Solidariedade com a rebelião popular na Colômbia

Na Colômbia, desde o dia 28 de abril, se iniciou uma rebelião popular de centenas de milhares de membros da classe trabalhadora, indígenas, camponeses, negros e negras, jovens e mulheres contra uma reforma tributária e um pacotaço econômico antipopular. O governo de Iván Duque se viu obrigado a “retirar” a dita reforma. Depois desse primeiro triunfo, organizações convocantes anunciaram que a paralisação continua até a retirada de todo o pacotaço, pelo fim da repressão e pelo Fora Duque.

No dia 28 de abril, o Comando Nacional de Paralisação, integrado pelas três centrais sindicais (CUT, CTC e CGT) e pela Fecode (Federação de docentes), convocou uma paralisação nacional, à qual também se somaram organizações estudantis, a Minga indígena e organizações de diversas comunidades rurais e urbanas.

A paralisação transbordou o limite das direções e se estendeu depois do dia 28 de abril. Se expressou nas principais cidades do país através de massivas mobilizações. O epicentro foi a cidade de Cali, capital de Valle del Cauca, onde os protestos foram particularmente massivos e a paralisação é quase total, com bloqueios de ruas e estradas para as áreas circundantes. Na terça-feira, dia 4 de maio, as mobilizações, paralisações e bloqueios de ruas e estradas em Cali, Bogotá e nas principais cidades seguiam.

Diante da gigantesca mobilização, o governo direitista de Iván Duque tentou, primeiramente, reprimi-la com uma violenta intervenção militar, especialmente na cidade de Cali, onde organizações denunciaram o assassinato de 30 manifestantes, e há centenas de feridos e presos. No entanto, isso não foi capaz de tirar os manifestantes das ruas, nem em Cali e nem nas outras cidades.

Depois de 4 dias de protestos massivos, o governo teve que retroceder e solicitou ao Parlamento que não votasse o projeto de lei de reforma tributária que havia sido apresentados poucos dias atrás.

Um pacotaço de fome

O pacotaço econômico de fome apresentado tinha o objetivo de fazer com que o povo pagasse pela crise econômica e pela dívida externa. Incluía uma reforma tributária ou fiscal com aumento de impostos ao pequeno comerciante e camponeses, impostos sobre a água, eletricidade e até serviços funerários no valor de 19%; imposto (IVA) sobre produtos da cesta básica familiar, além de uma reforma trabalhista facilitando a terceirização e a precarização do trabalhador; uma reforma sanitária com mais privatização da saúde e uma reforma da previdência. O próprio governo Duque havia tornado público que 73% das arrecadações vinham de pessoas físicas e apenas 27% das empresas, em um país onde o setor financeiro, no ano de 2020, pagou apenas 1,9% de impostos sobre suas atividades milionárias.

Agora, o governo afirma a retirada da reforma tributária, que era a principal demanda (ainda que não a única) da paralisação. Em seguida, o Ministro da Fazenda, Alberto Carrasquilla, renunciou. Tudo isso foi um triunfo direto da imensa mobilização popular.

Por outro lado, há anos, o governo de Duque continua com a expropriação a ferro e fogo das terras dos camponeses e indígenas, entregando-as aos latifundiários e as fontes hídricas, os recursos naturais e minerais às multinacionais imperialistas.

Duque é homem de Alvaro Uribe (presidente do país de 2002 a 2010), que encabeçou a mais forte repressão paramilitar ilegal contra o movimento de massas.

Em 2019 já havia ocorrido grandes protestos contra a política econômica pró-empresarial e pró-imperialista do governo de Duque e de seu Ministro da Fazenda, Alberto Carrasquilla.

A mobilização debilitou Duque

A organização Colectivos Unidos, simpatizante da UIT-QI na Colômbia, impulsionou e fez parte dessa grande mobilização popular. Em recente declaração, afirma: “O Presidente Duque e todos os seus funcionários, que até esta semana falavam grosso pelo rádio e televisão, hoje escondem suas caras para não sofrerem um linchamento público”.

Partidos capitalistas e reformistas parlamentares, como o antigo Partido Liberal, o Partido de la U e Mudança Radical, manifestaram sua oposição a certos aspectos do projeto de reforma tributária. Enquanto isso, a Igreja e associações econômicas patronais ofereceram seus “bons ofícios” para promover um “diálogo nacional” com as “forças vivas”. Ainda que, no fundo, tenham apoiado o ajuste antipopular, agora tratam, evidentemente, de frear a mobilização popular com esse tal “diálogo”.

A luta continua e enfrenta a brutal repressão

Apesar do governo ter recuado na reforma tributária, grande parte do povo trabalhador e da juventude não acredita nem em Duque e nem nos partidos do Parlamento, e, por isso, voltam para as ruas mesmo após a retirada da reforma tributária. O triunfo fortaleceu a rebelião e enfrenta as forças repressivas de Duque nas ruas. O plano de militarização está fracassando e a mobilização popular não se deteve, apesar da repressão criminosa.

No domingo, 2 de maio, se difundiu esta declaração em Cali: “Nós, das organizações sociais, estudantis, sindicais, indígenas, populares, de mulheres, dos bairros […] reconhecemos que ganhamos uma primeira batalha diante da decisão do governo de retirar a Reforma Tributária, mas afirmamos que NÃO teremos ganhado a luta até que se retire TODO o Pacotaço de Duque, o que inclui a Reforma Trabalhista, a Reforma da Saúde e a Reforma da Previdência; até que seja feita justiça pelas pessoas assassinadas, feridas e detidas […] e, sobretudo, até que Duque renuncie. Até que todas nossas demandas sejam atendidas, a PARALISAÇÃO não cessará sobre Cali e sobre o Valle del Cauca”.

O Comando Nacional de Paralisação (CUT, CTC, CGT e Fecode), por sua vez, depois da retirada da reforma tributária, declarou: “Com este anúncio do governo não se detém a mobilização, as pessoas nas ruas estão pedindo muito mais que este anúncio da retirada do projeto”. E convocam uma nova paralisação e grande mobilização desde a quarta-feira, dia 5 de maio.

Para a continuidade da luta são necessárias tanto as Assembleias Populares, como as que convocam em Cali, como um Encontro Nacional com participação democrática de todas as organizações em luta, representantes dos bloqueios e das assembleias populares para debater um plano de demandas e as medidas de luta para derrotar o governo e seus ataques.

O importantes é que a luta segue em todo o país, agora reivindicando a eliminação total do pacote econômico e que Duque seja derrubado. Também se exige o fim da repressão, o fim da militarização das cidades, a dissolução da odiada polícia, o Esmad, liberdade para os detidos e punição para os responsáveis dos crimes repressivos.

Nós, da UIT-QI, nos solidarizamos com o povo colombiano e chamamos a mais ampla unidade de ação internacional, com protestos em frente às embaixadas e consulados do mundo. Chamamos o apoio e solidariedade internacional para que triunfe a grande rebelião popular do povo colombiano.

 

Unidade Internacional de Trabalhadoras e Trabalhadores – Quarta Internacional (UIT-QI)

4 de maio de 2021

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