Ensino remoto nas universidades: reitorias e governo prometeram inclusão, mas vão entregar cortes de verba

Cindy Ishida, vamos à luta

Celso Cabral, DCE UFPA (oposição de esquerda)


Com a aprovação e o início da implementação do ensino remoto nas IFES, várias universidades retomam seus calendários letivos se propondo a cumprir um ano de aula em seis ou sete meses. Também se anunciam bolsas de “inclusão digital”, mas os valores têm sido insuficientes para as necessidades dos estudantes.

Após a interrupção das aulas, vários estudantes voltaram para a casa dos seus familiares na área rural, que às vezes sequer tem cobertura de sinal telefônico. Além disso, os professores têm tido dificuldade de lidar com as plataformas, já que a capacitação se deu de forma apressada, e os estudantes com deficiência sofrem com a falta de políticas de acessibilidade e inclusão.

Outro problema tem sido a infraestrutura técnica das próprias universidades. Na UFMG, por exemplo, o sistema Moodle tem tido muita instabilidade. Na UFRJ, foi necessário adiar o início do semestre em 14 dias, porque não houve a entrega dos chips de internet comprados pela universidade.

No mundo real, a busca pela conciliação entre ensino remoto e “medidas de combate à desigualdade nas condições de ensino e aprendizagem”, como propõe o documento da UNE Em defesa da vida e do direito de estudar, vem se comprovando como uma medida totalmente equivocada que desmobiliza o movimento estudantil e favorece a precarização. A direção majoritária da UNE faz coro com o discurso de “novo normal”, presente na política genocida de Bolsonaro e dos governadores, ao concordar com a abertura de laboratórios para uso de computadores e outras medidas de ensino híbrido.

Se por um lado a direção da UNE, junto com coletivos da oposição, defendia que era necessário retomar as aulas em modo remoto ou híbrido para impedir novos cortes, o governo Bolsonaro já prepara uma tesourada no orçamento das universidades, anunciada no início de agosto: serão R$ 1,4 bilhão a menos no orçamento de 2021. O Plano Nacional de Assistência Estudantil será duramente atingido.

Outra prova dos erros da política da direção majoritária da UNE se deu na UFF, onde concordaram com a aplicação do Ensino Remoto Emergencial (ERE) para posteriormente discutir emendas. Com o ERE já aprovado, a reitoria da UFF rejeitou todas as demandas apresentadas pelo movimento estudantil.

Infelizmente, os coletivos da oposição (Juntos, Afronte, Correnteza, UJC, etc.) também têm tido uma política vacilante sobre o ERE, como observamos na UFPA durante o Colegiado do Instituto da Educação (ICED), onde a abstenção de voto do CA de Pedagogia (dirigido pelo Correnteza) foi decisiva para a aprovação de posicionamento favorável ao ERE. Também na UFPA, o Juntos lançou nota defendendo que “uma saída seria que pudesse flexibilizar somente aos formandos e garantir atividades remotas emergenciais a quem precisa ter vínculo de matrícula para continuar fazendo parte de programas de assistência estudantil, enquanto a universidade se prepara e busca recursos de forma ampla”. Linha parecida também tem sido defendida pelo Afronte.

Reunião nacional aponta o caminho: enfrentar o ERE com lutas e mobilizações

Com o apoio ao ensino remoto por parte da direção majoritária da UNE e, em muitos casos, da oposição, as lutas contra o ERE têm se dado pela base nas universidades, a partir dos CAs e DAs. Porém, faz falta uma articulação nacional para combater esse ataque do governo e das reitorias, papel que a UNE se negou a assumir.

Foi reconhecendo essa necessidade que estudantes de 15 universidades públicas de todas as regiões do Brasil organizaram uma reunião para impulsionar um movimento nacional contra o ERE. A Juventude Vamos à Luta foi parte dessa construção, batalhando por ações comuns e por um manifesto nacional que aponte a necessidade de derrotar o ERE, os cortes e o projeto privatista de Bolsonaro para a educação. Uma nova reunião será realizada no dia 25/08.

Acreditamos que existem duas necessidades urgentes para o movimento estudantil. A primeira é romper com a paralisia e retomar as lutas e ações concretas para pressionar o governo, a exemplo dos atos que começam a ocorrer nas universidades, como o protesto contra o ERE na reitoria da UFF ou na Unicamp, onde estudantes e trabalhadores protestaram contra a demissão de terceirizados.

Essa luta, além de ser nacionalizada, precisa se dar em unidade com as outras categorias, como vimos na UFPA, onde professores, técnicos e estudantes lançaram um importante manifesto e têm se articulado para impedir que o ERE seja votado. Também foi importante o posicionamento do ANDES-SN, divulgado na última semana.

A segunda necessidade é a batalha por uma nova direção para o movimento estudantil, fortalecendo e rearticulando um campo nacional da oposição de esquerda, composto por CAs, DAs, coletivos de esquerda e grupos estudantis, e que ponha em prática o que a direção majoritária da UNE tem se negado a fazer: apontar o caminho das lutas e da organização e não se limitar a barganhar migalhas com o governo da extrema direita. Os coletivos de oposição precisam ser parte dessa construção.

É preciso exigir que a UNE e a ANPG mudem sua postura de barganha e que construam uma campanha nacional contra o ensino remoto e os cortes nas IFES, com dias de luta nacionalizados e a realização de assembleias para construir, pela base, essas mobilizações.

A luta pelo fora Bolsonaro/Mourão está conectada à luta em defesa da educação e contra o ERE. Por isso, mobilizar é necessário. Exigimos mais verbas para educação e não para o pagamento da dívida pública! Defendemos que seja criado um plano emergencial de assistência estudantil e que nenhum(a) estudante fique para trás.

(publicado originalmente no jornal combate socialista n°6, digital)

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