Mianmar | Rebelião popular contra o golpe

por Miguel Lamas, dirigente da UIT-QI

Tradução de Lucas Schlabendorff

Uma greve geral iniciada no dia 8 de fevereiro e multitudinárias mobilizações comovem Mianmar (ex Birmânia). Repudiam o golpe de Estado militar do dia 1 de fevereiro que dissolveu o Parlamento eleito em novembro e prendeu o presidente Win Myint, a líder nacional conselheira de Estado, Aung San Suu Kyi, e dezenas de membros do Governo civil.

A greve geral tem alta participação e inclui trabalhadores têxteis convocados por seu sindicato, professores, médicos, enfermeiras, estudantes e até bombeiros. Centenas de milhares estão nas ruas de Yangon, a capital, e em outras grandes cidades pelo terceiro dia consecutivo.

O partido encabeçado por San Suu Kyi (Liga Nacional pela Democracia), formalmente no governo desde 2016, ganhou as eleições parlamentares com 83% dos votos, colocando em risco o domínio militar do Estado que se sustenta há quase meio século. A Constituição feita pelos militares em 2008, com uma suposta abertura democrática, permite as eleições mas deixa os militares no controle total dos ministérios do Interior, Defesa e Fronteiras, e os generais elegem 25% dos assentos parlamentares. Para mudar a Constituição é preciso aprovação militar.

Suu Kyi, filha do general Aung San, herói da independência birmanesa, se converteu em um dos ícones do movimento pela democracia no país. Em 1991 ganhou o prêmio Nobel da Paz por sua luta em favor da democracia e dos direitos humanos. Foi submetida a prisão domiciliar de 1995 até 2010 pela ditadura militar. Agora foi presa novamente sob a acusação ridícula de possuir em sua casa vários walkie-talkies “importados ilegalmente”, com o que poderiam condená-la a três anos de cárcere.

Mianmar, com 54 milhões de habitantes, é um dos países com mais pobreza na Ásia. Durante anos as minorias étnicas têm sido perseguidas, o povo muçulmano rohingya teve sua nacionalidade negada, milhares foram assassinados e cerca de 700 mil fugiram do país. Há denúncias de trabalhos forçados nas minas.

Sua economia é, em grande parte, agrária. Os militares controlam centenas de licenças de exploração das lucrativas minas de rubis e jade, cujo valor total no país é estimado em cerca de 31 bilhões de dólares, quase metade do PIB nacional. A China tem presença econômica crescente e excelentes relações com os militares. É o principal sócio comercial (um terço do comércio exterior) e há 69 multinacionais chinesas em minas, hidroelétricas, produção de automóveis, extração de petróleo e gás. Mas também há profundos laços com as multinacionais ocidentais. O porta-voz da ONG Justice for Myanmar, Yadanar Maung, assegura que a Myanmar Oil and Gas Enterprise (MOGE) é o negócio militar mais lucrativo, com contratos com multinacionais como a francesa Total, e estadunidense Chevron e a sul-coreana Posco. A multinacional espanhola Zara tem contratos com empresas para fabricar roupas de luxo com operárias recebendo menos de 80 dólares mensais.

Nos somamos à reivindicação popular pela liberdade dos presos, contra os militares e pelo reconhecimento do resultado eleitoral. O Conselho de Segurança da ONU expressou “preocupação” pelos fatos ocorridos, mas graças ao veto da China e da Rússia se negou a condenar o golpe. Estados Unidos e Europa “condenam”, mas seguem fazendo bons negócios e explorando os trabalhadores no país.

Cabe destacar que durante o governo capitalista de San Suu Kyi, desde 2016, não se fez nada para mudar ou denunciar a brutal repressão ao povo, nem a superexploração dos trabalhadores. Isso reflete que defende os interesses da burguesia de Mianmar, associada ao imperialismo, e não os explorados e oprimidos.

O grande levante democrático do povo contra o golpe militar mostra também a necessidade de uma alternativa política do povo trabalhador, que defenda os plenos direitos para as minorias nacionais e direitos trabalhistas contra a exploração imperialista.

 

Escrito no dia 10 de fevereiro de 2021

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