As armadilhas do modelo de ensino remoto nas universidades – Entrevista com Vera Jacob, professora da Universidade Federal do Pará.

As armadilhas do modelo de ensino remoto nas universidades – Entrevista com Vera Jacob, professora da Universidade Federal do Pará.


O Combate Socialista entrevistou a Professora Dra. Vera Lúcia Jacob sobre a luta contra o Ensino Remoto. Militante histórica do movimento docente, Vera já foi vice-presidente do ANDES-SN e compôs várias gestões da Adufpa (o sindicato dos professores da UFPA). Atualmente coordena o Programa de Pós-Graduação em Educação PPGED/UFPA. O PPGED é parte do Manifesto contra o Ensino Remoto na UFPA e formulou uma minuta em que apresenta um plano alternativo à proposta de Ensino Remoto da Reitoria.

 

Combate Socialista: Professora Vera Jacob, o que está por trás da proposta de Ensino Remoto por parte do governo federal e reitorias Brasil afora?

VJ: Primeiro, em relação ao governo federal, o que está por trás da proposta de ensino remoto é a destruição das universidades públicas, da educação pública; é a precarização da formação do trabalhador, da formação de jovens, é a precarização do trabalho dos professores. É uma concepção de universidade voltada exclusivamente para o ensino, e um ensino de péssima qualidade.

O que está por trás também é a possibilidade de implantar um ensino de custo baixo, uma vez que grande parte do financiamento desse ensino se dará com o salário do próprio trabalhador e dos estudantes. Várias escolas privadas que hoje estão desenvolvendo esse tipo de ensino, reduziram o preço das mensalidades porque as famílias entram com uma contrapartida que é o gasto com energia elétrica, internet, condições de instalações físicas, equipamentos… Então a redução dos gastos com esse tipo de ensino, tanto no setor privado como no setor público, é um elemento importante que tem atraído os reitores para defender a adoção desse ensino. É importante destacar, ainda, que esse tipo de ensino vai se estender para além da pandemia pois, além da economia de recursos por parte das instituições, existem interesses externos. As grandes empresas de tecnologia estão atrás do lucro que vão ter com esse ensino uma vez que as instituições estão comprando seus serviços pela necessidade do uso da internet e de plataformas. Vejam como elas desenvolveram a parte tecnológica, muito rapidamente durante esse período de pandemia, oferecendo serviço. O pior de tudo é que 70% das universidades públicas federais do país já estão comprando os serviços da Google e da Microsoft. É uma forma também de privatizar as universidades públicas. É um absurdo que as universidades públicas do nosso país não tenham investido em tecnologias próprias e mesmo aquelas que investiram como a federal de Santa Catarina (que tem plataforma própria e que vem sendo utilizada por várias universidades) estão comprando os serviços da Microsoft. Então é preciso denunciar isso, que o que está por trás também dessa oferta, da insistência desses reitores em aceitar oferecer esse tipo de ensino tem a ver também com interesses privados dentro das universidades públicas.

Muito tem se debatido sobre o interesse/lobby de empresas de tecnologia sobre esse tema. Qual a influência do setor privado nesse debate?

VJ: – Sim, muito se tem debatido sobre isso mas pouco tem sido feito. Conforme falei anteriormente, o principal interesse dessas grandes empresas tecnológicas é invadir e ocupar um espaço privilegiado que é o espaço da produção do conhecimento. Veja bem, as universidades estão se privatizando internamente, as universidades que estão comprando os serviços dessas grandes empresas tecnológicas simplesmente estão num caminho sem volta. Ao invés das universidades investirem na produção de conhecimento tecnológico, elas estão comprando os serviços e com isso perdem sua autonomia pois todos os dados da instituição passam para a “guarda” dessas empresas.

A UFPA já comprou os serviços da Google. Hoje todos os e-mails institucionais estão sendo administrados pela Google, pelo G Suíte. E qual o interesse dessas empresas para além do lucro? É ter acesso aos nossos dados, esse é o interesse! Elas passaram a ter acesso a todos os dados da universidade, dos servidores, dos estudantes, dados das pesquisa e da produção do conhecimento. É a perda completa da autonomia das universidades.

O pior de tudo é que as reitorias fizeram essa adesão sem discutir nos seus Conselhos Superiores. Foram decisões unilaterais das reitorias, não houve discussão democrática dentro das universidades para que as universidades entregassem os nossos dados pessoais e funcionais para essas empresas tecnológicas. Isso é gravíssimo e a gente precisa denunciar.

 

Como esta modalidade se apresenta perante o contexto de pandemia em que as desigualdades se aprofundam?

