HISTÓRIA | 58 anos da libertação da Argélia, a luta continua

Por Silvia Santos, dirigente da UIT-QI
Tradução Lucas Schlabendorff


Após um combate feroz por sua libertação, a Argélia conquistou sua independência no dia 3 de julho de 1962. Foi uma luta heroica contra o imperialismo francês, cujos métodos de contrainsurgência – torturas e ataques à população civil – fizeram escola no mundo. Quase um milhão de argelinos deram suas vidas nessa luta. No entanto, esta revolução que poderia ter avançado com medidas anticapitalistas, uma vez que o regime colonial estava em pedaços, retrocedeu devido à política de sua direção e reconstruiu o Estado burguês, transformando o país em uma semicolônia do imperialismo ianque e francês. Essa relação de dependência explica a rebelião popular de 22 de fevereiro de 2019, processo que ainda está em curso.

A luta pela libertação

A invasão francesa na Argélia começou em 1830, quando seu exército derrotou o império turco-otomano que dominava essa região. Essa ação foi resistida durante quase uma década, até que a França, em 1840, desembarcou 115 mil soldados para assegurar sua ocupação. Anos mais tarde, quase meio milhão de colonos franceses se instalaram na Argélia e se apoderaram das terras mais férteis. Os colonos europeus, que eram minoria diante dos argelinos, cerraram fileiras em defesa de seus privilégios, apoiados pelos setores mais plebeus, que foram chamados de pieds-noirs (pés negros), que colaboraram com os métodos fascistas dos gauleses e com a exploração
colonial.

Foi mais de um século de ocupação atravessado por intermináveis lutas da resistência nacionalista que, em 1945, teve um dos seus principais capítulos. O 1º de maio, um ato com a presença de 10 mil muçulmanos que comemoravam a derrota do nazismo, se converteu em uma grande rebelião popular que foi afogada em sangue pelas tropas francesas e deixou mais de 20 mil argelinos mortos. Apesar disso, a burguesia francesa se encontrava debilitada após a Segunda Guerra Mundial (ainda que a França fizesse parte dos Aliados) diante do novo gigante norte-americano e após sua derrota acachapante na Indochina (Vietnã, Laos e Camboja) em 1954. Em 1956 foi novamente derrotada quando, junto com as tropas do Reino Unido, invadiu Port Said para impedir a nacionalização do canal de Suez, levada adiante pelo governo egípcio de Abdel Nasser. Por esse motivo, decidiu lutar com unhas e dentes contra a emancipação da Argélia, apesar de que em 1956 havia sido obrigada a conceder a independência de Marrocos e Tunísia.

A fundação da FLN

Em 1954 foi fundada a Frente de Libertação Nacional (FLN) e seu braço armado, o Exército de Libertação Nacional (ELN), que estava composto por muitos soldados argelinos que haviam lutado na Indochina sob o comando francês. A França não tardou em reagir e mandou 500 mil soldados para a Argélia que destruíram aldeias e mataram mais de um milhão de argelinos.

A superioridade em armamentos era notável. Além disso, contavam com o apoio da Organização Armada Secreta (OAS), força da direita colonialista que atuava com métodos fascistas em defesa dos privilégios dos colonos franceses. Praticava torturas em massa, execuções sumárias e desaparições de dirigentes, bombardeava aldeias, assassinava civis e queimava as plantações.

A batalha de Argel, que ocorreu no ano de 1958, ficou muito bem registrada no famoso filme dirigido por Gillo Pontecorvo (A Batalha de Argel) onde se mostrou, de forma quase documental, que a França da “liberdade, igualdade e fraternidade” havia sido uma bela consigna, mas nada mais que isso. O filme mostra a luta casa por casa nas vilas, chamadas casbah, parecidas com as favelas brasileiras, localizadas nos morros de Argel e atravessadas por vielas e corredores estreitos. A FLN respondeu com
atentados contra alvos militares e civis franceses, mas por fim acabou derrotada pelas tropas de ocupação e seus métodos de contra insurgência.

