“Quarentena inteligente” de Doria levará a explosão de mortes e infecções

Diego Vitello – Diretor do Sindicato dos Metroviários de São Paulo

A epidemia cresce descontroladamente. O Brasil se torna o epicentro mundial do Coronavírus, alcançando mais de mil mortes diárias. Dentro do país, São Paulo segue na dianteira como o estado que mais tem mortes e infecções. No momento em que escrevemos este texto, os números oficiais no estado de São Paulo passam de 110 mil casos confirmados e 7,6 mil mortes.
O anúncio de Doria vai contramão da defesa da vida e da ciência
Enquanto os casos de mortes e contaminações só aumentam, Doria anuncia a flexibilização da “quarentena”. Apesar de sabermos que uma quarentena de verdade nunca existiu em São Paulo, a situação pode piorar ainda mais. No final de abril, o site da CNN noticiou: “O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), afirmou que 74% de toda a estrutura econômica do estado de São Paulo está funcionando.” https://www.cnnbrasil.com.br/politica/2020/04/22/74-da-economia-do-estado-de-sp-esta-funcionando-afirma-doria. Essa fala foi feita ao vivo, em entrevista à imprensa. Se 74% da economia seguiu funcionando, obviamente que a “quarentena” de Doria foi fake e diversos setores não essenciais seguiram funcionando. Isso tem levado a lotação dos transportes públicos no horário de pico, aumentando substancialmente as contaminações e mortes de trabalhadores.
Além de nunca ter garantido uma quarentena de verdade em São Paulo, o governo do estado iniciou a pandemia sem mesmo querer ceder EPIs e álcool gel para os trabalhadores que estão na linha de frente. No metrô, por exemplo, só depois de muitas denúncias da CIPA e do Sindicato (que inclusive ganharam espaço na imprensa: https://noticias.r7.com/sao-paulo/funcionario-teme-que-metro-vire-centro-de-propagacao-de-covid-19-16032020) é que conseguimos esse direito.
Para se somar a essa situação calamitosa, os trabalhadores informais (quase metade da mão de obra) ou não conseguem ter acesso aos R$600,00 na Caixa, ou não conseguem sustentar suas famílias com tão pouco dinheiro.
Além desse cenário, o governo de São Paulo, em dois meses e meio de anúncios sobre a quarentena, não aplicou nenhuma reversão da produção na indústria do estado a serviço do enfrentamento e combate à pandemia ou para desenvolver insumos para fazer testes em massa.
Devido a um brutal aumento de mortes e contaminação, para defender vidas, deveria ser anunciado o aumento da quarentena e do isolamento social. Porém, contrariando a ciência e a defesa da vida, o governo de São Paulo anuncia sua “quarentena inteligente”. O anúncio prevê desde grandes shoppings e igrejas até escolas reabrindo no próximo mês.
Fica evidente que com isso se concretizando na realidade o número de mortes irá aumentar aumentar muito.
“Que mágica” ocorreu em São Paulo?
Nesta semana, o microbiólogo Átila Iamarino (um dos principais estudiosos do desenvolvimento do coronavírus no Brasil) declarou: “SP passou meses anunciando que as pessoas precisavam ficar mais em casa, que sem recolhimento de 70% faltaria leito. Nunca atingimos esse número. (…) Agora tá tudo bem pra reabrir? Que mágica aconteceu?”
A colocação está perfeita. Sem nenhuma diminuição substancial nas infecções e mortes, Doria anuncia reabertura.
Porém, nos atrevemos a responder a pergunta de Átila. A “mágica” é explicada pelos objetivos eleitorais de Doria para 2022. Para contar com o apoio de setores empresariais e da cúpula de determinadas igrejas, o governador cede às pressões, mesmo que isso leve à morte moradores do maior estado do país. Com a diminuição dos lucros e dos dízimos, grandes empresários, pastores e padres são atendidos pelo governo pela reabertura imediata, mostrando na prática que o dinheiro vem acima da vida da população para eles.
Subnotificações aumentam o caos no estado