VJ: O ensino remoto é, na verdade, um modelo excludente que gera um processo de aprofundamento da exclusão de pobres, negros, indígenas, jovens e crianças que vivem na periferia. Por quê? Porque essas pessoas não tem a menor condição de: primeiro, possuir esses recursos tecnológicos, como computadores, nas suas casas; quando têm, no máximo é um para o uso de toda a família, e o acesso à internet se dá majoritariamente por meio dos celulares sem acesso a dados, pois é muito caro. A maior parte dos estudantes acessam a internet nos espaços públicos, em especial nas Universidades e escolas. Grande parte das famílias dos nossos estudantes dividem o espaço de moradia com mais de 10 pessoas no mesmo ambiente. Portanto, a casa não é um ambiente propício para o estudo, para que a pessoa fique mais de 4 horas direto em frente ao computador. Então, quem é excluído efetivamente desse processo são as crianças e jovens pobres; e no Brasil a pobreza tem cor, tem raça. O nosso país é um país em que a pobreza é profunda e infelizmente esse tipo de ensino vem para aprofundar ainda mais a exclusão. Por isso somos contra o ensino remoto, porque ensino remoto é sinônimo de exclusão social, exclusão de pobres, pretos e indígenas.

Agora, imagine a Amazônia, onde ainda temos problema de acesso à internet em várias localidades; e não precisa ir muito longe não! Aqui mesmo, na região das ilhas que cercam a cidade de Belém, em vários lugares não recebem sinal de internet… Imaginem vocês, como é que vão conseguir acompanhar o ensino remoto?

Esse debate tem se desenvolvido democraticamente nas IFES’s?

VJ: Infelizmente, a discussão sobre o ensino remoto evidenciou uma situação gravíssima: o processo democrático ainda está muito fragilizado dentro das universidades públicas. Infelizmente, o que temos visto nas universidades – e isso é uma denúncia nacional – é um curto espaço de tempo para discutir uma questão tão importante que envolve a vida das pessoas, o trabalho de professores e técnicos. Em muitas unidades da UFPA, que decidiram primeiro escutar os estudantes e trabalhadores, resolveram ignorar o resultado da “escuta” quando o posicionamento desses é contrário ao ensino remoto. Simplesmente resolveram passar o trator. Nas decisões dos colegiados, que não passam de simulacros de democracia, os gestores passaram por cima de toda a escuta tanto dos estudantes como dos professores e dos técnicos. Nós temos unidades e subunidades que tomaram decisões contrárias ao ensino remoto que fizeram essas discussões e que simplesmente foram atropeladas dentro dos conselhos das unidades; é a mesma coisa que está acontecendo no conselho superior. Em várias universidades aconteceu isso: como os conselhos majoritariamente são formados por membros ligados à reitoria, eles simplesmente atropelam tudo. É o que estamos vendo hoje na Universidade Federal do Pará, onde a consulta feita dentro das unidades, com estudantes e professores, foi literalmente ignorada.

E vocês vão ver que no conselho superior da UFPA, mesmo os estudantes fazendo protesto, dizendo que são contra esse modelo, vão ser atropelados. Já está aí a proposta de resolução e o parecer da professora Jane Beltrão mostrando isso: simplesmente não querem escutar. E o pior é o cinismo dessas pessoas, que no discurso defendem a “inclusão”. Vejam a campanha do Tourinho quando, ao ser perguntado sobre o ensino remoto, afirmou com firmeza que se algum estudante fosse excluído a UFPA não adotaria esse ensino.

Infelizmente não há democracia dentro das nossas universidades! Ainda temos que lutar muito para que efetivamente a democracia seja uma questão fundamental dentro da universidade. Conquistamos a gestão democrática na Constituição Federal mas, lamentavelmente, as práticas que existem na universidade ainda são práticas autoritárias, vinculadas à política do balcão, ao toma-lá-dá-cá, a interesses de poder. Infelizmente é o que estamos vendo acontecer em quase todas as universidades públicas do nosso país.

Qual a tarefa que trabalhadores e estudantes da educação superior devem tomar para reverter esta situação?

VJ: A tarefa dos trabalhadores e estudantes é a luta! Só nos resta a luta, a denúncia, usar os próprios espaços das redes sociais para denunciar isso que está ocorrendo nas nossas universidades públicas. Denunciar a exclusão de milhares de estudantes desse processo, denunciar que por trás do discurso da inclusão que as universidades fizeram, estão hoje desenvolvendo a exclusão efetivamente. A adoção do Ensino Remoto evidencia que o processo de inclusão que houve nas universidades não foi aceito por todos e que, na oportunidade que estão tendo agora de excluir, estão fazendo isso de forma descarada.

O que a gente precisa fazer é lutar como os estudantes estão fazendo, é mobilizar nas redes sociais, é continuar a denúncia, é ficar acompanhando esse processo e denunciando; e é lutar também para que a universidade utilize os recursos públicos para dar as condições necessárias para que os estudantes efetivamente possam acompanhar as atividades remotas. Então só nos resta continuar ocupando os espaços para denunciar o que está acontecendo nas nossas universidades e não deixar que elas sejam destruídas totalmente, porque é isso que interessa ao governo Bolsonaro e é esse papel triste, ridículo, que os reitores e que alguns professores estão fazendo. Denunciam, criticam o governo Bolsonaro, mas estão fazendo o serviço que interessa para o governo, que é privatizar as universidades, promover a exclusão social da classe trabalhadora, dos jovens pretos, dos indígenas, dos quilombolas e de toda a população pobre desse país que conseguiu ter acesso à universidade pública depois de muita luta.

 

(Originalmente publicado no jornal Combate Socialista n°6, digital)

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