Sobre Pedro Castillo e as eleições no Peru

Enquanto este texto é escrito, Pedro Castillo, candidato a presidente pelo partido Peru Livre, está triunfando por uma pequena margem, segundo a contagem oficial. Enquanto isso, Keiko Fujimori denuncia uma suposta “fraude”, sem dar nenhuma prova, mostrando sua nítida intenção de deslegitimar a vitória de Castillo. Se amplia, assim, o giro eleitoral à esquerda que já havia se manifestado no primeiro turno.

As eleições ocorreram em meio a uma profunda crise econômica e sanitária. O Peru é um dos países do mundo com mais vítimas por habitante na pandemia de Covid-19. O modelo econômico capitalista de privatizações, corrupção, mineração multinacional depredadora e de destruição da legislação trabalhista afundou milhões de peruanos na pobreza.

Pedro Castillo teve votações superiores a 80% no sul do país, com o apoio de importantes setores camponeses que lutaram contra as multinacionais mineradoras que destroem a agricultura. Se consolidou um amplo giro eleitoral à esquerda por parte de milhões de trabalhadores e trabalhadoras da cidade e do campo que não caíram na propaganda reacionária da direita que acusava Castillo de “comunista” e “senderista” (referência ao Sendero Luminoso).

Enquanto isso, em Lima (capital), Fujimori ganhou, principalmente nos bairros de classe média e classe média-alta.

O resultado de 97% das mesas de votação dava Pedro Castillo como ganhador, com 8.596.000 votos, seguido por Keiko Fujimori, com 8.512.000 votos.

As denúncias de fraude carecem de provas e são absurdas, pois a aliança de partidos de direita que apoia Fujimori é a que controla o órgão eleitoral. Ou seja, se houve alguma fraude, foi a favor de Fujimori, mas não foi suficiente para virar o resultado.

O voto em Pedro Castillo canalizou a indignação de milhões

Pedro Castillo, professor rural, de origem camponesa e indígena, se tornou conhecido quando, em 2017, liderou uma grande greve de três meses do magistério peruano, desafiando a direção burocrática do sindicato e o governo direitista de Pedro Pablo Kutzinsky, que queria liquidar o estatuto do magistério.

Castillo foi a surpresa do primeiro turno, quando conquistou o primeiro lugar com 19% dos votos. No segundo turno, se produziu essa reviravolta massiva com milhões de professores, operários e camponeses. Teve o apoio eleitoral de setores de centro-esquerda, como Verónika Mendoza (Juntos pelo Peru) e de Marco Arana (Frente Ampla), assim como das organizações sindicais, operárias e camponesas e do movimento Não a Keiko. Também do Partido dos Trabalhadores – Uníos (seção peruana da UIT-QI) e da Alternativa Socialista (AS) de Ayacucho.

Mas o central é que Pedro Castillo canalizou a indignação e o ódio de milhões de pobres do Peru, fartos dos governos patronais e corruptos que respondem aos interesses das multinacionais e dos empresários.

Esses milhões também votaram contra Keiko, filha do ditador Alberto Fujimori, atualmente preso por corrupção e pelos assassinatos ocorridos sob seu governo. Keiko Fujimori também está sendo processada por ter recebido subornos milionários da multinacional construtora Odebrecht. Se perde, como o escrutínio indica, poderá ir presa.

Keiko Fujimori recebeu o apoio dos partidos mais corruptos e direitistas (APRA, PPC, APP, PP), das corporações empresariais (CONFIEP e outras) e de toda a direita imperialista, encabeçada por Vargas Llosa, no exterior. Fizeram uma fortíssima campanha anticomunista, acusando Pedro Castillo de ser membro do Sendero Luminoso, organização guerrilheira da década de 80, hoje inexistente.

“Avancemos para derrotar Keiko, a direita e os capitalistas”

O Partido dos Trabalhadores – Uníos (UIT-QI) e a Alternativa Socialista de Ayacucho, que foram parte da campanha pelo voto em Pedro Castillo, chamam a mobilização para defender o voto popular e convocam a luta contra essa direita “para sepultá-la junto com sua Constituição, seu modelo econômico e seu regime podre que todos os governos ‘democráticos’ sustentaram”.

“A maior crise capitalista da história demonstrou, mais uma vez, o fracasso do modelo de fome responsável pelo sistema de saúde privatizado e pelos mais de 180 mil falecidos em meio à pandemia; responsável pelas milhões de demissões e pelo fato de que 75% dos trabalhadores precisem sobreviver na informalidade, sem direitos.” Denunciam que “os capitalistas roubaram o dinheiro do povo para manter seus lucros com subsídios milionários nos últimos 10 anos. Roubaram do povo 130 bilhões de sóis (equivalente a 34 bilhões de dólares), valor equivalente a todo o investimento anual do ano de 2015. E o FMI espera, com muito gosto, receber 47 bilhões de sóis (12 bilhões de dólares) pelo pagamento da dívida externa, aprovados pelo Congresso para 2021, enquanto o sistema de saúde atende mais de 30 milhões de peruanos com metade do valor!”

PT-Uníos e AS apontam que Pedro Castillo “só defende medidas limitadas e parciais redistributivas”, mas não as medidas de fundo necessárias para superar a crise. Assim como, em seu programa, propõe “a velha proposta de governar com empresários e políticos patronais. Proposta que já fracassou, como demonstraram os governos de Maduro na Venezuela e de Lula-PT no Brasil” (declaração de 19/05/2021).

“Diante desta situação, nós, socialistas revolucionários, que lutamos para acabar não somente com o modelo, mas também com o sistema de exploração capitalista, acompanhamos o povo e chamamos a votar Pedro Castillo […] a partir de uma posição de independência de classe, defendendo a luta e a organização para impor as medidas de fundo que o povo necessita e que não podem ser negociadas em alianças e acordos com os inimigos do povo”.

“Para derrotar o modelo e o sistema de fome, levemos adiante a mobilização e a luta por uma saída operária, popular e camponesa para que a crise seja paga pelos capitalistas, e não pelos trabalhadores e os povos!”

Miguel Lamas, dirigente da UIT-QI

8 de junho de 2021

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