O governo tem negado investir em testes massivos para a população. Com isso, o índice de subnotificação é escandaloso. A incompetência do governo tem sido paga com milhares de vidas. Em estudo recente, onde participaram cientistas da USP e UNIFESP mostrou a grau de subnotificação e desconhecimento da doença que estamos no estado: “A pesquisa ajuda a dimensionar o alto índice de subnotificação. Segundo o levantamento, 91,6% dos casos estão fora dos números oficiais. O motivo é a falta de testes.” https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,estudo-inedito-detecta-anticorpos-ao-coronavirus-em-5-dos-moradores-da-cidade-de-sao-paulo,70003304706. Se pegarmos os 100 mil casos já confirmados, teremos como número real de infectados cerca de 1,2 milhões de pessoas.
Quanto às mortes, temos também um altíssimo índice de subnotificação. Conforme estudo publicado pela Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz) há três semanas: “De 17 de março a 30 de abril de 2019 foram 33 mortes por Síndromes Respiratórias Agudas Graves (SRAG) na capital. No mesmo período deste ano, foram quase 3.200.” Mortes por síndromes respiratórias em São Paulo crescem quase 100 vezes com pandemia. Com a ausência de testes, as pessoas infectadas que são assintomáticas, seguem circulando, aumentando o descontrole da situação.
Por uma quarentena de verdade para salvar vidas
É preciso batalhar por uma quarentena de verdade. Nesse sentido é muito positivo que as trabalhadoras e trabalhadores da saúde estejam fazendo atos simbólicos em todo país e apontando o caminho da luta para conseguir quarentena de verdade e condições de trabalho. Tivemos também uma importante manifestação dos moradores da favela de Paraisópolis, que marcharam até o Palácio Bandeirantes denunciando o abandono completo do governo estadual aos moradores da periferia da cidade. Além disso, outro exemplo fundamental veio esse domingo da Avenida Paulista no ato antifascista impulsionado torcidas organizadas contra o autoritarismo de Bolsonaro e que também questionou o negacionismo genocida do governo de Bolsonaro e Mourão. Houve também atos em Belo Horizonte, Porto Alegre e Rio de Janeiro.Temos estado presentes e apoiado essas mobilizações, e é necessário dar continuidades a esses atos.
 O fato é que só com o máximo isolamento social podemos garantir salvar o máximo de vidas e controlar a situação caótica que Bolsonaro, Doria e a classe dominante nos colocaram. É  somente conseguiremos uma quarentena real se houver luta e mobilização.
Nossa proposta de quarentena fecha todos os serviços não essenciais. Apenas hospitais, farmácias, transportes e mercados e supermercados devem seguir funcionando. A categoria metroviária tem corretamente defendido há mais de dois meses um Plano de Emergência no transporte público, para que só funcione para transportar trabalhadores dos serviços essenciais. Na indústria devemos ter aberto somente fábricas que produzam alimentos, medicamentos ou utensílios para o combate à pandemia. Além disso, é preciso reorganizar a produção, obrigando as grandes indústrias a produzirem itens como máscaras e álcool gel em massa.
As trabalhadoras e trabalhadores da saúde tem cobrado testes periódicos para os trabalhadores dos serviços essenciais. No metrô também levantamos essa política que evitaria muito a contaminação desses trabalhadores e também da própria população que utiliza a saúde e transportes públicos.
Com o fechamento dos serviços não essenciais precisamos garantir estabilidade no emprego e nenhuma redução salarial para os trabalhadores. Aos trabalhadores informais é preciso garantir uma renda mínima para que possam ficar em casa e se proteger do vírus. A CSP-Conlutas tem levantado que se acabe a burocracia para o acesso à renda mínima e que o valor suba para dois salários mínimos, medidas que apoiamos.
Quem deve pagar essa conta são os grandes capitalistas, que ganharam bilhões nos últimos anos. Por isso levantamos que se taxe as grandes fortunas e se suspenda imediatamente o pagamento da dívida pública aos banqueiros, só assim teremos dinheiro para salvar vidas e garantir empregos. Fica evidente que com isso se concretizando na realidade o número de mortes irá aumentar aumentar muito.

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