Um novo internacionalismo dos trabalhadores? Funda-se a Internacional Progressista

Por Miguel Lamas Dirigente da UIT-QI. Publicado em 20 de maio de 2020, no jornal El Socialista Nº 460. Traduzido por: Pablo Andrada



Na segunda-feira, 11 de maio, teve lugar o lançamento oficial da Internacional Progressista (IP), um movimento político de escala mundial que afirma lutar “pela democracia e igualdade” e reúne importantes organizações políticas, sociais e intelectuais. O mais conhecido mundialmente entre os participantes da IP é Bernie Sanders, ex-candidato “socialista” das primárias na convenção partidária do Partido Democrata ianque… embora em abril tenha retirado seu nome da disputa para passar a apoiar o imperialista Joe Biden.

Segundo diversas publicações, afirma-se que a IP “nasce com a vocação de promover a união, coordenação e mobilização de ativistas, associações, sindicatos, movimentos sociais e partidos em defesa da democracia, solidariedade, igualdade e sustentabilidade”.

Segundo o filósofo croata Srecko Horvat “o objetivo é criar um sujeito político planetário, uma visão política comum para prevenção do deterioro da crise climática e outras ameaças existenciais à humanidade e ao planeta”.

Os líderes desta nova organização política internacional concordam em destacar que a crise da saúde e a economia derivada da pandemia da Covid-19 tem revelado a necessidade de que “os atores progressistas empurrem todos juntos para defender a assistência médica universal, a proteção dos direitos trabalhistas e a cooperação internacional”.

Quem são eles

A Internacional Progressista, liderada por Yanis Varoufakis (ex-ministro das Finanças de Syriza, o governo de centro-esquerda grego, embora ele já tenha rompido com esse agrupamento) e Bernie Sanders (Democratas dos EUA), também conta com o respaldo de um conselho composto por mais de quarenta assessores, entre os quais se destacam dirigentes políticos, escritores e ativistas como o linguista norte-americano Noam Chomsky, a jornalista e pesquisadora canadense Naomi Klein, a primeira-ministra islandesa Katrín Jakobsdóttir, a ministra de Mulheres, Gênero e Diversidade do atual governo argentino Elizabeth Gómez Alcorta, o ex-presidente equatoriano Rafael Correa Delgado, o ex-candidato pelo PT (Partido dos Trabalhadores) à presidência do Brasil em 2018 Fernando Haddad (na qual venceu o candidato da extrema-direita Jair Bolsonaro); o ex-ministro das Relações Exteriores do Brasil Celso Amorim; o ex-vice-presidente boliviano Álvaro García Linera; o filósofo croata Srecko Horvat e a jovem ativista alemã Carola Rackete, capitã do barco e símbolo do resgate de migrantes no Mediterrâneo.

A necessária unidade de ação internacional

Antes de tudo, o chamamento para formar a lP está em sintonia com um sentimento que se estende entre os trabalhadores e oprimidos do mundo todo: a necessidade de se unir para defender nossas vidas e direitos.

Hoje, basta assistir o jornal para comprovar que em todo o planeta os trabalhadores, mulheres, jovens estudantes da classe trabalhadora e outros setores oprimidos sofrem dramas sociais semelhantes, enquanto as empresas transnacionais recebem bilhões de dólares em “ajuda” dos governos e banqueiros e continuam a cobrar dívidas estatais fraudulentas contraídas para ajudar os bilionários ou os próprios bancos.

O chamamento da UIT-QI

Nós, da UIT-QI (Unidade Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional), fizemos o “Chamamento por um plano global de emergência operária e popular para que a crise do coronavírus seja paga pelos capitalistas!”, onde apoiamos todas essas expressões de luta em cada país e também chamamos a dar continuidade e unidade em um amplo movimento internacional para que a crise do coronavírus seja paga pelos capitalistas e não pelos trabalhadores e os povos. Propomos lutar por um plano de emergência operário e popular em cada país e internacionalmente. Em todo o mundo é necessário dinheiro para saúde, salários, trabalho e alimentação. A pandemia do coronavírus ainda não terminou. E também temos a pandemia social que o imperialismo, as multinacionais e seus governos pretendem impor.

Por todas essas razões, é preciso lutar para impor o não pagamento das dívidas públicas. Para constituir uma frente de países devedores, como o que é promovido por vários países africanos, para não pagar, além de aplicar altos impostos progressivos nas multinacionais, bancos e fazendeiros do mundo. Também para utilizar esses fundos em cada país com o propósito de combater a Covid-19, proibir as demissões ou o arrocho salarial, fornecer um seguro ou um salário de quarentena aos desempregados e fornecer alimentos a milhões de pessoas necessitadas.

