Escolas fechadas, vidas preservadas

Bárbara Sinedino – diretora do SEPE/RJ e Coordenação da CST
Bianca Damacena – professora da rede estadual RS e Coordenação da CST


A crise da COVID-19 no Brasil segue descontrolada. Os governos federal, estaduais e municipais não garantiram quarentena para a classe trabalhadora, que foi forçada a se manter trabalhando, se expondo ao coronavírus.  Agora esses governos querem reabrir as escolas e colocar em risco a vida das trabalhadoras da educação, dos estudantes e da comunidade escolar. Se hoje estamos muito acima dos 100 mil mortos e de 3 milhões de infectados, é porque o lucro dos empresários está acima da vida. E é esta a razão para que governos queiram reabrir escolas. É a lógica da escola como depósito de crianças para que os pais estejam liberados para voltar ao trabalho.

As pesquisas sobre o tema são unânimes em afirmar que o risco de contágio para professores, funcionários e alunos é grande. Nos EUA, país com maior número de infectados e de mortos, mais de 800 estudantes e funcionários, só no estado da Georgia, precisaram ser colocados em quarentena depois que um estudante testou positivo para COVID-19 apenas 1 semana após o retorno às aulas.

Alguns estudos apontam que poderia ser seguro reabrir escolas apenas onde não há grandes surtos da doença, mas que seria necessário manter medidas como distanciamento social e testagem em massa. Algo que inexiste no Brasil.

Além de sermos o segundo país com maior número de infectados e uma curva em ascensão praticamente infinita, nossas salas de aula são lotadas, não há investimento nem para compra de insumos para limpezas pesadas e constantes, muito menos para contratação de novas funcionárias da faxina. No Rio de Janeiro o Vereador Babá (PSOL) presidiu a CPI sobre as condições de trabalho nas escolas municipais do Rio de Janeiro, e expôs a realidade delas reforçando o caráter trágico da reabertura das escolas que o prefeito Crivella pretende fazer. No RS, o governador Eduardo Leite (PSDB) tentou fazer com que as direções usassem recursos da autonomia financeira para comprar EPIs, porém não repassa o dinheiro em dia há muito tempo. Sobre a testagem, nem mesmo os profissionais da saúde, que estão diariamente expostos à doença são testados com frequência.

Agora, governadores e prefeitos tentam dar seguimento à uma agenda de retorno às aulas em vários locais. Por exemplo, no Rio de Janeiro, Witzel (PSC) já reabriu as escolas estaduais para atividades administrativas e determinou que as escolas particulares retomam as aulas a partir do dia 14 de setembro e as públicas em 5 de outubro. Ainda no Rio, Crivella reabriu as escolas municipais para atividades internas e prepara a retomada das aulas. Em São Paulo, o governador Dória (PSDB) tentou duas datas de retorno, mas fracassou. Agora, ele está tentando avançar com alternativas do tipo rodízio entre alunos em que parte fica em casa, enquanto os outros vão para a escola. Entretanto, essa medida também não encontra eco. Houve uma consulta geral em que todas as escolas reuniram os conselhos para voltar a favor ou contra o retorno em outubro e a grande maioria optou por permanecer fechada.

Até mesmo nos estados cujos governos se venderam como a trincheira de resistência, a volta às aulas em meio à pandemia está sendo aventada para agradar empresários. No Maranhão, o governador Flávio Dino (PCdoB), autorizou o retorno às aulas presenciais nas escolas particulares e municipais a partir de 3 de Agosto e já foram registrados novos casos de infecção e até mesmo mortes por conta deste retorno prematuro. No Ceará, Camilo Santana (PT) propõe reabrir as escolas de forma gradual até outubro, incluindo a implementação do questionado ensino híbrido. Isso prova que os partidos ditos de esquerda têm uma atuação bastante semelhante à de Bolsonaro e governadores de direita.

A forma como o retorno às aulas está sendo imposto é uma prova de que o que menos importa nesse momento é o aprendizado das crianças. Propõem o ensino híbrido para responder à questão da superlotação das salas de aula e ao distanciamento como forma de prevenção, mas ignoram que uma grande parte da população não tem acesso à internet e que desde o início da pandemia estamos “empurrando com a barriga” um ano letivo fake. Porém, a despeito de toda a tentativa dos governos, 78% da população é contra a volta às aulas nesse momento, conforme pesquisa do DataFolha.

A CNTE, que deveria cumprir o seu papel e mobilizar todas as trabalhadoras da educação para resistir à imposição do retorno às aulas, não o faz porque os partidos que a dirigem (PT e PCdoB), estão aplicando políticas semelhantes a de Bolsonaro.

Para nós do Educação em Combate e da CST-PSOL, é preciso preparar uma greve nacional da educação para impedir que as escolas retomem as aulas neste momento e também para suspender o ano letivo. Precisamos também nos mobilizar pela revogação da PEC do Teto dos Gastos (EC95) e pela suspensão do pagamento da dívida externa, pois seria uma forma de canalizar dinheiro do nosso PIB tanto para o combate ao coronavírus, para garantir quarentena geral para toda a classe trabalhadora, sem perda de direitos, e também para investir em áreas como educação, saneamento básico, entre outras.

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