O mito da cloroquina

Maria V. Moura – Estudante de biotecnologia da UFPA

A cloroquina e sua derivada, a hidroxicloroquina, são fármacos já presentes no mercado que, antes da pandemia do coronavírus, eram exclusivamente indicadas para o tratamento de doenças como a malária e o lúpus. Entretanto, no começo da pandemia, elas foram testadas em laboratório e em hospitais, sendo apresentadas junto com outros medicamentos,  como possíveis opções para o tratamento dos sintomas graves da COVID-19, com o objetivo de identificar a droga mais eficaz para o tratamento dos sintomas de modo a buscar reduzir a mortalidade da doença enquanto uma nova vacina ainda não foi descoberta. 

Embora artigos anteriores à pandemia identificassem a alta toxicidade (capacidade de causar danos ou morte) dessas duas substâncias, e seus resultados durante o surto do coronavírus gerassem resultados controversos quanto as suas reações adversas causadas em pacientes infectados com o vírus, rapidamente elas foram propagadas de modo irresponsável como medicamentos “milagrosos”, principalmente por governos, incluindo-se aqui o governo do Bolsonaro, o qual valendo-se do seu cargo político, busca a todo custo, por meio de uma postura anti-científica, ignorando as advertências da OMS e de pesquisas criteriosas, transformando a catástrofe na qual vivemos em propaganda política.

Finalmente, nas duas últimas semanas, foram publicados dois artigos de grande relevância do Britain Journal of. Eles descartam o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina como medicamentos para o tratamento de pacientes com sintomas leves, moderados e graves da COVID.

Os artigos publicados no Britain Journal of Medicine realizaram testes com a hidroxicloroquina em pacientes com sintomas leves e moderados da COVID. Após 28 dias (tempo padrão de tratamento) observou-se que 30% dos pacientes testados apresentaram reações adversas (porcentagem maior dos que receberam tratamento padrão) e dois pacientes tiveram reações mais sérias, evoluindo para infecção respiratória. Considerando que esse medicamento causou danos maiores aos pacientes e, aos que apresentaram melhora corresponderam a uma porcentagem muito próxima aos que se curaram sem o uso da hidroxicloroquina (59,9% e 66,6% respectivamente), o estudo conclui que ela não causa benefícios adicionais aos indivíduos infectados.

Embora o  artigo publicado no The Lancet tenha causado controvérsias e, posteriormente, ter sido comprovado erros expressivos na contagem do número de pacientes com sintomas graves da COVID que desenvolveram complicações em decorrência do uso da hidroxicloroquina nas UTI`s, outros trabalhos divulgados no mesmo período dão sustentação á evidência dos sérios riscos e à falta de melhora significativa em pacientes infectados com o coronavírus. 

Diante dos fatos apresentados, é de extrema relevância os movimentos estudantis, sindicais, partidos e outros setores da sociedade se mobilizarem para articular uma campanha virtual reivindicando a suspensão imediata da cloroquina e da hidroxicloroquina nos hospitais para o tratamento da COVID-19, caso contrário, poderá ocorrer o agravamento dos colapsos nos leitos dos hospitais, nos quais os infectados pelo corona vírus irão ficar mais tempo internados, devido a complicações medicamentosas, assim como o número de vítimas será maior, afetando principalmente a população mais pobre: a mais atingida pela pandemia. Não é estranho pensar que ao ignorar a própria recomendação da OMS de que estudos com esses medicamentos sejam suspensos, Bolsonaro e seus aliados pretendem realizar uma espécie de “higienização social”, na qual as mortes serão em sua maioria de cidadãos pobres e negros, que dependam unicamente do SUS.

É importante aliar essa luta com outras já em vigor, iniciando pela mobilização em defesa da quarentena geral. Não podemos colocar a reivindicação pela suspensão do pagamento da dívida pública como segundo plano, afinal, é imprescindível exigir a destinação dessa grande fortuna para investimento em EPI`s, ampliar o número de leitos de UTI no SUS e oferecer suporte às universidades públicas e aos institutos de pesquisas para o desenvolvimento de novos medicamentos para o tratamento da COVID e para pesquisa na busca de uma vacina eficaz e economicamente acessível. 

 

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