Mas a rebelião anticolonial era imparável. A heroica resistência argelina ia conseguindo apoios pelo mundo, sobretudo na própria França. Depois de uma profunda crise causada pela guerra da Argélia, no final de 1958, Charles De Gaulle assumiu o governo e, consciente de que uma nova derrota como a da Indochina afundaria a França, decidiu negociar. Em um plebiscito realizado em 1961, 75% dos franceses votaram a favor da independência.

Em março de 1962 houve uma reunião entre a FLN e representantes do governo francês na cidade de Evian, na França. No dia 1º de julho foi realizado um plebiscito que culminou com a independência e o triunfo do povo argelino e da FLN. No dia 3 de julho foi proclamada a independência da Argélia e no dia 5 foi formalmente reconhecida pelo governo francês.

A revolução abortada

A guerra de independência da Argélia se deu no segundo pós-guerra, quando aconteciam numerosas lutas pela libertação nacional aproveitando a situação do imperialismo que precisava concentrar suas forças nas metrópoles. Assim, foram surgindo nações livres do jugo colonial, como Marrocos, Tunísia, Egito e Líbia no norte da África. Processos encabeçados por dirigentes pequeno burgueses ou burgueses e governos nacionalistas burgueses que, a nível internacional, se organizaram como “não alinhados”, que se diziam equidistantes tanto de Moscou como de Washington.

A Argélia foi um dos triunfos mais espetaculares da luta por libertação nacional contra o colonialismo, no entanto, pela política de sua direção, a FLN, encabeçada por Ben Bella, não avançou ao “socialismo”, como afirmava a sua nova constituição. Havia possibilidades? Afirmamos que sim, os colonos, burgueses e plebeus fugiram para a França, abandonando suas propriedades. A FLN ficou sozinha, sem nenhum setor burguês importante com quem formar um governo de frente popular. Era o momento de construir o novo Estado, mas decidiram reconstruir o Estado burguês.

Como em todo processo revolucionário, ou se avança, ou acaba-se por retroceder. Lamentavelmente, foi o que ocorreu. Depois de um período de atrito com o imperialismo, mantendo certa independência política, a direção da FLN começou a pactuar com a França e os Estados Unidos, e a Argélia se converteu em uma semicolônia.

2019: um novo processo revolucionário irrompe na Argélia

No dia 22 de fevereiro de 2019, em um processo sem precedentes, surge um movimento popular que toma as ruas de todo o país. A gota d’água foi que o presidente Abdelaziz Bouteflika, da FLN, anunciou que seria candidato a presidente pela quinta vez. O povo saiu em peso para as ruas expressando seu ódio contra o regime.

Bouteflika, já velho, doente e em cadeira de rodas após ter sofrido um AVC, precisava ser derrotado. Isso era visto principalmente pela juventude, protagonista do movimento de desempregados e vanguarda das revoltas de Cabília. Como resultado da ira popular, expressada nas gigantes mobilizações, antigos dirigentes políticos da FLN ou com vínculos com a Frente acabaram presos, entre eles o irmão de Bouteflika, acusado de corrupção.

As massas conquistaram um triunfo importante, a renúncia de Bouteflika. Mas, apesar da espetacular mobilização, não se conseguiu mudar o regime, que segue controlado pelos militares que continuam com sua política corrupta e pró-imperialista. As revoltas seguiram com maior ou menor participação todas as sextas até que a pandemia de março de 2020 abriu um impasse. O regime tentou acabar com esse movimento através da quarentena, no entanto não conseguiu derrotá-lo e certamente ele voltará a atuar quando as condições permitirem.

A trajetória da FLN não deve nos causar estranheza. Assim terminaram os governos nacionalistas burgueses e de conciliação de classes. Foi assim também com o regime sandinista, com Ortega massacrando a rebelião popular que exige sua saída. Nós, da Izquierda Socialista e da UIT-QI, apoiamos a luta do povo argelino por sua segunda e definitiva independência. Para isso, o povo argelino se prepara lutando contra o regime opressor, da fome e do desemprego, encabeçado pelos militares e pela FLN, exigindo justiça social, democracia, liberdade e igualdade.

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