Grande eleição de candidatura indígena no Equador

Miguel Lamas, dirigente da UIT-CI

Em 7 de fevereiro foram realizadas as eleições nacionais no Equador, em meio a uma profunda crise política. O candidato correista Andrés Arauz obteve 32% dos votos, Yaku Pérez de Pachakutik e a organização indígena CONAIE, surpreenderam com quase 20% e o banqueiro Guillermo Lasso outros 20%, com uma diferença de centésimos entre os dois, pelos quais está sendo exigida recontagem de votos e ainda não se sabe quem vai disputar o segundo turno com Arauz.

Yaku Pérez, candidato de Pachakutik, é ex-prefeito (governador) da província de Azuay e líder do movimento indígena nacional CONAIE. As pesquisas prévias lhe davam um distante terceiro lugar, num panorama eleitoral confuso que dispersou os votos populares anticorreistas, com 15 candidatos e sectores que romperam com o correísmo que chamaram o voto nulo.

24 horas antes das eleições, e com 97% já contabilizados, Yaku Pérez ficou em segundo lugar. Mas – suspeitamente – três dias depois ele perdeu por décimos para Lasso. Yaku denunciou a manipulação de dados pela CNE e pelo partido correista de Araúz. É conveniente para o Correísmo que no segundo turno Lasso seja o seu adversário, pois venceria facilmente por se identificar com a direita oligárquica. Por outro lado, ele provavelmente teria mais dificuldades eleitorais se Yaku fosse seu adversário no segundo turno.

Lenín Moreno e Rafael Correa

Correa governou de 2007 a 2017. Como Lula ou Maduro e toda essa corrente, ele teve um duplo discurso, de um suposto socialismo e antiimperialismo, mas com uma economia cada vez mais orientada para o investimento multinacional principalmente em petróleo e mineração, além de uma grande corrupção. Os setores indígenas e populares foram reprimidos por se oporem a essa economia a serviço das multinacionais. Yaku Pérez foi acusado em 2011 de “terrorismo” por promover mobilizações indígenas contra um projeto de mineração que afetava a água. Ele foi preso 3 vezes e sofreu dezenas de processos judiciais.

Em 2017, Correa já estava desacreditado e não concorreu como candidato. Sua organização, Alianza País, teve como candidato Lenín Moreno, que havia sido seu vice-presidente, e que ganhou as eleições no segundo turno e com muito pouca margem para o próprio Guillermo Lasso. Pouco depois da vitória, Lenin Moreno rompeu com Correa, girando à direita.

O levante popular indígena de outubro de 2019

Em outubro de 2019 houve um grande levante popular contra a tentativa do governo Lenin Moreno de fazer um acordo com o FMI, onde um dos pontos era um aumento de 100% na gasolina e ajuste do setor público. Milhares de indígenas ocuparam Quito, com o apoio de milhares de estudantes. Ocuparam o Parlamento e botaram para correr todos os deputados e senadores e o presidente Lenin Moreno. A repressão causou 10 mortes, mas eles não conseguiram derrotar o levante.

Yaku Pérez foi uma das figuras principais desta revolta. Propôs então a dissolução do parlamento odiado pelo povo e a instalação do Parlamento Popular, com representantes das organizações indígenas (CONAIE, Amazónicos), a FUT de trabalhadores, estudantes e populares, que assumiriam o poder legislativo.

Uma semana depois, com o centro de Quito ainda ocupado pelos indígenas, com a mediação da Igreja e da ONU, o acordo com o FMI foi anulado. Só então os indígenas foram embora e o presidente e os deputados e senadores puderam voltar aos seus lugares.

O Parlamento Popular se reuniu um mês depois e formulou um programa para um futuro governo.

A candidatura de Yaku Pérez

A candidatura de Yaku Pérez em Pachakutik é então uma expressão da rebelião indígena, liderada pela CONAIE e da ruptura de setores indígenas e populares com o Correísmo.

Yaku Pérez levantou amplamente o programa do Parlamento do Povo e concentrou sua campanha na defesa da água para a agricultura nas comunidades indígenas. Seu nome original, que era Carlos Pérez, foi até mudado para Yaku, que significa água em quíchua. A escassa água nas terras altas do Equador é envenenada por empresas mineradoras multinacionais, ou monopolizada por alguns proprietários de terras. Yaku indica que, se triunfar, fará um plebiscito para banir a mineração de metal. Também defende o apoio econômico à pequena produção camponesa indígena, suspendendo o pagamento da dívida externa e “repatriação” do capital escapado, um imposto sobre os ricos para pagar a crise, acabar com a corrupção e cortar pela metade todos os altíssimos salários de deputados, ministros e governantes.

Yaku Pérez fala em alcançar as demandas populares pactuando, sem corrupção e “de forma transparente”, com multinacionais e banqueiros e todos os setores em um plano de desenvolvimento nacional. A experiência histórica de luta dos trabalhadores indígenas e equatorianos e também internacionais, indica claramente que essas justas reivindicações não podem ser alcançadas sem o enfrentamento com os capitalistas, multinacionais, oligarcas e banqueiros e muito mais quando, mesmo ganhando a presidência em um segundo turno, Pachakutik estará em minoria no Parlamento eleito.

Portanto, caso se derrote a fraude e Yaku Pérez triunfe, é imprescindível que o Parlamento Popular se reúna, novamente, com representantes de organizações indígenas, de trabalhadores, estudantis e populares, para definir o plano socioeconômico em favor dos setores populares que terão de impor com a luta.

Diante da denúncia de fraude feita por Yaku Pérez, iniciou-se uma importante mobilização de indígenas e organizações populares, que inicialmente obrigou o CNE (Conselho Eleitoral) e o banqueiro Lasso a aceitar a exigência de recontagem de votos em 17 províncias. Mas, agora, o próprio Lasso diz que não há necessidade de contar votos se os 16 candidatos não concordarem!

Embora o programa de Pachakutik seja limitado e reformista, de conciliação de classes, expressa as principais demandas indígenas que o correismo traiu. Por isso, seria um grande triunfo democrático para o movimento indígena e os trabalhadores se fosse ao segundo turno para enfrentar a candidatura de Araúz. Nós da UIT-CI apoiamos a luta dos povos indígenas e trabalhadores equatorianos e nos unimos à exigência de que não se consume a fraude contra a candidatura de Yaku Pérez.

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