Os negros e o financiamento privado das campanhas

Comissão de Negras e Negros da CST


  1. As históricas mobilizações antirracistas que varreram os Estados Unidos e se espalharam pelos quatro cantos do mundo, após o assassinato de George Floyd, colocaram, a questão do racismo e do seu enfrentamento, no centro das discussões, ao longo dos últimos meses. E, como não poderia deixar de ser, o tema tem ocupado um lugar de destaque também nos debates eleitorais. Não por acaso, nos Estados Unidos, o candidato democrata Joe Biden escolheu a senadora negra Kamala Harris para ser sua candidata à vice-presidência, em uma tentativa evidente de “surfar” na onda dos protestos antirracistas, e angariar algum apoio junto a uma juventude cada vez mais rebelde que tem saído às ruas, e que não via o seu nome com muita simpatia.

No Brasil, a discussão a respeito da luta antirracista e da participação de negros e negras da política institucional, ganhou um novo impulso após o STF decidir que a nova regra elaborada pelo TSE, obrigando os partidos a distribuir de maneira proporcional a verba eleitoral e o tempo de propaganda, entre candidaturas negras e brancas, seja aplicada já nas eleições municipais desse ano, o que foi comemorado por setores da política e do próprio Judiciário, como mais um passo no “combate” à discriminação racial. Fala-se, inclusive, em um aumento inédito no número de candidaturas registradas que se autodeclararam enquanto negras.

É nesse contexto que vem repercutindo, há alguns dias, a polêmica envolvendo Wesley Teixeira, jovem negro, candidato a vereador pelo PSOL em Duque de Caxias (RJ), que tem entre os contribuintes da sua campanha, figuras ilustres do mercado financeiro, como Armínio Fraga – ex-presidente do Banco Central durante o governo de FHC – e herdeiros do banco Itaú, algo que contraria o próprio estatuto do partido. Segundo Wesley o recebimento desse tipo de recurso seria justificável diante da necessidade de eleger candidaturas engajadas no combate ao racismo e à extrema-direita, porém acreditamos que se trata de um erro grave. Se por um lado entendemos que é importante lutar de maneira unificada com todos aqueles setores que reivindiquem a defesa das liberdades democráticas quando estas são atacadas, e o combate a qualquer tipo de discriminação, não é disso que se trata nesse caso, e receber dinheiro de agentes diretos da burguesia, compromete totalmente a independência política de um partido, movimento, ou mesmo de um mandato. Como diz o velho ditado, “quem paga a banda, escolhe a música”, e a música que Armínio Fraga, Beatriz Bracher e os irmãos Moreira Salles do Itaú, bem como outros setores empresariais que se vendem como “progressistas”, querem tocar, é o velho canto da sereia, que diz que é possível haver um capitalismo mais humano, diverso e inclusivo, e que para isso basta alguns pequenos ajustes na sua fachada, sem que a estrutura precise ser tocada.

  1. O argumento de Wesley, de que seria válido receber dinheiro de figuras como essas, em nome da luta contra o bolsonarismo e o racismo, especialmente em uma conjuntura de “cruel ameaça a direitos básicos e aumento da violência contra os mais pobres”, parece ignorar que toda a política de retirada de direitos implementada por diferentes governos e intensificada pelas mãos de Paulo Guedes, Bolsonaro e Rodrigo Maia, serve justamente à manutenção e à ampliação dos lucros obscenos dos banqueiros e dos especuladores. Esse é o verdadeiro motivo por trás de ataques brutais como a Reforma Trabalhista, a EC do Teto dos Gastos, a Reforma da Previdência, e mais recentemente, a Reforma Administrativa que quer extinguir os serviços públicos, tudo em nome do pagamento dos juros da Dívida Pública, para onde também escoa todo o dinheiro que deveria ser investido em saúde e proteção social para enfrentar a Pandemia do novo Coronavírus.

Ao mesmo tempo, a luta contra o bolsonarismo e as ameaças da extrema-direita às liberdades democráticas, se dá nas ruas, através de mobilizações como as que encabeçaram as torcidas Antifascistas e a juventude negra há alguns meses. Esse é o terreno onde deve-se materializar a unidade de ação contra o autoritarismo, não em acordos e compromissos políticos com quem defende interesses irreconciliáveis com os da nossa classe.

Não há capitalismo sem racismo

“Não se pode ter capitalismo sem racismo”, a conhecida frase proferida por Malcolm X, uma das principais figuras do movimento negro internacional, há mais de 50 anos, denuncia a relação estrutural entre o racismo e o capitalismo. O racismo é um subproduto do sistema capitalista imperialista, e tem sido utilizado por este há séculos para se sustentar e para legitimar tanto a exploração e a opressão de trabalhadoras e trabalhadores, quanto o saqueio que as grandes potências promovem contra diferentes países periféricos, inclusive do continente africano. Além disso, é sempre bom lembrar que o sistema escravista está na base da acumulação primitiva de capital, ou seja, o capitalismo já nasceu com o “pecado original” da opressão e do massacre do povo negro e indígena.

