Trotsky: vida e legado revolucionário

Por Francisco Moreira
Tradução: Lucas Schlabendorff


Em 21 de agosto de 1940, Leon Trotsky foi assassinado por um agente estalinista. Trotsky foi um dos principais dirigentes revolucionários do século XX. Junto com Lênin, liderou a primeira revolução socialista vitoriosa da história. Com seu assassinato, Stálin tentou cortar o fio vermelho da continuidade histórica da luta operária revolucionária. Neste primeiro artigo, relembramos sua impecável trajetória revolucionária, tantas vezes falsificada, e a vigência do seu legado.

Em 26 de outubro de 1879, em uma aldeia perto de Odesa (Ucrânia, que era parte do império dos czares da Rússia), nasceu Leon Davidovich Bronstein, mais conhecido como Trotsky. Muito jovem, já se tornou marxista. O regime czarista rapidamente o prendeu e deportou para a Sibéria. Se uniu formalmente ao Partido Operário Socialdemocrata Russo durante a sua fuga da Sibéria, somando-se à organização orientada pelo Iskra, o jornal dirigido por Lênin. Em seu exílio na Europa, Trotsky continuou forjando sua atividade e espírito revolucionários.

Dirigente na revolução de 1905 e internacionalista consequente

Em março de 1905, retornou à Rússia com o início da revolução. As greves operárias e as revoltas no campo se estenderam durante todo o ano. Em junho, marinheiros do encouraçado “Potemkin” se amotinaram, se negando a continuar a guerra iniciada com o Japão. Em outubro iniciou a greve geral e nasceram os sovietes (conselhos) de operários, embriões do governo revolucionário. Trotsky foi o máximo dirigente do soviete de São Petersburgo, capital do império.

Em seu balanço da revolução de 1905, formulou pela primeira vez a sua “teoria da revolução permanente”. Afirmava que a única classe capaz de liderar a revolução democrático-burguesa e transformar as condições de vida no campo era a dos operários das cidades, acaudilhando o campesinato pobre, e não a burguesia. Não houve duas etapas na revolução da atrasada Rússia czarista. Os trabalhadores, ao tomar o poder, introduziram desde o começo a luta por suas demandas contra a patronal, transformando essa revolução em socialista e dando impulso à revolução internacional.

Durante seu segundo exílio, Trotsky foi parte também da minoria internacionalista que, junto com Lênin, Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, rechaçou a traição da Segunda Internacional que apoiou a guerra interimperialista em 1914. Trotsky observava que a guerra nascia das entranhas do capitalismo imperialista decadente, e prognosticava que “os anos vindouros presenciarão a era da revolução social”.

Seu papel na revolução de outubro e no governo dos sovietes

Em fevereiro de 1917, voltou a explodir a revolução na Rússia. A revolução derrubou o regime czarista e o governo foi assumido por uma coalizão da burguesia liberal e partidos reformistas. Mas, ao mesmo tempo, ressurgiram os sovietes desafiando seu poder.

Trotsky conseguiu retornar para a Rússia em maio, foi incorporado na condução do soviete de Petrogrado (antiga São Petersburgo) e ingressou ao Partido Bolchevique de Lênin. A revolução permitiu uma rápida convergência entre ambos os dirigentes. Lênin havia conseguido que o partido não desse seu apoio ao governo provisório burguês e assumisse a luta por um governo operário, apoiado nos camponeses, o que seria o prelúdio da revolução socialista internacional. Os bolcheviques, com Lênin e Trotsky, foram ganhando cada vez mais peso e conseguiram a maioria nos sovietes, sendo os únicos que defendiam de maneira consequente os interesses dos operários, camponeses e soldados, nos sovietes e nas lutas. Finalmente, Trotsky foi designado responsável pelo Comitê Militar Revolucionário do soviete que organizou a tomada do poder em 24 de outubro. Se consumou assim a primeira revolução operária e socialista vitoriosa da história.

Com os sovietes e o Partido Bolchevique no poder, Trotsky foi designado Comissário de Relações Exteriores, encarregado de levar adiante as delicadas negociações de paz com a Alemanha. Com o desatar da guerra civil (1918-1921) foi designado Comissão de Guerra, com a tarefa de criar e conduzir o Exército Vermelho, que enfrentou e venceu o Exército Branco, a coalizão de exércitos da reação burguesa russa e de países imperialistas.

Fundação da Quarta Internacional e seu legado

Os bolcheviques apostavam no desenvolvimento da revolução socialista internacional, começando pela Europa, que estava sacudida por uma onda revolucionária. Em março de 1919, fundaram a Terceira Internacional. Trotsky foi encarregado de redigir seu manifesto, chamando a “união de todos os partidos verdadeiramente revolucionários do proletariado mundial para facilitar e apressar a vitória comunista no mundo inteiro”.

Mas as revoluções na Europa não conseguiram triunfar, pelo peso e as traições da socialdemocracia, além da inexperiência dos nascentes partidos comunistas, deixando a URSS isolada e debilitada. Essa situação foi fatal para o regime revolucionário leninista de democracia operária e internacionalista. Foi se consolidando uma burocracia no partido e nos sovietes. Lênin e Trotsky combateram a burocratização. Mas a morte de Lênin, em 1924, acelerou o processo encabeçado por Stálin e a burocracia, que impuseram a conciliação com as burguesias e o imperialismo, rompendo com todo o verdadeiro internacionalismo.

Trotsky se opôs e foi alvo dos ataques e das falsificações estalinistas. Expulso do partido e da URSS, seguiu denunciando a liquidação da política revolucionária e da democracia operária. Após o ascenso do nazismo ao poder, permitido pela desastrosa política estalinista na Alemanha, Trotsky chamou a combater essa burocracia construindo novos partidos revolucionários e a Quarta Internacional, que retomou a tradição dos primeiros anos do regime leninista e da Terceira Internacional em seus quatro primeiros anos.

Em 1928, junto com um punhado de revolucionários, fundou a Quarta Internacional com o objetivo de unir ferreamente os revolucionários ao redor de um programa, o Programa de Transição, que sintetizava a experiência do movimento marxista desde a época de Marx e Engels e, especialmente, desde a Revolução Russa. Uma organização e um programa para ajudar os revolucionários a intervir com a perspectiva de tomar o poder, conquistar novos governos operários e populares com democracia operária e avançar na revolução socialista em todo o mundo. Com o assassinato de Trotsky em 1940, Stálin buscou eliminar a única possibilidade de direção revolucionária, sintetizada na trajetória e experiência revolucionária de Trotsky. Seu desaparecimento significou um abrupto vazio de direção.

A luta de Trotsky e sua impecável moral revolucionária merecem ser difundidas. Sua confiança na classe operária e sua abnegação na construção do partido revolucionário teve seus continuadores. Nahuel Moreno, mestre e fundador de nossa corrente, que qualificou a criação da Quarta Internacional como “o maior acerto de Trotsky”, manteve suas bandeiras bem altas, as mesmas que resgatamos hoje com o Izquierda Socialista e nossos partidos irmãos da Unidade Internacional de Trabalhadoras e Trabalhadores – Quarta Internacional (UIT-QI), continuando a luta para unir os revolucionários e reconstruir a Quarta Internacional.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *