Nossa posição frente às eleições presidenciais dos Estados Unidos

Por Socialist Core – Núcleo Socialista (UIT-CI), Estados Unidos.

Publicado originalmente em <https://bit.ly/2I190VQ>, 29 de outubro.

Tradução: Manu Sousa


As próximas eleições presidenciais nos Estados Unidos acontecem durante um momento crucial da história. Atualmente o sistema econômico capitalista enfrenta uma das suas piores crises. A crise ecológica do nosso planeta  tem ido de mal a pior, já que o capitalismo é incompatível com a sustentabilidade ambiental ou social. A pandemia do covid-19 está tendo um impacto gigante entre os pobres e milhões de marginalizados que tem um acesso restrito à saúde, que estão perdendo seus empregos e sendo expostos aos maiores riscos. A crise da saúde está sendo gestada há anos e, como resultado da resposta tão débil do governo à pandemia, mais de 8,7 milhões de pessoas foram infectadas e 225 mil morreram nos Estados Unidos.

A eleição de Donald Trump em 2016 foi um ponto de inflexão na política estadunidense, já que refletiu um processo crescente de polarização. Encorajou a direita e os fascistas, mas não impediu o contra-ataque da classe trabalhadora e das comunidades negra, latina e de imigrantes. O movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) e milhões de pessoas responderam ao brutal assassinato de George Floyd com o maior movimento de massas visto desde a década de 1960. Um movimento amplo desafiou o racismo e a brutalidade policial apesar da repressão, exigindo redução no financiamento da polícia e prisão para os policiais assassinos.

O movimento Black Lives Metter (BLM) e o movimento feminista apontam o caminho a ser seguido. Também mostram a necessidade de construir uma organização política que expresse essas lutas, assim com as da classe trabalhadora que, ainda que pesem os obstáculos que impõe a burocracia sindical, tem  participado em centenas de greves esse ano – muitas delas em solidariedade ao BLM. A rebelião anti-racista debilitou a aposta que fazia Trump pela sua reeleição.

Uma reeleição de Trump seguiria sendo uma ameaça para os trabalhadores desse país, encorajando os supremacistas brancos e a extrema-direita, dando continuidade aos ataques contra os direitos democráticos. A maioria das pessoas nos Estados Unidos quer pôr fim ao governo de Trump, que tem beneficiado as multinacionais especialmente. Tal como essa maioria, reconhecemos que o presidente Trump tem se apoiado no racismo para colocar divisões na sociedade e marginalizar ainda mais os afro americanos e os imigrantes. Trump e seus aliados ultraconservaodres também tem impulsionado políticas anti-aborto, o que coloca um retrocesso para os direitos reprodutivos das mulheres. Nós também queremos derrotar Trump e seu populismo direitista. Mas acreditamos que substituir um político reacionário truculento por um político como Joe Biden não é a solução. Como socialistas revolucionários, somos transparentes e advertimos às pessoas que Joe Biden não permitirá avanços significativos contra a exploração capitalista, o racismo e todas as formas de opressão, já que representa o Partido Democrata,  o outro partido capitalista. De fato, os democratas fracassaram na hora de executar uma oposição coerente ao governo Trump. A verdadeira oposição tem vindo das massas mobilizadas nas ruas e é aí onde está  uma alternativa política real de forma embrionária.

Como Trump prometeu não ceder caso perda as eleições, chamamos os trabalhadores a exigir dos seus sindicatos planos de greve caso exista alguma tentativa de fraude do governo e que todos os ativistas se preparem para sair às ruas. Alguns sindicatos, em Seattle por exemplo, estão se pronunciando nesse sentido considerando inclusive a possibilidade de uma greve geral, o que é muito positivo, mas eles têm a responsabilidade de ir além das palavras e passar a organização. Nos estados Unidos, os partidos do capitalismo, o republicano e o democrata respectivamente, seguem à serviço dos interesses dos ricos, e em relação ao mundo aplicam políticas imperialistas. Do jeito que as coisas estão, as eleições presidenciais nos Estados Unidos não oferece nenhuma alternativa política para a classe trabalhadora e suas necessidades cotidianas. Por exemplo, desde o começo da pandemia, em todo o país os ativistas por moradia tem exigido o cancelamento do aluguel. Mas a demanda de cancelamento do aluguel para pessoas que perderam seu trabalho e renda durante a pandemia tem enfrentado resistência tanto do presidente Trump como dos democratas. Se há uma moratória de despejo em curso é pela pressão vinda de baixo.

O sistema eleitoral dos Estados Unidos está desenhado para evitar que as forças políticas emergentes que representam os interesses da classe trabalhadora consigam representação no Congresso e no Senado, já que não há representação proporcional e se impõe uma hegemonia bipartidarista. A eleição presidencial de segundo grau, por meio do colégio eleitoral, viola o princípio de “uma pessoa, um voto”. Além disso, há  práticas de intimidação dos votantes, utilizada pelos republicanos, dirigidas especificamente contra os afro americanos, nativos americanos e outras comunidades oprimidas. É necessário lutar para pôr fim à essas características antidemocráticas do sistema eleitoral dos EUA.

Vivemos em um país rico, que tem recursos suficientes para proporcionar serviços básicos como a moradia e o tratamento sanitário gratuito e universal para todos, assim como o acesso à educação pública e gratuita em todos os níveis. Para conseguir uma verdadeira mudança econômica e social, que coloque as necessidades da classe trabalhadora, da juventude, dos setores populares e marginalizados à cima do lucro, para acabar com o racismo e a repressão, é necessário lutar por um governo da classe trabalhadora. Nessa perspectiva que devemos situar todas as nossas lutas democráticas e sociais atuais, destacando a necessidade de lutar e organizar nas ruas, para além do âmbito eleitoral, e organizarmos uma nova alternativa política, um novo partido movimento da esquerda independente que represente de verdade os interesses da classe trabalhadora, da juventude e do movimento anti-racista. Um passo importante nessa direção seria uma frente unificada da esquerda socialista. A unidade na ação e a realização dos debates necessários ajudariam a construir essa alternativa política para milhões de pessoas que se mobilizaram nesse ano e que seguirão lutando no futuro contra a austeridade, a perda dos postos de trabalho, pelo direito à saúde, contra o racismo e em defesa dos direitos democráticos. Entendemos e respeitamos que milhões de votantes que estarão com Biden-Harris de forma relutante, como um voto contra Trump. Da nossa parte não votamos nem em Trump e nem em Biden, fazemos um chamado ao voto crítico em qualquer um dos candidatos presidenciais da esquerda independente. Também apoiamos o voto para os candidatos da esquerda independente em nível local.

Para além de quem ganhe as eleições, a luta continuará.

New York, 28 de outubro de 2020.

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