Eduardo Leite: a opressão nos une, mas a classe nos divide

No dia 1º de julho, logo após o Mês do Orgulho LGBTQIA+ (junho) e na mesma semana em que celebramos a data do 28 de junho (Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+, em homenagem à Revolta de Stonewall), o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), manifestou publicamente que é gay. O fato ocorreu em entrevista ao programa de Pedro Bial, da Rede Globo. Mesmo antes do programa ir ao ar, a notícia já corria nas redes sociais, com muitas pessoas saudando a coragem de Eduardo Leite em assumir publicamente a sua orientação sexual, já que vivemos em uma sociedade em que, lamentavelmente, isso é muito difícil. Inclusive, muitos parlamentares e figuras públicas da oposição, como Manuela D’Ávila (PCdoB), e até parlamentares de esquerda, do PSOL, como Luciana Genro e Fernanda Melchionna (MES), Karen Santos (Alicerce) e Matheus Gomes (Resistência), se manifestaram saudando a coragem de Eduardo Leite. Algumas das manifestações frisavam a existência de “divergências políticas” com Leite, outras nem chegavam a mencionar esse “detalhe”.

De nossa parte, enquanto socialistas revolucionários, além de lutarmos contra a exploração diária à qual a classe trabalhadora é submetida, também lutamos contra qualquer tipo de opressão, principalmente a opressão contra as orientações afetivo-sexuais e identidades de gênero não hegemônicas na sociedade capitalista e patriarcal. Consideramos positivo que a luta do movimento pela diversidade faça com que cada vez mais pessoas possam afirmar publicamente serem gays, lésbicas, bissexuais e sua verdadeira identidade de gênero, adotarem seus verdadeiros nomes e etc. Por isso, repudiamos qualquer ataque LGBTfóbico que o governador Eduardo Leite já sofreu, está sofrendo ou que ainda venha a sofrer por ser gay. É uma questão de princípio.

No entanto, essa questão de princípio que nos leva a repudiar os ataques LGBTfóbicos contra Leite não pode, de forma alguma, nos levar ao erro de capitular à figura política do governador. Leite não é um indivíduo qualquer, mas um quadro político de direita, do PSDB, que governa um dos principais estados do Brasil. Precisamos ter isso em mente para compreender que o fato de Leite ser gay não o torna um aliado. Na mesma entrevista onde assumiu a homossexualidade, Leite afirmou ser um “governador gay”, e não um “gay governador”. A ordem das palavras poderia parecer pura estética, mas, com isso, ele quis dizer que o fato de ele ser gay enquanto indivíduo não implicaria em nada no seu mandato de governador. Como é possível um gay ser governador e não utilizar isso para dar um basta na opressão? Só mesmo na visão liberal da direita. Leite fez referência a Barack Obama que, sendo o primeiro presidente negro dos EUA, não deixou que isso implicasse em seu mandato. Obama, mesmo sendo negro e sofrendo na pele a opressão, continuou atacando militarmente os povos de países que não seguiam à risca a ordem imperialista e, internamente, seguiu a política de criminalização do povo negro e latino que vive nos EUA. Esse é o exemplo em que Leite se inspira. Essa separação que Leite faz entre sujeito privado e sujeito político o levou, por exemplo, a apoiar a candidatura do atual presidente genocida, Jair Bolsonaro, no segundo turno das eleições de 2018, mesmo com Bolsonaro sendo internacionalmente conhecido por sua política de ódio contra LGBTs. “Seria incapaz de amar um filho homossexual. Não vou dar uma de hipócrita aqui: prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí. Para mim ele vai ter morrido mesmo.” Essa é uma das frases escandalosas de Bolsonaro, junto com outras em que defende a agressão física para “curar” LGBTs. Foi esse o candidato que Leite apoiou no segundo turno de 2018.

Além disso, a política ultraliberal de Eduardo Leite e do PSDB é contraproducente para a verdadeira libertação das LGBTs. No RS, seu governo vem atacando brutalmente a classe trabalhadora. Nos serviços públicos, o governo Leite retira direitos, corta e atrasa salário dos servidores e os joga numa miséria cada vez mais crescente. As e os profissionais da educação chegam a passar fome, sofrem dificuldades relativas à saúde mental e há casos, inclusive, de suicídios. Os projetos de Eduardo Leite para privatizar as estatais gaúchas irão contribuir para piorar, ainda mais, essa realidade, num estado que conta com mais de 500 mil desempregados. A classe trabalhadora no geral sofre com essa realidade, mas isso se agrava ainda mais quando destacamos que uma parcela da classe trabalhadora também é LGBT. Portanto, as LGBTs são duplamente atacadas pela política ultraliberal de Leite, pois têm a exploração (por ser classe trabalhadora) combinadas com a opressão (por serem gays, lésbicas, trans, etc.) O sistema capitalista se usa da combinação entre exploração e opressão para pagar salários menores para trabalhadores e trabalhadoras LGBTs, limitá-los a empregos precários, sofrendo assédio nos locais de trabalho e etc. Em meio à pandemia da Covid-19, Leite flexibilizou os cuidados sanitários para agradar os empresários e contribuiu para as mais de 30 mil mortes no estado. Quantas dessas pessoas eram LGBTs? Quantas LGBTs tiveram seu acesso à educação prejudicado pelas mais de 60 escolas públicas que foram fechadas por Leite?

Não basta ser gay. É preciso estar do lado certo. O passado, o presente e o futuro da luta LGBT estão ao lado da classe trabalhadora, numa luta comum para acabar com a exploração e a opressão. Por isso, a direita de Eduardo Leite não é nossa aliada. Repudiamos qualquer ataque homofóbico contra Leite e qualquer pessoa no mundo. Porém, seguiremos nas ruas e nas lutas da classe trabalhadora gaúcha para derrotar Leite e sua política de direita, responsável por ataques aos direitos do funcionalismo, privatizações e piora do nível de vida da nossa classe. Dentro da nossa classe, também seguiremos a conscientização para que nossos e nossas colegas entendam que não há nada de errado em Eduardo Leite ser gay, o que é errado é sua política de ataque aos trabalhadores e trabalhadoras.

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