CHILE | O coronavírus segue o caminho da desigualdade social  

Por: Movimento Socialista dos Trabalhadores (MST), sessão da UIT-QI no Chile. Publicado originalmente no dia 12 de maio de 2020. Traduzido por: Lucas Schlabendorff

            Na segunda-feira (11 de maio), a funcionária do Hospital San José, Gloria Pinto, denunciou na frente das câmeras de televisão que um paciente de 37 anos infectado por coronavírus morreu por falta de ventiladores mecânicos. Dois dias antes, o prefeito de Cerro Navia, Mauro Tamayo, denunciou em seu twitter que 1.200 amostras de Covid-19 se perderam por “exceder o tempo de conservação”. Todas essas amostras pertenciam à zona oeste da Região Metropolitana, ou seja, das comunas (subdivisões da grande Santiago) operárias e populares. Estamos frente a fatos isolados? De forma alguma. A crise sanitária e econômica está sendo despejada de forma brutal sobre as costas da classe trabalhadora e do povo.

            O coronavírus volta a escancarar a desigualdade do país

            A Mesa de Dados da Covid-19 (comissão articulada pelo Ministério da Saúde para investigar a situação da pandemia) entregou o informe “Impacto da pandemia de COVID-19 no Chile. Relatório de 05/05. Semana epidemiológica 19” ao Ministro da Saúde, Jaime Mañalich. Os dados demonstram claramente quem está sofrendo com o coronavírus. As comunas mais expostas à crise sanitária na Região Metropolitana são as 16 mais pobres dessa região, onde, além disso, ocorreram quase 80% das contaminações do país.

            A prevalência (quantidade de infectados para cada 10 mil habitantes) supera os piores prognósticos nas comunas de Independencia, San Ramón, San Joaquín, Pedro Aguirre Cerda, La Granja, San José de Maipo, La Pintana, Lo Espejo, El Bosque, La Florida e La Cisterna. E seguem muito de perto Recoleta, Cerrillos, Santiago, Lo Prado, Quilicura e Conchalí.

            Por que são consideradas as mais expostas? Pela combinação de quatro fatores: prevalência e taxa de crescimento do número de contágios, falta de disponibilidade de ventiladores mecânicos invasivos e falta de leitos de UTIs.

            A falta de médicos e funcionários nos hospitais do sistema público, agravada na pandemia pelo fato de funcionários e funcionárias acabarem se infectando com o coronavírus, se soma à inexplicável falta de insumos. Sem falar da falta de leitos e a criminosa falta de respiradores mecânicos nos hospitais para as comunas mais pobres.

            A sistemática privatização e precarização da saúde pública aplicada pelos governos capitalistas da ex Nova Maioria-Concertación e a direita, junto aos constantes cortes no orçamento, precarizaram a saúde pública até um ponto que se torna insustentável. O coronavírus hoje é mortal para aqueles de nós que não temos os recursos suficientes para poder pagar a saúde privada, como sempre foi para aqueles que morrem nas filas de espera, por falta de médicos ou leitos disponíveis.

            É uma realidade brutal para aqueles de nós que somos obrigados a trabalhar durante a pandemia, a usar o transporte público com aglomerações, a buscar nosso sustento no comércio informal ou outras formas precárias de trabalho. Como o estudo demonstra, somos aqueles que mais estamos nos contagiando. A negativa de Piñera e Mañalich em declarar a quarentena total garantindo o sustento das famílias pobres, é a verdadeira causa dos contágios.

Quarentena geral já!

            No dia 11 de maio de 2020, o Ministério da Saúde informou 30.063 casos confirmados de coronavírus. Números que estão em discussão pela constante denúncia de especialistas sobre um “excessivo” número de dados que estão faltando para permitir um estudo sério da pandemia. Em poucas palavras, o governo se nega a entregar dados chaves sobre os infectados para que os cientistas possam analisá-los. A polêmica cresceu à tal nível, que houve um racha na Mesa de Dados Covid-19, com a saída do Instituto Milenio Fundamentos de los Datos (IMFD), denunciando essa atitude do governo.

            Sem clareza sobre os verdadeiros números de infectados, mas com informes claros que demonstram que a pandemia está infectando e matando as famílias da classe trabalhadora no Chile, é que se faz urgente declarar a quarentena geral.

            Essa medida foi sugerida pelos mesmos peritos da Mesa de Dados Covid-19 ao Ministro da Saúde. Medida que deveria alcançar a todas as comunas da Região Metropolitana por pelo menos 14 dias, segundo os especialistas.

            Como MST e Isadora exigimos quarentena geral sem fome:

– Que todas as unidades de saúde, tanto privadas como estatais, passem imediatamente ao controle estatal, mas com administração dos sindicatos da saúde e organizações de usuários e usuárias.

– Corte imediato dos gastos com as Forças Armadas e Carabineiros, assim como os gastos com deputadas e deputados, senadores e senadoras, ministros e ministras, para investir no sistema público de saúde.

– Imposto imediato das grandes fortunas nacionais, e das multinacionais que saqueiam o Chile, para com esses recursos investir no sistema de saúde e garantir salários e pensões dignas.

– Proibição das demissões independente de qualquer hipótese, enquanto durar a pandemia e a crise econômica.

– Obrigação de que as empresas paguem os salários integralmente. As pequenas e médias empresas que não possam pagar, devem receber um subsídio do Estado para garantir o pagamento dos salários.

– Renda básica imediata, igual ao real custo de vida, para todas as famílias de trabalhadores e trabalhadoras informais, desempregados, aposentados e aposentadas.

– Fora os militares das ruas: basta de disfarçar a repressão.

– Liberdade imediata para as presas e os presos políticos de Piñera.

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