos presenciado atônitos como os preços dos produtos de primeira necessidade foram às nuvens, enquanto nossos salários são cada vez mais miseráveis.

Essa situação aprofunda a fome e o desespero de milhares de habitantes dos bairros populares, especialmente nas zonas mais pobres e deprimidas da Venezuela, que saíram para saquear o comércio em suas localidades.

Na segunda-feira passada (20 de abril) mais de mil pescadores marcharam em Araya (Estado de Sucre) exigindo gasolina. Estavam há mais de 36 dias sem adquirir combustível, o que os impede de encher suas embarcações para trabalhar. Além de estarem cansados com a falta de gás e luz na região.

Na quarta-feira (22 de abril) em Cumanacoa, os habitantes dessa população do leste do país, saquearam vários negócios. Enquanto que ao governador da entidade não lhe ocorreu nada melhor do que acusar ao povo de fascista. “Os fascistas não conseguirão nos tirar a paz”, afirmou.

Na quinta-feira (23 de abril) os protestos por comida e gasolina se multiplicaram em 15 estados, segundo o Observatório Venezuelano de Conflitos Sociais. Houve saques em Upata (Bolívar), onde morreu um jovem, e outros dois feriado por tiros, vítimas da repressão policial, o que repudiamos categoricamente. Em Punta de Mata (Monagas) e Rio Caribe (Sucre), também houveram saques. Enquanto que em Guanare (Portuguesa) saqueavam ao grito de “Temos fome, queremos comida”.

Em Socopó, estado de Barinas, o protesto foi por gasolina. Centenas de produtores agrícolas bloquearam uma estrada exigindo combustível para poder fazer a colheita.

Já nas semanas anteriores haviam se dado situações de tensão e protestos nas filas de veículos que buscavam se abastecer com a pouca gasolina que ainda restava no país.

Todos esses protestos e saques são expressão da fome que sofrem milhões de habitantes dos setores populares, que estão cansados com a frustração de não poder comprar comida para seus filhos. A realidade é que em muitas ocasiões esses protestos obrigam o governo a reagir e dar algumas concessões, pondo em evidência que o único caminho que pode mudar nossas vidas é a luta e a mobilização.

Perante o crescente mal-estar social, o governo rapidamente acionou seus mecanismos de propaganda e responsabilizou os “especuladores” pelos aumentos dos preços, e a um suposto plano golpista em que estariam envolvidos alguns empresários.

Sem dúvida que comerciantes e empresários aproveitam a crise e a pandemia para tentar lucrar. No entanto, a especulação é a consequência natural da hiperinflação reinante no país há pelo menos 3 anos. É produto da queda brutal da produção de bens no país. Poucos produtos no mercado geram açambarcamento e escassez, e subsequente inflação e especulação. E o resultado nos nossos bolsos é a destruição dos salários em bolívares cada vez mais desvalorizados.

Por outro lado, o governo anunciou um plano que inclui a ocupação temporária da empresa de alimentos Coposa, venda supervisionada e negociação de “preços acordados” com as empresas Polar, Plumrose e matadouros de carne. Nessa ocasião, Maduro disse que “o país saíra logo da situação de instabilidade econômica”. Mas devemos lembrar que ele está há 7 anos repetindo a mesma coisa: “Esse ano vai… Esse ano vai”. Enquanto o povo e os trabalhadores e trabalhadoras seguimos com salários cada vez mais destruídos, e com nosso nível de vida lá em baixo. Enquanto empresários fazem negócios com a fome do povo; os funcionários do governo enriquecem com apoio do Estado, e Guaidó e seus deputados aumentam os próprios salários para 5 mil dólares com efeitos retroativos desde janeiro.

Já o governo tem adotado medidas parecidas em repetidas ocasiões. Durante 1 ou 2 semanas os preços de alguns bens se estabilizam, logo começa a haver escassez dos produtos regulados, já que os empresários preferem vende-los no mercado paralelo, no qual militares, prefeitos, governadores e funcionários aproveitam para fazer muitos negócios. Os preços disparam outra vez. E se repete a história. O governo senta novamente com os empresários e voltam a acordar os preços. E continua o ciclo hiperinflacionário. O que não vai parar até que se aumente a produção geral do país, em particular de alimentos e bens essenciais.

Até a produção de petróleo caiu aceleradamente. Nem sequer há gasolina. Devido a destruição das refinarias, e ao impacto das sanções criminosas do imperialismo norte-americano, que agravaram a escassez de combustíveis já existente antes. O mesmo ocorre com o que produziam as empresas básicas, que estão arrasadas.

Alguns trabalhadores dizem que os preços aumentam porque “subiu” o dólar. Em rigor, o dólar não “sobe”. O que se desvaloriza é nossa moeda. O que perde a capacidade de compra é o bolívar. E isso seguirá sendo assim enquanto não se aumente substancialmente a produção nacional, e dependamos menos de produtos importados.

Mas enquanto isso segue é necessário exigir um plano massivo de importação de alimentos, medicamentos e insumos produtivos. Não podemos permitir que os trabalhadores, as trabalhadoras e suas famílias morram de fome.

Nesse sentido o Partido Socialismo e Liberdade segue defendendo que é necessário impor com a mobilização um Plano Econômico e Social de Emergência. O governo deve orientar todos os recursos econômicos para enfrentar a crise social e sanitária.

Viemos chamando a todos os setores sindicais, organizações populares, de juventude e a verdadeira esquerda revolucionária para de forma unificada dar a batalha por esse plano que comece por exigir um salário igual à cesta básica! Temos afirmado que para enfrentar a crise agravada pela pandemia é necessário aumentar os salários!

Não se pode seguir pagando a dívida externa. Deve-se suspender o gasto em armas e outros apetrechos, assim como os exercícios militares. É necessário confiscar os bens dos corruptos da PDVSA e importadores fraudulentos, assim como cancelar os contratos das empresas mistas com as transnacionais; do mesmo modo, peitar os grandes grupos empresariais, banqueiros e transnacionais com um imposto especial para lidar com a crise. E destinar todos esses recursos para garantir salários, comida para o povo e recursos para enfrentar a pandemia.

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