CHILE: a luta contra a fome e as AFPs

 

Por MST, seção chilena da UIT-QI

Tradução Lucas Schlabendorff

 

História de uma crise

Pressionados pelo desemprego, a pobreza e até pela fome, milhares de trabalhadoras e trabalhadores começaram há alguns meses uma campanha nas redes. De forma virtual, exigem que as AFPs (Administradoras de fundos de pensões) devolvam 10% dos fundos economizados para cada cotizante. Uma demanda que parecia impossível.

As respostas escassas do governo, que foram o motor dessa campanha, geravam a crescente indignação de centenas de milhares de famílias. No início de maio, uma jornada de mobilizações contra a fome terminou com uma noite de protestos. Hoje no Chile a quantidade de contágios se aproxima de 350 mil, as mortes por coronavírus, até agora, são em torno de 13 mil, e começam a ser sentidos os efeitos da brutal crise econômica. Os números do desemprego, pobreza e fome fizeram o país retroceder às condições do início dos anos 80.

Esse antecedente abriu a brecha que acabou se transformando em um gigantesco impasse entre o Congresso e o governo de Piñera. Ambos, junto com o empresariado, temem uma segunda explosão social. Mas, pela primeira vez, deputadas e deputados da oposição patronal, junto a um setor de deputados de direita, se rebelaram contra a linha imposta por la Moneda (sede do governo).

“Não existem recursos públicos suficientes para conter a fome, a pobreza e o desemprego, é momento de buscarmos outros recursos”, disse um deputado de direita que votou a favor da retirada dos 10%. Uma frase comum nesses dias em ambas as Câmaras, mas que é um exemplo da crise. O próprio Piñera apresentou dois planos de ajuda para a “classe média”, junto com uma campanha pública chamando a rejeitar a retirada dos fundos de pensões.

A própria coalizão do governo se dividiu diante de uma demanda que parecia impossível até alguns meses atrás. Hoje essa divisão se tornou em uma guerra civil dentro da direita mas, sobretudo, um golpe em toda a linha que flutua ao redor do governo. Nem sequer seus próprios setores acreditam que o governo seja capaz de conter o descontentamento, e muitos já nem sequer escondem que não querem atrelar sua sorte à do governo de Piñera, que aprofunda sua crise a cada passo.

A aprovação dessa lei na Câmara de Deputados é só a ponta do iceberg de uma crise maior. Como Piñera e o grande empresariado deterão o avanço dessa demanda? Poderiam barrá-la no Senado, mas um dia antes da votação na Câmara de Deputados houve um panelaço nacional, com barricadas e alguns saques, e inclusive uma paralisação nacional de meia jornada nos trabalhadores portuários. O cheiro de outra explosão social está impregnado nos elegantes trajes “dos e das ilustres”. Além disso, cinco senadores de direita, inclusive pinochetistas declarados, disseram que votarão a favor da retirada para evitar as consequências de uma nova mobilização.

Piñera, sozinho e encurralado, aparece como o grande inimigo das massas, como o defensor ferrenho das odiadas AFPs. Lhe resta um único caminho, vetar a lei. No entanto, dentro do próprio governo já anunciam que esse caminho sem dúvidas seria a faísca que iniciaria um incêndio, e desta vez já não estão seguros de poder controlá-lo. Se a lei acabar sendo aprovada, será um golpe mortal para Piñera e seu poder em um regime presidencialista. Se ele a veta, selará sua sorte e a de seu governo. O presidente tem tudo a perder em todos os cenários possíveis.

 

Pela retirada dos 100%

Nós do MST, seção chilena da UIT-QI, temos nos somados às mobilizações que têm surgido espontaneamente pela aprovação dessa lei. Mas propomos que não lutemos apenas pelos 10%. A força das massas segue em pé, e ainda que fora das ruas por causa da pandemia, uma única insinuação de uma nova explosão social já provocou essa enorme crise no governo e no regime político.

Por que ficarmos apenas nessa demanda? Nós, do MST, defendemos que as AFPs devolvam a totalidade dos fundos de pensão. Que se acabe com o sistema privado de aposentadorias que já demonstrou ser uma calamidade para milhões de aposentados e aposentadas. Em seu lugar, estabelecer um sistema de distribuição solidário e tripartido sob controle dos aposentados, aposentadas, trabalhadores e trabalhadoras.

 

Para evitar que nós do povo e da classe trabalhadora paguemos a crise capitalista, devemos ir mais além. Chamamos a construção de uma coordenação nacional entre sindicatos, assembleias territoriais, organizações estudantis, feministas, populares e políticas. Por um plano de lutas nacional e reivindicações unificadas que incluam um plano econômico de emergência operário e popular votado pelas bases.

 

 

 

 

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