Certamente, qualquer iniciativa internacional de luta por esses pontos, empreendida pela lP ou por qualquer setor que a compõem, seria um canal positivo de ação comum.

O que fizeram e estão fazendo esses dirigentes?

Não podemos, porém, deixar de mostrar que aqueles que lideram essa nova internacional, em alguns casos já governaram países, como é o caso do Rafael Correa, ex-presidente do Equador; ou Álvaro García Linera, ex-vice-presidente da Bolívia; ou Fernando Haddad, ex-ministro da Educação e ex-prefeito de São Paulo pelo PT. Eles, hoje já não são mais governantes. Mas, quando estiveram no poder, antes da pandemia do coronavírus, governaram com as empresas transnacionais de petróleo, de mineração e os banqueiros. García Linera, com o autoproclamado “capitalismo andino”, apoiou o agronegócio em Santa Cruz que levou ao desastre ambiental pela destruição de florestas na Chiquitanía (zona oriental da região amazônica boliviana com um grupo étnico tão numeroso quanto os guaranis). Suas políticas a favor do grande capital levaram tanto o Equador quanto a Bolívia e o Brasil governado pelo PT, a profundas crises já antes da atual pandemia.

No Brasil, diante da atual catástrofe do coronavírus, o PT aposta tudo nas eleições presidenciais de 2022, convocando uma “frente ampla” e se recusando a mobilizar, o que mostra uma CUT (Unidade Central de Trabalhadores, dirigida pelo PT) em um papel de traição como nunca antes tinha sido visto, deixando passar as medidas profundamente antioperárias do Jair Bolsonaro e do Ministro da Economia Paulo Guedes, além do verdadeiro genocídio que o insano presidente brasileiro promove ao ignorar a pandemia.

No caso de Bernie Sanders, ele era o candidato mais popular do Partido Democrata dos EUA, concentrando o apoio de milhões de trabalhadores, mulheres e jovens que o viam como uma opção “socialista” e a favor do povo, dado que defendia propostas como saúde pública universal gratuita e educação pública gratuita. E precisamente quando a pandemia começou, na qual a saúde pública dos Estados Unidos entrou em crise total, Sanders retirou sua candidatura para apoiar Joe Biden por imposição do aparato burguês-imperialista dos Democratas.

Além do mais, ao apoiar Joe Biden, o grupo Sanders não abandonou apenas sua candidatura, mas também desistiu de dar uma opção “socialista” ou progressista a trabalhadores e a juventude. O Democrata é um dos dois grandes partidos imperialistas que dominam o sistema político ianque. Recentemente, votou no Congresso um “pacote de estímulo” de 2,1 bilhões de dólares, a maior parte para grandes empresas multinacionais e bancos. E foi votado pelos Democratas de modo quase unânime (231 de 232 deputados), quer dizer, com o apoio dos parlamentares partidários de Sanders.

A lP e a necessidade de uma internacional socialista revolucionária

A lP diante da crise, procura se posicionar politicamente como uma opção de centro-esquerda com algumas demandas progressistas. Mas os fatos mostram que, mesmo antes da pandemia, a crise capitalista deixa pouco espaço para os grandes capitalistas concordarem em liberar concessões aos trabalhadores. E, de fato, os dirigentes da atual lP se acomodaram a isso, concordando com o grande capital e sustentando o regime de democracia para os ricos.

O atual agravamento extremo da crise faz com que todos os economistas, inclusive os do FMI, prevejam dezenas de milhões de demissões (somente nos Estados Unidos ultrapassam 40 milhões!) e a destruição de todos os direitos trabalhistas. Tampouco estarão dispostos os governos burgueses a investir dinheiro em saúde ou educação. E, como é mostrado em todos os planos de resgate financeiro, a prioridade é salvar os lucros das grandes multinacionais. Infelizmente, Sanders, como afirmado, é um cúmplice a mais nisso. Por esse motivo, o “internacionalismo” da lP dificilmente passe de alguma declaração comum.

Evidentemente, as “previsões” de desastre econômico, que na verdade são planos do capitalismo para recuperar seus lucros à custa dos trabalhadores, não conseguirão impedir que os trabalhadores lutem pelos seus direitos e contra a fome. Para isso, é necessário, sim, a solidariedade e a unidade das lutas dos trabalhadores em escala internacional, porque é uma batalha muito dura, mesmo para defender os direitos mais básicos.

E somente construindo uma organização mundial com a perspectiva revolucionária da Terceira e a Quarta Internacional, para conquistar governos da classe trabalhadora e o verdadeiro socialismo, acabando com a dominação mundial do imperialismo e suas multinacionais que nos levam à catástrofe, será possível alcançar vitória.

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