Justiça burguesa à serviço dos estupradores

A CST/MG PEDE JUSTIÇA A MARIANA FERRER

Por Sabrine Rafaela, estudante de Geografia da UFMG e da Juventude Vamos à Luta

15.12.2018 Florianópolis, Santa Catarina. Não é nada fácil ter que vir aqui relatar isso. Minha virgindade foi roubada de mim junto com meus sonhos. Fui dopada e estuprada por um estranho em um Beach Club dito seguro e bem conceituado da cidade, aonde eu era embaixadora e pensava se tratar de um local idôneo, por isso aceitei o convite para trabalhar lá. O agressor, não se aproximou de mim quando eu estava lúcida. Eu não tenho lembranças dele. Fui levada para um lugar desconhecido por mim e acredito que também seja para a grande maioria das pessoas que lá frequentam. A investigação da polícia descobriu se tratar de uma área privativa que só tem acesso quem paga muito ou os proprietários. Nenhuma das pessoas que me acompanhavam no dia me socorreu, pelo contrário, me abandonaram, negaram meus pedidos de socorro, e todas as provas levam a crer que compactuaram para que o estuprador pudesse agir. Uma eu considerava minha amiga, ela por já conviver comigo a mais tempo sabe o tipo de pessoa que eu sou e o que abomino, sabe que o combinado quando nós saiamos era voltarmos juntos, sabe que sou altamente alérgica. No depoimento ela diz que eu tive um momento de euforia e depois passei mal, e que foi preciso me dar água. Questiono em minha cabeça, por que você não ligou para emergência ou para minha mãe? (…) Por que me deixou sozinha para que alguém pudesse me fazer mal? Por que quando pedi socorro você teve a frieza de não me ajudar e NUNCA fez uma ligação para saber se eu estava viva? Altas doses da droga, causa euforia, mas em combinação com o álcool por ex. pode levar ao coma e até matar. Eu tomei uma dose de GIN, como consta na minha comanda e filmagens que tenho. Todas as embaixadoras ganham um cartão p/ consumo e eu sempre fiz questão e achava mais seguro usá-lo e pegar bebida direto no bar. Mas que fique claro: Uma pessoa que está dopada ou bêbada não tem condições de dar seu consentimento, ficando altamente vulnerável (…) isso são chamadas “DROGAS DO ESTUPRO”. Não existe desculpa para violência sexual. Fazer qualquer ato libidinoso/ter conjunção carnal com mulher embriagada ou dopada é considerado, segundo a lei, estupro de vulnerável, CRIME. Portanto, precisa ser denunciado e seus autores punidos. Consegui chegar em casa graças a Deus. Minha mãe ao ver meu estado, tirou minhas roupas e se deparou e se deparou com a pior cena da vida dela, minhas roupas estavam manchadas de sangue e odor forte de esperma. Eu estava estreando aquela roupa e o vestido de cima que é de renda estado todo desfiado. O estrago foi grande, físico e emocional. Danos psicológicos que infelizmente só quem também é a vítima pode mensurar. 

(…) Tive que tomar por 30 dias um coquetel de remédios para evitar doenças, os efeitos colaterais eram tão fortes que me faziam vomitar. Eu tinha que me forçar a aguentar pelo menos de duas a três horas após tomar toma-los para não cortar o efeito e por isso as vezes engolia meu próprio vômito. Nunca imaginei que eu passaria por isso na minha vida. Tenho pesadelos horríveis que me fazem dormir só depois do dia clarear, sentia dores fortes para urinar, dores no corpo, entre as coxas. Em contra partida, vejo a polícia civil empenhada em proteger apenas o criminoso e o local do crime por se tratar de pessoas de “poder e dinheiro”. Aonde está o apoio devido a vítima e sua família que são devastados por tamanha crueldade? Depois que descobriram quem é o estuprador e qual o local do crime, o tratamento comigo e com minha família mudaram. É como se cada pessoa estivesse sendo corrompida e eles quisessem enrolar o inquérito para desistirmos de lutar por justiça. A sensação é de estar em um filme de terror. Demos todas as provas para elucidar o crime mas está havendo obstrução do inquérito policial, a 5 meses o inquérito não fecha. Já foi denunciado em todos os órgãos cabíveis e nada. O primeiro delegado e escrivão saíram do caso. Entrou uma delegada e ela saiu de férias por 30 dias. Os depoimentos que dei foram deturpados, minha data de nascimento está errada. Os laudos foram manipulados. (…)  Um delegado que já não estava no  caso entrou dentro de casa sem mandado. Eu estava com minha irmã mais nova que foi quem abriu a porta, ele não interfonou, perguntou a mim se eu tinha mais provas e com quem estava. Meu pai chegou logo em seguida causando espanto no delegado. A pedido do meu pai, ele se retirou e eles conversaram do lado de fora. Não forneceram as câmeras das áreas comuns do Beach Club, eles alegam que não há câmeras. Forneceram 2 filmagens e algumas imagens da escada do “matadouro” que fui levada pelo estuprador. Pedi a delegada cópias dos autos do inquérito e ela disse que me enviaria, aguardo desde o dia (…) de abril e nada foi enviado ainda. Dia 15 de abril a investigadora e o escrivão disseram que a delegada saiu de férias por 30 dias. Desde então nunca mais conseguimos contato com ela, até o acesso pelo meu advogado está sendo negado para acessar o inquérito. Poderia ficar horas falando de tudo de errado que está acontecendo com as investigações. Mas DEUS é tão incrível, tenho todas as provas para elucidar o crime. Sempre tive boa índole e postura e isso ninguém muda, e NINGUÉM tira de mim. A verdade é única. Estou HORRORIZADA com a justiça de FLORIANÓPOLIS e em como eles se empenham em encobrir crimes e passar uma falsa imagem da cidade.”

