HISTÓRIA | 8 de agosto de 1966: Mao anuncia a Revolução Cultural

Por Silvia Santos, dirigente da UIT-QI

Tradução: Lucas Schlabendorff


Este texto que compartilhamos se apoia nas elaborações de Nahuel Moreno, dirigente do trotskismo latino-americano e mundial, contidas no livro “China de la Revolución a la restauración capitalista” (junto com outros autores) e em polêmicas com a direção do SU da IV Internacional. [1]

A maioria das e dos jovens lutadores e lutadoras que se aproximam da militância revolucionária conhecem pouco do fenômeno da revolução cultural chinesa, um fato ocorrido há 54 anos. As imagens mais simbólicas que guardamos daquele processo são os milhares ou milhões de jovens se manifestando com o “livro vermelho de Mao” nas suas mãos, que continha citações e discursos do líder.

Esse movimento, que chamou a atenção da vanguarda mundial, teve mais de uma interpretação. Para alguns, foi uma genuína manifestação de uma nova democracia surgida de baixo. Para outros, pelo contrário, expressava uma luta feroz entre dois setores da burocracia. Nossa corrente, dirigida por Nahuel Moreno, entendeu que se tratava de uma luta interburocrática. Um desses setores, liderado por Mao Tsé Tung e Lin Piao, apoiando-se na mobilização da juventude e dos trabalhadores, encabeçou o que ficou conhecido como a Revolução Cultural.

A revolução chinesa

Em 1º de outubro de 1949, o Exército Vermelho entra em Pequim, derrotando o Kuomintang, partido dos latifundiários, da burguesia e dos camponeses ricos, que contava com o apoio do imperialismo. Após uma prolongada guerra de guerrilhas, foi derrotado Chiang Kai-shek, o ditador sanguinário e dirigente do Kuomintang; e o Partido Comunista chinês, dirigido por Mao, tomou o poder. Mao encabeçava o Exército de Libertação Nacional, e protagonizou uma multitudinária revolução agrária, tendo como eixo o campesinato.

O fato de que esse grande processo revolucionário tenha sido protagonizado pelo campesinato e, portanto, com ausência de democracia operária, deu ao maoísmo um caráter burocrático. No entanto, apesar das limitações, uma combinação entre o processo objetivo interno e a situação internacional gerada no pós-guerra, permitiu a expropriação da burguesia, apesar dessa tarefa não fazer parte do programa do PC chinês. [1.1]

Para Mao, a revolução que estava colocada na China era essencialmente antifeudal e anti-imperialista, dirigida por um “bloco de quatro classes”: o proletariado, campesinato, pequena burguesia urbana e burguesia nacional. Apesar das diferenças com o estalinismo, o maoísmo, igual à burocracia da URSS, defendia alianças com a burguesia nacional e o socialismo em um só país. Ou seja, o avassalador processo de revolução agrária que levavam adiante milhões de camponeses, em um país que contava naquele momento com 700 milhões de habitantes, deveria ficar apenas na tarefa democrática de derrubar a ditadura do Kuomintang.

Mas, por mais que Mao tentasse manter a revolução dentro do marco democrático, a lógica da revolução agrária, com milhões de camponeses ocupando terras, deu origem a um governo operário e camponês. Nesse sentido, Moreno assinalava a importância do contexto internacional. Nos lembra que, enquanto a contrarrevolução estalinista se deu nos anos de retrocesso das massas e de triunfos contrarrevolucionários entre 1923 e 1943, a revolução chinesa se deu na época que se seguiu após a segunda guerra mundial, acompanhando o processo de lutas anticoloniais vitoriosas e de revoluções como a iugoslava ou cubana, que se deram de forma independente do aparato contrarrevolucionário de Moscou.

A revolução cultural

É apenas nesse contexto que podemos compreender o significa da revolução cultural. Foi uma expressão do enfrentamento que eclodiu entre as massas de jovens e trabalhadores contra os aparatos burocráticos, gerando uma crise no regime, com questionamentos à direção. Nesse cenário, se abriu uma luta interburocrática. Para levar adiante sua luta, Maio se apoia na mobilização dos jovens e alega que há elementos capitalistas infiltrados no governo. Com essa acusação, insiste que os revisionistas deveriam ser derrotados através da luta de classes.

A juventude respondeu ao chamado de Mao, formando grupos da Guarda Vermelha em todo o país. O movimento se estendeu ao exército, aos trabalhadores urbanos e à própria direção do Partido Comunista. Nesse processo, se abriu uma série de lutas entre frações, generalizadas em todos os âmbitos da vida. Na cúpula, conduziu um expurgo massivo de altos funcionários, em particular Liu Shaoqi e Deng Xiaoping. Durante o mesmo período, o culto à personalidade de Mao cresceu em proporções gigantescas.

Iniciada em 1966, já em janeiro de 1967 havia se convertido em uma mobilização de massas em todo o país, numa tal magnitude que também começava a envolver setores operários urbanos. Foi então que Mao, vendo que o processo podia sair do controle, em 1969 tenta dar por acabada a “Revolução Cultural” que lhe havia permitido eliminar seus inimigos e se reafirmar como líder da Revolução. No entanto, o processo se estendeu até a sua morte em setembro de 1976. Com a morte do líder, a China tomou outro rumo, ocorreu a prisão de seus sucessores, conhecidos como o Bando dos Quatro, entre os quais estava a mulher de Mao, Jiang Qing, e assim a Revolução Cultural chegou ao fim.

A partir dali, começou um novo processo onde os “reformistas”, dirigidos pelo reabilitado Deng Xiaoping, começam a desarmar o andaime sobre o qual havia se montado o maoísmo. Em 1978, Deng se torna o novo líder a partir do qual começa uma fase de reformas e abertura econômica. Uma fase que havia sido iniciada pelo próprio Mao durante a visita de Richard Nixon à China em 1972. [2]

China, uma ditadura capitalista

No último trabalho escrito por Moreno sobre a China no Correio Internacional nº 13, em 1985, resenha a direitização do regime chinês e o giro para uma conciliação com o imperialismo ianque iniciado por Mao nos anos 70. Com seu sucessor, Deng Xiaoping, esse giro à direita se aprofunda ainda mais e chega ao ponto sem retorno da abertura ao capitalismo.

Em 2008, o trabalho de Miguel Sorans (dirigente da UIT-QI) retoma a evolução do processo chinês, o caminho até a restauração que converteu a China em uma grande economia capitalista. Ao contrário da Rússia, Alemanha e outros países do leste europeu, onde o movimento de massas derrubou as ditaduras burocráticas, foi o esmagamento das mobilizações de milhões de jovens estudantes e operários, com o massacre de milhares de jovens em maio de 1989 na Praça Tiananmen, que explica que tenham se instalado 70 mil multinacionais na China, e que a considerem “a fábrica do mundo”.

O trabalho é concluído com a caracterização do estado chinês como capitalista, e seu regime como uma ditadura do Partido Comunista. Destaca também as inumeráveis lutas operárias e populares que se desenvolvem espontaneamente em todos os rincões desse imenso país.

O futuro da China dependerá da repercussão da crise econômica mundial e da atual pandemia da Covid-19 no país, e, fundamentalmente do desenvolvimento da luta de classes. Finalizamos este texto com um chamado aos revolucionários do mundo, para apoiarmos as lutas da classe operária e da juventude chinesa por suas reivindicações e para nos posicionarmos pelo fim da ditadura capitalista chinesa.

Notas:

[1 e 1.1] Os debates na IV Internacional (SU). O triunfo de Mao e o avanço até a expropriação da burguesia, ao calor da colossal revolução camponesa, abriu um debate na IV Internacional. Deslumbrado pelo êxito revolucionário, o setor encabeçado por Ernest Mandel e Livio Maitán argumentou “aqueles que encabeçam revoluções vitoriosas são revolucionários”. Minimizava o caráter burocrático da condução de Mao e sua política de unidade com a burguesia e de “socialismo em um só país”. Capitulava, assim, ao maoísmo; assim como capitou diante da direção cubana e diversas direções de processos de luta que ocorreram no mundo.

[2] A relação entre China e Estados Unidos. A primeira visita de um presidente dos Estados Unidos à República Popular da China, realizada por Richard Nixon, foi precedida por uma visita secreta do Secretário de Estado Henry Kissinger. Foi um fato importantíssimo para normalizar as relações entre os EUA e a República Popular da China. Para compreender o significado, Nixon declarou: “Foi uma semana que mudou o mundo”. Assim, fica evidente que Mao foi parte da burocracia que impulsionou a restauração capitalista, diferente do que acreditam alguns setores da esquerda, que acham que foi com Deng Xiaoping que se iniciou o processo restauracionista.

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