É o racismo enquanto arma ideológica do capitalismo que ajuda a naturalizar o fato de serem os negros (e as mulheres negras, sobretudo) os que ocupam os piores postos de trabalho e os que recebem as menores remunerações. É graças ao racismo, a serviço dos aparelhos repressivos do Estado, que é encarado quase de maneira banal o genocídio da juventude negra no Brasil, e o encarceramento em massa de negros e pobres, sob o discurso fajuto de combate ao tráfico de drogas. A própria política de erradicação de direitos trabalhistas e sociais, de privatização, e de sucateamento dos sistemas públicos de saúde e educação, da qual os banqueiros e os grandes empresários são os maiores entusiastas, atinge especialmente os trabalhadores e as trabalhadoras negras do país.

Sendo funcional ao modelo capitalista, o racismo, assim como o machismo, por exemplo, não pode ser erradicado nos marcos desse sistema, e muito menos de mãos dadas com aqueles que se beneficiam diretamente com ele. É por isso que é impossível pensar em uma verdadeira luta antirracista que não seja, por consequência, anticapitalista. Citando mais uma vez Malcolm X, “Não se tem uma revolução quando se ama o inimigo; não se tem uma revolução quando se está implorando ao sistema de exploração para que ele te integre. Revoluções derrubam sistemas, revoluções destroem sistemas.”

  1. O papel das lideranças negras e a necessidade de uma estratégia revolucionária

A população negra foi alijada de todos os espaços da sociedade brasileira, os direitos sociais como educação, trabalho, saúde e moradia nos foram negados no período pós-abolição. Os negros tornaram-se livres das araras, mas reféns de uma nova classe social.

A politica estatal de embranquecer a sociedade pode ser verificada na importação de mão de obra europeia, mesmo depois de tantas lutas para acabar com a escravidão, os trabalhadores negros entraram tardiamente no mercado de trabalho e quando entraram, foram designados papéis sociais sem perspectiva de vida. As origens do racismo estrutural no país pavimentou o caminho para que a maioria da população não se visse representada na novela, no jornal, nos filmes, no trabalho intelectual, tampouco na politica institucional.

É progressivo todo o questionamento que fazemos e a batalha para estar em lugares que nos foram negados, inclusive no parlamento, mas devemos nos perguntar sempre quem são os nossos aliados. Nesse caso a burguesia e seus agentes (presidentes, senadores, juízes, deputados, prefeitos e vereadores) através dos partidos patronais são aqueles que se beneficiam do racismo, são aqueles que enfrentamos nas greves, passeatas, ocupações, seus interesses são opostos aos nossos e irreconciliáveis. Acreditar que o vale-tudo eleitoral sem princípios será um avanço para a luta antirracista é ilusão, é preciso ter os dois pés fincados no chão defendendo as pautas negras que são incompatíveis com banqueiros “aliados”, sobretudo numa conjuntura onde o movimento antirracista obriga as velhas raposas a se adaptarem, o grande objetivo dos nossos inimigos é cooptar as principais lideranças do movimento negro para a roda para evitar um Black Lives Matter no país. E o papel das lideranças negras é não se perder nas amarras da conciliação de classes, mantendo firme a luta antirracista com a luta anticapitalista (ou seja contra os governo capitalistas, contra os banqueiros, contra os empresários e o imperialismo).

3.1-A luta antirracista na união de todos os explorados e oprimidos

É urgente fortalecer uma estratégia revolucionária para o movimento negro no Brasil, presente nas pequenas e nas grandes lutas, soltar a mão dos nossos inimigos que nunca deveríamos ter apertado, como fizeram os libertos de maioria nagô na Greve Negra na Bahia, levando os jornais da época ao desespero por temer uma Bahia “governada por africanos”. É retomar a luta dos quilombos ou da revolta da chibata. Historicamente a política de conciliação de classes, de unidade com burgueses, sempre significou o abrandamento das pautas antirracistas, além da capitulação a governos que massacravam o povo negro. No Brasil, por exemplo, as pautas negras ou feministas, foram rifadas no governo de conciliação de classes do PT em nome da governabilidade, dos pactos com o “centrão”, com os fundamentalistas e os fazendeiros da CNA.

A luta direta, como fizemos nos atos antirracistas de maio junto as torcidas antifascistas, é o caminho para enfrentar a extrema direita, o governo capitalista de Bolsonaro, os governadores racistas, a repressão da PM, defender nossas liberdades democráticas e nossos direitos econômicos e sociais. Através da luta unificada, como fizemos no breque dos Apps, junto as lutas feministas ou nas greves, podemos enfrentar a retirada de direitos, o racismo e a exclusão social que a burguesia e seus governos tentam aprofundar. Nossos aliados são os movimentos ambientalistas que protestam contra as queimadas juntos aos povos indígenas, são os camponeses que lutam contra o agronegócio e os ribeirinhos contra o hidronegócio, são os movimentos LGBTs. No RJ, onde o debate do financiamento está mais forte, devemos é fortalecer o movimento em defesa dos direitos das terceirizadas, apoiando o exemplo das merendeiras e porteiros. Além de manter as campanhas em defesa das lutas dos garis. E é justamente por isso que nas eleições, as vozes negras devem se expressar com independência dos patrões e dos banqueiros, para o qual é uma necessidade não ser financiando pelos capitalistas. Estar em espaços institucionais têm que estar a serviço de ajudar a construir, organizar e desenvolver as lutas de quem se choca com os patrões, convive com o abandono e rala muitas vezes cumprindo o papel do estado nas quebradas. Nós socialistas negra e negros da CST estamos a serviço dessa batalha.

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