Esses são um dos relatos da modelo e influencer Mariana Ferrer que foi dopada, estuprada, humilhada pelo advogado do acusado e teve o seu abusador inocentado em 09/09/2019.  Mariana se viu forçada a se expor a público e divulgou o seu caso em maio de 2019, por meio de uma conta no Instagram em que tinha mais de 180 mil seguidores, para dar visibilidade as omissões e contradições da polícia no caso e pedir por um clamor popular. O resultado, foi a sua conta suspensa no Instagram por ordem da justiça.   Ela conseguiu reunir o seu vestido com sangue, o depoimento do motorista que a levou em casa e que disse que ela parecia estar sob algum efeito de droga, imagens de seu estuprador a levando por uma escada acima no dia 15/12/2018. Ela ainda tinha como prova o sémen do seu estuprador na calcinha, os áudios em que pede ajuda para os amigos, e o depoimento contraditório da vítima, que disse primeiro não ter tido contato com a vítima, mas depois anarrou atos libidinosos com a vítima mas continuou negando eu havia tido conjunção carnal. Ele a acusou de incriminá-lo por motivações financeiras, sendo que a vítima já havia dito que não se lembrava do rosto do abusador.  A polícia é quem descobriu sua identidade e ele se prestou a ir a delegacia dar depoimento antes de ser convocado.

 O acusado é André Camargo de Aranha de 43 anos, que além de ser branco, é empresário, amigo de jogadores de futebol conhecidos, amigo dos donos do Beach Club Café de La Musique localizado em Florianópolis, e filho de advogado da rede globo. E foi diante desse currículo, que o juiz Rudson Marcos, da 3ª Vara Criminal de Florianópolis, absolveu André Aranha, que validou os argumentos da defesa do criminoso de que não havia provas suficientes e que era “ melhor absolver cem culpados inocentar cem culpados do que condenar um inocente”. São palavras duras de ouvir, em um país onde a cada onze minutos, uma mulher é estuprada.

Nós da CST/MG repudiamos esse tipo de tratamento da justiça frente a uma vítima, que teve laudos e fotos manipuladas e apresentadas ao júri para parecer uma mulher desmoralizada, como se fosse justificativa para um crime tão hediondo. Reforçamos um caráter machista, misógino e racista da justiça brasileira que possui caráter elitista e condena negros a todo momento a grandes penas de prisão mesmo em casos de ausência de provas.  E tal caráter exclusivo, nos mostra mais uma vez que os pobres e as mulheres desse país estão delegados a própria sorte frente a uma injustiça que ignora o acusado diante de seu poder aquisitivo. Portanto, exigimos que novos delegados e promotores assumam o caso e ele seja revisto, que o advogado de defesa da vítima passe a ser informado e ter acesso a todos os inquéritos, e que o estuprador seja punido da devida forma como prevê a lei em estupro de vulnerável- 8 a 15 anos de cadeia. O rugido de uma haverá de ser ouvida por todas!

” O patriarcado é um Juiz, 

Que nos julga ao nascer 

E nosso castigo

É a violência que não se vê

E nosso castigo 

E a violência que já se vê 

Feminicídio 

Impunidade para o assassino 

Humilhação e espancamento 

Estupro e injustiça 

E a culpa não era minha

Nem onde estava 

 nem como me vestia 

o estuprador era você 

estuprador é você 

Andre Aranha 

Rudson Marcos, juiz machista 

Estado facista 

O estado opressor é um machista estuprador 

O estado opressor é um racista estuprador 

O estuprador era você 

O estuprador é você “

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *