Seguir a batalha pela independência de classe no PSOL

Rosi Messias e Denis Melo, Coordenação da CST

No dia 29 de agosto, a etapa de votações para o Congresso do PSOL foi finalizada. Os números ainda estão sendo totalizados, porém é possível dizer que cerca de 50 mil filiados votaram ao redor do país.

O número de votos pode dar uma falsa impressão de participação efetiva da militância partidária. No entanto, ao olhar mais profundamente, podemos notar que esses números demonstram uma mudança de qualidade sobre o projeto fundacional do PSOL e esse Congresso demonstra muitos elementos dessa transformação.

O primeiro aspecto é que o PSOL foi fundado para ser um partido de esquerda contra a política de conciliação de classes do PT e de Lula e que agregasse as distintas tradições. A condição determinante para um partido nesse estilo é que exista um espaço de democracia efetiva para o livre debate político, com participação da militância e atuação comum na luta de classes.

O formato desse Congresso impediu, categoricamente, que houvesse qualquer debate político. As atividades virtuais foram um fracasso e a ampla maioria dos filiados votou sem saber o que dizia qualquer tese, até mesmo aquela em que estavam votando. Nós, da CST, já alertávamos que esse tipo de votação tinha como objetivo legitimar a política da direção majoritária do PSOL, de conciliação de classes, ampliando o controle do aparato partidário, diminuindo as demais forças de oposição. Por isso, fomos contrários a esse tipo de votação e defendemos o adiamento do Congresso e debates presencias.

De alguma forma, essas distorções sempre existiram, mas esse Congresso as elevou ao limite; agora, a única obrigação do filiado era apresentar um documento com foto e votar.

Esse fato gerou problemas maiores. Com esse formato de voto sem debate político, criou-se um clima de disputa de aparelhos, algo muito parecido com o Processo de Eleições Diretas (PED) do PT, onde prima o abuso do poder econômico das máquinas de gabinetes parlamentares e prefeituras, da utilização do fundo partidário para consolidar as atuais direções partidárias e de um processo completamente despolitizado.

No município de Macapá/AP, mais uma vez, operou-se a participação dos filiados para o Congresso do PSOL com o apoio logístico da prefeitura e com o apoio do DEM e diversos partidos patronais. Em todos os estados, como RJ, SP e PA, é possível apontar a utilização de vans para transporte de filiados, promessas eleitoreiras e inúmeros expedientes que nem mesmo nas eleições burguesas são tolerados.

Todo esse processo demonstra a transformação qualitativa que o PSOL vem sofrendo. Um processo de adaptação ao regime político, que reproduz formas de disputas dos partidos tradicionais, a serviço de manter uma cúpula partidária que milita para ser parte de governos comuns com setores da burguesia.

A oposição ao bloco da maioria fez uma boa votação

A realização do Congresso no meio da pandemia só se explicava para que a atual maioria conseguisse hegemonia na direção partidária. Efetivamente, o partido está dividido em duas grandes alas. De um lado há um setor majoritário que busca colocar o PSOL na frente ampla com partido patronais, encabeçada por Lula, e, de outro, há todo um setor que batalha para que o PSOL se postule com candidatura própria, sendo o porta-voz de um programa anticapitalista. Mesmo com todas as distorções, o setor partidário que reúne as organizações pela candidatura própria somou pouco mais de 41% dos votantes.

Chamamos o campo Semente a reavaliar sua política e romper com o campo majoritário

O campo Semente (Resistência, Insurgência e Subverta), que até aqui integra o campo majoritário do Partido ao lado da Primavera Socialista e Revolução Solidária, precisa reavaliar sua política. Até a eleição dos delegados, em função de disputas nos diretórios regionais, em estados como Rio de Janeiro e São Paulo, o campo Semente apresentou um discurso mais crítico, mas não esboçou nenhuma ruptura com o campo majoritário. E isso ocorre porque eles defenderam a mesma estratégia: a mesa de unidade pela frente ampla com Lula e suas negociações com Freixo do PSB (onde estão juntos todos os coletivos da ala majoritária, apesar de suas divergências estaduais). Mas o fato é que se permanecerem na atual política, seus votos irão entregar a presidência do partido à Primavera – organização do PSOL mais defensora de governos comuns com a burguesia, pois já os aplica em prefeituras como a de Belém, e que já deu muitas demonstrações de seu projeto, a exemplo da prefeitura em Macapá. E também é fato que, com seus votos, vão ajudar a construir a nova maioria nacional com a Revolução Solidária, que tanto os denuncia no Rio de Janeiro. A mesma Revolução Solidária avançou no partido a custa de operativos de votantes que superavam os piores momentos da Articulação/PT. É hora dos camaradas reverem sua política, romperem com o atual campo majoritário e passarem a construir uma nova direção para o PSOL, com cara própria e longe da conciliação de classes do PT, dos governos comuns com a burguesia e dos esquemas burocráticos de votação através de máquinas de filiados.

Manter a batalha com a unidade do bloco de oposição e a pré-candidatura de Glauber   

A disputa dos rumos do PSOL não pode se limitar ao número de delegados e divisão do aparato partidário. A oposição possui um triunfo nas mãos e é preciso seguir desenvolvendo esse campo com uma política de independência de classe.

Não se pode ignorar que a maioria dos delegados do Congresso estará alinhada ao setor que defende o apoio ao projeto de Lula. Porém, com uma forte campanha na base, com plenárias da militância e disputando um programa alternativo, será possível derrotar o projeto do setor majoritário do PSOL, assim como já fizemos em outros momentos no partido.

Para essa tarefa, é muito importante manter a pré-candidatura à Presidência da República do companheiro Glauber Braga. Repetir a vitoriosa plenária e organizar nos estados uma atuação comum das correntes que apoiam a pré-candidatura de Glauber.

Com chapas comuns no Congresso, intervindo nos calendários de lutas contra o desmonte das atuais direções sindicais e partidárias e impulsionando articulações ao estilo da Povo na Rua é possível batalhar por um polo social e político de independência de classe, que defenda o projeto fundacional do PSOL, que enfrente os governos burgueses e a política de conciliação de classes, como a que vem sendo gerada pelo PT e por Lula. Precisamos de um partido de combate e verdadeiramente de esquerda.

 

 

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