Pobreza gera rebelião social na África do Sul

19 de julho de 2021

Por Miguel Ángel Hernández, dirigente da UIT-CI e do PSL da Venezuela

Em 9 de julho passado houve uma rebelião social na África do Sul. O saque de numerosas lojas e os incêndios foram reprimidos com violência pela polícia, que contou com o apoio de mais de 2.500 militares. Agora, o governo do presidente Cyril Ramaphosa, do partido Congresso Nacional Africano (CNA), fundado por Nelson Mandela, autorizou o envio de mais 25 mil soldados.

Segundo dados do próprio governo, já haviam 212 mortos e pelo menos 2.524 pessoas detidas. A maioria das vítimas da repressão policial ocorreu nas províncias de Gauteng e KwaZulu-Nata, duas das mais pobres do país, e na capital Johanesburgo.

 Protestos e corrupção

Os protestos eclodiram quando o ex-presidente Jacob Zuma, que governou o país entre 2009 e 2018, e também o Congresso Nacional Africano, foi detido para pagar uma pena de prisão de 15 meses por se recusar a testemunhar na investigação de numerosos casos de corrupção. Antes de se tornar presidente, Zuma já havia acumulado 783 denúncias de corrupção e estupro.

O CNA, desde sua ascensão ao poder, tem estado atolado em vários escândalos de corrupção. Em maio passado, seu secretário-geral, Elías Magashule, foi suspenso do cargo e, junto com outros 15 dirigentes do partido e funcionários do governo, enfrentará acusações de corrupção, acusados de apropriar-se de cerca de 12 milhões de dólares que haviam sido destinados à limpeza de amianto em habitações sociais em 2014.

 África do Sul: o país mais desigual do mundo

Os protestos iniciados pelos seguidores de Zuma foram o gatilho para que milhares de manifestantes saíssem às ruas da capital sul-africana e de outras cidades do país, dado o aumento da pobreza. O país africano de 60 milhões de habitantes tem metade de sua população vivendo na pobreza.

A África do Sul é o país mais desigual do mundo, de acordo com dados do Banco Mundial. As famílias mais ricas são quase 10 vezes mais ricas do que as famílias pobres.

Entre 2011 e 2015, a proporção da população negra e parda ou mestiça que vive na pobreza aumentou, segundo dados oficiais. Em 2015, a pobreza atingiu 62,4% da população negra, enquanto entre os brancos atingiu apenas 1%. (Dados da Stats SA, escritório oficial de estatísticas da África do Sul, em: https://www.bbc.com/mundo/noticias-internacional-48187011).

Além dos indiscutíveis avanços democráticos, a eliminação do apartheid em meados da década de 1990 não significou uma mudança substancial no padrão de vida da população negra, que é a maioria do país, e onde se concentra o maior número de pobres. Embora os aspectos mais aberrantes da segregação racial tenham desaparecido, não houve nenhuma mudança fundamental e estrutural. O país continuou submerso nas calamidades e diferenças sociais típicas do capitalismo.

A realidade é que os brancos e um setor da população negra, que se tornou uma elite ligada ao partido do governo e às empresas associadas, hoje têm os empregos mais bem remunerados, e não deixaram de enriquecer apesar da eliminação dos aspectos mais brutais do apartheid. Enquanto 25% da população negra vive com um euro e meio por dia, sem acesso à água, luz e educação; aglomerados nos mesmos guetos herdados do apartheid; convivendo com gangues criminosas e tráfico de drogas. Estima-se que cerca de 6 milhões de pessoas tenham HIV, de acordo com um relatório da Amnistia Internacional. (https://www.nuevatribuna.es/opinion/author/-que-esta-pasando-en-sudafrica/20121104114044083552.html)

O país, que já registrava 29% de desemprego em 2019, teve sua situação agravada com os efeitos da pandemia, atingindo 32,6% no primeiro trimestre de 2021, o que equivale a 7,2 milhões de desempregados, segundo dados do instituto oficial de estatística Stats SA, sendo o maior índice desde 2008, ano de início das medições trimestrais. (https://es-us.finanzas.yahoo.com/noticias/desempleo-sud%C3%A1frica-aumenta-ligemente-32-123055172.html). O desemprego é ainda maior entre os trabalhadores negros, chegando a mais de 40%.

De acordo com informações do governo sul-africano, no final de 2020 o produto interno bruto (PIB) contraiu-se naquele ano em pelo menos 7,2%. Embora a pandemia tenha agravado a situação econômica, o país já estava em recessão desde 2019.

A pandemia agravou a crise social e econômica

A crise económica e social que o país já atravessava foi agravada pelas restrições impostas pela pandemia, aprofundando a crise da saúde, a recessão, que gerou o aumento de demissões, e a fome em setores importantes

Nas últimas semanas, a onda de infecções por Covid-19 fez com que o governo estabelecesse novas restrições à atividade econômica, afetando os empregos precários e informais com que sobrevivem os setores mais pobres.

Foi precisamente esta medida que provocou a eclosão social, num país que segue com a desigualdade económica, social e étnica herdada do apartheid. A profunda desigualdade e a pobreza agravadas pela pandemia são as razões objetivas da revolta popular.

Por um plano operário e popular

A crise econômica mundial, já existente, foi agravada pelos efeitos sociais e econômicos da pandemia, expondo a face da fome, miséria e desigualdade do capitalismo imperialista mundial.

A rebelião na África do Sul é uma expressão do aprofundamento da crise econômica e social, e faz parte da enxurrada de rebeliões que está se espalhando pelo mundo, da América Latina à África. Tem um fio de continuidade com a recente eclosão social na Colômbia, mas antes, no Chile, Equador, Paraguai, em nosso continente, mas também com as grandes greves gerais de milhões de trabalhadores na Índia, com os coletes amarelos da França, com a rebelião no Líbano, com a quarta onda feminista, entre outros levantes populares que tem se registrado no mundo nos últimos dois anos.

Sem dúvida, a solução fundamental para a África do Sul é implementar um governo da classe trabalhadora e dos setores populares, para isso é necessário avançar na construção de uma alternativa política para a classe trabalhadora. Uma nova direção revolucionária que levante um programa emergencial operário e popular, que tenha como ponto de partida parar de pagar a dívida externa, que rompa com os planos de ajuste do FMI, e coloque todo esse dinheiro para enfrentar a desigualdade e a pobreza que ainda persistem na África do Sul, apesar do fim do apartheid.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *