Entrevista com Alice Carvalho (PSOL), candidata a vereadora mais votada de Santa Maria/RS

O grande fenômeno das eleições municipais deste ano em Santa Maria/RS ficou por conta da grandiosa votação de Alice Carvalho (PSOL) para vereadora. Alice, uma jovem mulher negra que reivindicou o socialismo durante a campanha, se tornou a candidata mais votada, com 3.371 votos, e infelizmente não se elegeu devido “às regras do jogo”, pois o PSOL na cidade não atingiu o quociente eleitoral.

O fato da candidata mais votada não ter sido eleita gerou muita indignação por parte dos milhares de lutadores e lutadoras que votaram nela enxergando uma alternativa à esquerda nesse processo eleitoral. Nós da CST-PSOL temos orgulho de ter apoiado sua candidatura e contribuído em sua campanha (veja nosso posicionamento para as eleições santamarienses), e, agora, decidimos por fazer uma entrevista com a companheira Alice, através do nosso jornal Combate Socialista, como forma de divulgar a vitória que foi a sua candidatura e também pensarmos os próximos passos da luta socialista após as eleições.


Combate Socialista Alice, em um contexto de grave crise econômica e sanitária do capitalismo e muitos ataques contra a classe trabalhadora, qual você avalia que foi a importância de sua candidatura?

Alice Carvalho — Desde o ínicio da nossa candidatura buscamos construir, de maneira coletiva, uma alternativa radical para a classe trabalhadora. Pensamos em um programa com propostas reais e necessárias para nossa cidade. A partir disso, engajamos muitas pessoas e, de alguma maneira, mostramos que a esperança da população santamariense por uma sociedade sem opressão e exploração podem se refletir em uma campanha eleitoral. Penso que há dois pontos importantíssimos, o primeiro é que fizemos uma campanha forte de denúncia sobre as mazelas que vivemos na cidade e também sobre os partidos burgueses que usam as eleições para garantir sua estabilidade, dominação e que são representantes daqueles que vivem às nossas custas. Além disso, mostramos que a candidatura de uma mulher negra socialista é potente, representa muita luta e, principalmente, a mudança que precisamos. Nós, mulheres negras, somos sujeitos políticos do nosso tempo e isso também precisa ser refletido na disputa eleitoral. Temos como saldo dessa eleição o fortalecimento do nosso projeto, do nosso partido e a certeza de que os sonhos – que não cabem nas urnas – mobilizam muita gente.

CS Recentemente, após o destaque que foi sua votação, circulou bastante a sua declaração para a mídia burguesa local “essa é uma democracia que não nos representa”. Você poderia explicar melhor por que a democracia dentro do capitalismo não te representa e qual é a democracia que você reivindica?

Alice — A democracia dentro do capitalismo não me representa, justamente porque ela é liberal e burguesa. De alguma maneira, ela é construída a partir da perspectiva daqueles setores que nos exploram. Eu reivindico uma democracia socialista! Uma democracia onde, de fato, as pessoas tenham poder de decisão, onde a participação popular não seja meramente algo consultivo, mas sim deliberativo, para que a população incida sobre os rumos da sociedade efetivamente. Dentro do sistema capitalista, isso é impossível!

CS A sua candidatura contou com apoio de diferentes correntes do PSOL, militantes independentes e inclusive com o apoio dos camaradas do PCB. Ou seja, foi para além do PSOL. Neste sentido, qual você avalia que é a importância da construção de uma Frente de Esquerda Socialista para construir uma alternativa de esquerda, tanto nas lutas, como nas eleições? E por que o PSOL de Santa Maria limitou o arco de alianças eleitorais apenas ao PCB e ao PSTU, excluindo PT e PCdoB?

Alice — A Frente de Esquerda Socialista, ao meu ver, surge como um instrumento de uma necessária reorganização da esquerda no Brasil. É preciso construir uma alternativa política que seja radical, que aposte na luta anticapitalista e que, principalmente, seja uma referência para a classe trabalhadora brasileira. Portanto, construir esse polo, além de unificar setores da esquerda radical, é também fortalecer nossa classe e os nossos programas. Em Santa Maria o nosso arco de alianças, aprovado em plenária municipal, apontou a necessidade de não estarmos, por óbvio, ligados a partidos de direita, mas também não estarmos conectados com setores que fazem conciliação de classe, traem as lutas e atacam trabalhadoras e trabalhadores onde governam. Tudo isso partindo de uma perspectiva que devemos ser oposição de esquerda a todos que representam retrocessos e servem a manutenção de um sistema que nos oprime e nos explora, e para isso é necessário independência de classe, coisa que PT e PCdoB, por exemplo não carregam em suas pautas e práticas há muito tempo. Não temos medo de dizer nosso nome e de que lado estamos! O PSOL enquanto instrumento de luta pode ser a base para uma alternativa capaz de apontar para um futuro socialista e para isso não podemos conciliar, rebaixar programa ou aceitar estarmos juntos – especialmente em um processo eleitoral – daqueles que não nos representam.

CS O segundo turno da eleição para a prefeitura em Santa Maria será entre Pozzobom (PSDB) e Cechin (PP), dois representantes da direita. Qual você acha que deve ser o posicionamento dos lutadores e das lutadoras neste segundo turno?

Alice — Defendo, sem sombra de dúvidas, o voto nulo! Primeiro, porque acredito ser necessário manter a coerência do primeiro turno. Além disso, porque a disputa neste segundo turno está entre partidos de direita que em absolutamente nada representam nosso projeto, muito pelo contrário, são inimigos de classe. PSDB está com PSL, PP está com MDB, além disso ambos contam com o apoio de outros partidos, como é o caso do PcdoB que apontou ‘’voto crítico’’ no Pozzobom e PDT que declarou apoio no Cechin. Na disputa estão representantes de políticas ultraliberais, portanto voto nulo é o certo nas urnas. E nas ruas, a luta contra esses setores deve seguir e se intensificar cada vez mais.

CS Após sair o resultado eleitoral, muitos falaram que votarão em ti nas próximas eleições novamente, o que é positivo. Mas temos visto que os ataques da burguesia e as lutas da nossa classe não esperam o calendário eleitoral. Neste sentido, qual você acha que é o papel da esquerda socialista após as eleições?

Alice — Nossa luta não começa e nem se encerra nas urnas. Isso é o que acredito. Agora é preciso analisar como os resultados das eleições impactarão o cenário político local e nacional, e a a partir disso continuarmos nossas mobilizações nas ruas, nas redes, nas greves, ocupações e em todos os espaços que ocupamos. Também devemos denunciar os governos e a estrutura sob a qual estamos vivendo, fortalecer a unidade da esquerda socialista e os espaços de construção conjunta e lutar para postular o PSOL como alternativa de poder para seguir mobilizando a população em prol da luta pelos nossos direitos. E claro, continuar construindo um programa revolucionário, alavancar nosso projeto de sociedade e disputar narrativas e, principalmente, corações e mentes. Dizemos que só a luta muda vida. E é isso que eu defendo. A organização da nossa indignação e a construção da resistência coletiva.


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